No Brasil, sete em cada dez pessoas já recorreram a plataformas de Inteligência Artificial para buscar apoio emocional ou lidar com questões de saúde mental, segundo dados do Mind Health Report 2026. A facilidade de acessar um sistema disponível 24 horas por dia, rápido e programado para validar sentimentos, transformou robôs em confidentes diários.
O movimento, contudo, acende um debate que vai além da eficiência técnica e entra no campo do comportamento humano: o que acontece com a capacidade de se relacionar quando trocamos o convívio com pessoas — marcadas por divergências e imperfeições — por algoritmos previsíveis?
A provocação é central no livro Psicanálise x Inteligência Artificial – Saúde mental em tempos de algoritmos (Matrix Editora), escrito pela psicanalista e desenvolvedora de sistemas Evelin Queiroz. A autora analisa o impacto subjetivo da troca dos vínculos humanos por respostas automatizadas.
Para a especialista, a preferência por desabafar com telas reflete uma dificuldade contemporânea de lidar com a frustração e a imprevisibilidade do outro. A máquina se adapta, não rejeita e oferece conforto imediato, funcionando como um alívio sem tensão e um reconhecimento sem risco.
“A mente humana não opera apenas por comandos explícitos. Ela é atravessada por história, afeto, trauma e memória corporal. Na clínica, o analista recebe milhares de sinais em poucos minutos: o tom de voz, a hesitação, o silêncio e a repetição. Escuta-se o que é dito e o que escapa. A máquina recebe apenas o que é digitado. Em termos estruturais, é uma diferença abissal”, pontua Queiroz no livro.
Ao cruzar conceitos da psicanálise clássica e da sociologia contemporânea com o universo da tecnologia, a obra aborda temas como a “transferência digital”, a idealização do parceiro artificial e o isolamento provocado pela busca por relações sob medida.
A reflexão convida o leitor a olhar para a própria rotina digital: ao escolher interagir com uma inteligência que não contraria nem impõe limites, o indivíduo pode estar treinando a incapacidade de sustentar laços reais na vida fora das telas.










