E-mails, reuniões e notificações disputam a atenção de quem trabalha e podem dificultar a percepção dos próprios limites. Na pesquisa global Work Trend Index de 2025, da Microsoft, 48% dos funcionários e 52% dos líderes afirmaram que o trabalho parece caótico e fragmentado.
Uma análise de dados agregados e anonimizados do Microsoft 365 também identificou uma média de 117 e-mails recebidos diariamente por trabalhador no universo analisado. O levantamento ajuda a dimensionar o volume de demandas digitais, mas não representa todas as profissões e jornadas de trabalho.
Para a terapeuta Luciana Ribeiro, o cansaço pode se tornar tão frequente que deixa de ser percebido como um sinal de alerta.
“O cansaço pode se tornar tão habitual que a pessoa deixa de prestar atenção nele. Depois da experiência, ela diz que precisava daquela pausa e não tinha percebido. Esse reconhecimento permite olhar para o que precisa mudar no dia a dia”, afirma.
Quando a sobrecarga exige atenção
A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta cargas excessivas, jornadas longas ou inflexíveis e pouco controle sobre o trabalho entre os riscos à saúde mental. A prevenção exige medidas que alcancem as condições e a organização do trabalho.
A entidade descreve o burnout como um fenômeno ocupacional decorrente do estresse crônico no trabalho que não foi administrado com sucesso. Suas características incluem exaustão, distanciamento mental ou sentimentos negativos em relação ao trabalho e redução da eficácia profissional.
“A rotina pode ser digital, mas o corpo tem necessidades e limites reais. Estar disponível no telefone não significa ter condições de assumir mais uma demanda. Precisamos reconhecer esses limites antes de chegar ao esgotamento”, avalia Luciana.
Arte e pausas no ambiente profissional
Atividades presenciais com arte, som e atenção plena estão entre as experiências oferecidas às empresas como parte de iniciativas de bem-estar. Segundo Luciana, que também é CEO do Zetha Group, essas práticas podem abrir espaço para reconhecer emoções e necessidades sem exigir relatos pessoais diante dos colegas.
“Às vezes existe algo muito íntimo que a pessoa não quer ou não consegue colocar em palavras. Ela sabe o que aquela experiência despertou, mas não precisa contar sua história, explicar o desenho ou falar diante do grupo”, explica.
A participação deve ser voluntária e respeitar a privacidade dos trabalhadores. Essas atividades podem complementar iniciativas de cuidado, mas não substituem mudanças nas condições de trabalho nem acompanhamento psicológico ou médico quando necessário.
Prevenção também depende das empresas
As recomendações da OMS incluem intervenções na organização do trabalho, capacitação de gestores e apoio aos trabalhadores. Entre as medidas estão avaliar e reduzir riscos presentes no ambiente profissional.
Na rotina, algumas ações merecem atenção:
- Rever demandas e prioridades: ajustar prazos, recursos e distribuição de tarefas à capacidade da equipe.
- Definir limites de disponibilidade: estabelecer critérios para contatos fora do expediente e respeitar os períodos de descanso.
- Garantir pausas: organizar intervalos ao longo da jornada, conforme as condições da atividade.
- Oferecer apoio: manter canais seguros de escuta e encaminhamento para atendimento.
- Procurar avaliação: buscar ajuda profissional quando o sofrimento ou a exaustão persistirem e comprometerem a rotina.
Segundo a OMS, depressão e ansiedade provocam a perda estimada de 12 bilhões de dias de trabalho por ano no mundo, com custo de US$ 1 trilhão em produtividade. O dado se refere a essas duas condições, e não especificamente ao burnout.










