A solidão é hoje o fator de risco mais diretamente associado à piora da saúde mental no Brasil. É o que revela o estudo Panorama da Saúde Mental 2026, realizado pelo Instituto Cactus em parceria com a AtlasIntel. De acordo com o levantamento, que ouviu 4.601 pessoas em todas as regiões do país, a sensação de isolamento afeta 36,5% da população e reduz drasticamente a qualidade de vida emocional, superando outros fatores de estresse do cotidiano.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) já classifica a solidão e isolamento social como uma ameaça global à saúde pública. Segundo o órgão, os efeitos nocivos de não manter conexões humanas equivalem a fumar até 15 cigarros por dia, aumentando o risco de depressão, declínio cognitivo, doenças cardíacas, diabetes e morte prematura.
Impacto no índice de saúde mental e o papel das redes sociais
Para mensurar o bem-estar da população, a pesquisa utiliza o Índice Contínuo de Avaliação da Saúde Mental (ICASM), uma escala que vai de 0 a 1.000 pontos. Enquanto a média nacional ficou em 671 pontos em 2026, a pontuação despencou para 383 pontos entre os entrevistados que relataram sentir solidão com frequência (três vezes ou mais no período pesquisado). Em contrapartida, quem não relatou o sentimento atingiu 782 pontos.
“Uma saúde mental inferior tende a levar mais à solidão, e o estado de solidão também afeta a saúde mental”, explica Mariana Rae, especialista em saúde mental do Instituto Cactus e mestre em saúde pública pela Universidade Harvard.
A pesquisa detalha os perfis mais vulneráveis ao isolamento:
Solteiros: 51,7% relatam solidão (contra 26,6% dos casados).
Pessoas com diagnóstico prévio de transtorno mental: 52,5%.
Usuários intensivos de redes sociais: 46,8% daqueles que passam três horas ou mais por dia em plataformas digitais sentem-se sós, contra 26,1% entre usuários moderados.
Conflitos familiares: Entre quem relatou brigas frequentes com parentes, o índice de solidão atinge 84,2%.
Prescrição social e o fortalecimento de vínculos comunitários
Na direção oposta, a convivência comunitária surge como a principal proteção para o bem-estar psicológico. Quem encontrou amigos nas duas semanas anteriores à pesquisa registrou pontuação de 737 no ICASM. Prática de atividades físicas, voluntariado e frequência a espaços religiosos também registraram forte associação com índices elevados de equilíbrio emocional.
Especialistas ressaltam que combater o isolamento exige infraestrutura urbana, transporte acessível, parques seguros e opções de lazer gratuito nas cidades. No âmbito médico, cresce a adoção da chamada prescrição social, na qual profissionais de saúde recomendam o engajamento em grupos comunitários, hortas coletivas ou atividades culturais como parte do tratamento.
“Uma pessoa pode morar sozinha e ter vínculos fortes, outra pode estar cercada de gente e sentir que não tem com quem contar. Muito mais do que preencher o tempo, é preciso fortalecer vínculos”, destaca o médico Sandro Batista Rodrigues, diretor de pesquisa da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC).
O risco do uso de Inteligência Artificial para combater a solidão
O estudo também mapeou a relação entre tecnologia e suporte emocional. Embora 86,4% dos entrevistados já tenham utilizado ferramentas de Inteligência Artificial (IA) e 51,9% recorram a geradores de texto como ChatGPT e Gemini, o uso para fins afetivos acende um alerta entre especialistas.
Segundo o levantamento:
15% dos entrevistados usaram IA durante momentos de crise emocional.
9,1% fizeram a chamada “terapia por chatbot”.
32,1% das pessoas que relataram solidão frequente buscaram companhia em ferramentas de IA.
Mariana Rae adverte para o perigo de substituir o contato humano por softwares genéricos. “Existe uma falsa sensação de conexão, mas ela ocorre com uma máquina. Isso pode fazer com que a pessoa vá se isolando ainda mais”, aponta. Ela reforça que a IA não substitui o atendimento profissional no SUS ou na rede particular, devendo atuar apenas como ponte para o cuidado humano.
Fatores financeiros, apostas online e o impacto nos jovens
Além do isolamento social, a situação financeira é a principal fonte de preocupação declarada no país, citada por 78,1% dos participantes. A pesquisa aponta ainda que 17,2% dos entrevistados chegaram a passar fome por falta de recursos no período analisado.
O levantamento também identificou o impacto das apostas virtuais (bets): os 9,2% dos entrevistados que declararam apostar registraram média de 587 pontos no ICASM, e 77,6% desses apostadores relatam preocupação financeira constante.
Jovens x Idosos
O recorte por faixa etária revela que os jovens de 16 a 24 anos enfrentam os piores níveis de sofrimento psíquico, impulsionados pela pressão de transição para a vida adulta e pela comparação contínua nas redes sociais:
83,6% dos jovens relataram desinteresse ou falta de prazer em tarefas cotidianas.
70,5% disseram sentir-se deprimidos ou para baixo.
58,2% relataram insegurança com a própria capacidade intelectual ou imagem corporal.
Em contrapartida, a população idosa (60 anos ou mais) apresentou o melhor índice de saúde mental da série (806 pontos), associado ao amadurecimento, redefinição de prioridades e seleção de laços afetivos mais saudáveis.










