A trajetória de duas décadas do coletivo OPAVIVARÁ! caracteriza-se pela ocupação das ruas, pela dessacralização das linguagens artísticas e pela criação de dispositivos de interação direta. Surgido no cenário carioca no início dos anos 2000, o grupo sempre pautou a sua atuação na construção de micro-utopias nos espaços públicos, com uso de elementos da cultura popular, da praia e da festa para balançar as dinâmicas urbanas cotidianas. Em alguns casos, essas propostas criam Zonas Autônomas Temporárias (Hakim Bey), quase sempre com a troca do foco nas revoluções estruturais para a ocupação do tempo presente através do afeto (pois precisamos de demonstrações de como viver é possível). Por esse último trecho, espero deixar nítido que este é um texto menos analítico e mais baseado em percepções.
Ao ocupar a galeria do Parque Cultural Casa do Governador com a exposição IMAGINALIVRE!, promovida pelo Museu Vale, o coletivo enfrenta um desafio conceitual nada inédito: a transposição das poéticas de rua para a escala contida e delimitada de uma galeria de arte. A tentativa de comprimir a imensidão do espaço urbano em um ambiente fechado gera um incontornável atrito formal. A rua possui uma imprevisibilidade inerente aos fluxos sociais, às discrepâncias políticas e aos encontros fortuitos que determinam o ritmo da vida. Dentro de uma galeria, a arquitetura condiciona o movimento dos corpos e impõe certa postura de afastamento. Galerias de arte são pedestais.
Peças como Espreguiçadeira-multi, Karaokente e Sistemar necessitam da participação do público para que a proposição conceitual ocorra plenamente, mas para além disso, são objetos que habitam certos espaços. Quando deslocados para o formato de exposição interna, esses trabalhos perdem parte da carga de espontaneidade da praça pública. Alguns espectadores da galerias chegam ali munidos de uma bagagem institucional, o que impõe uma barreira psicológica que contraria aquela almejada livre participação, embora jamais por completo. Apesar dessa limitação estrutural, a exposição sobressai ao preservar o ato de convidar. Nesse sentido, a presença de pessoas para realizar a mediação é fundamental e aqui funciona muito bem.
O OPAVIVARÁ! resiste à frieza e ao excesso de solenidade que caracterizam grande parte da produção contemporânea. O circuito artístico dominante nessa última década tem priorizado discursos herméticos, distanciado ainda mais o público e reduzido muitas ideias a uma condição de mercadoria conceitual estéril. Em contrapartida, a mostra no Parque Cultural Casa do Governador reafirma a experiência estética como uma prática acessível, fundamentada na brincadeira, no descanso e no convívio. O grupo utiliza suportes que remetem ao ócio, como as espreguiçadeiras e os aparelhos de som, pra quebrar a rigidez do cubo branco (pouco branco aqui, com lambes pelas paredes). Esse é o tipo de montagem que permite que a arte contemporânea deixe de figurar como um fetiche intelectual para se converter em um meio de contato físico e sensorial entre desconhecidos. É junto nos lembrarmos de que o resgate do caráter festivo e carnavalesco de grande parte da nossa e de tantas outras culturas ganha urgência no contexto atual. Diante do colapso climático, do esgarçamento dos laços comunitários e da emergência de regimes de controle digital promovidos por empresas privadas, a celebração conjunta surge como um ato de necessidade, um pedido por alegria.
A estética do OPAVIVARÁ! dialoga com a tradição das propostas relacionais, porém sem a ingenuidade de considerar a arte como uma solução para os problemas estruturais do capitalismo tardio. O grupo compreende a alegria como um fundamento ético e político indispensável para a manutenção da vida coletiva. Aqui, podemos agregar o pensamento de autores que se debruçaram sobre a cultura popular e as práticas de convício, como Mikhail Bakhtin e o riso carnavalesco, que aponta para a capacidade da festa popular de suspender temporariamente as hierarquias vigentes e instaurar uma igualdade provisória entre os sujeitos. Esse riso carnavalesco é mais que uma simples brincadeira individual ou uma piada isolada. Tratamos de uma manifestação plural e expansiva, que permite a quebra de hierarquias e censuras do poder oficial na promoção e na renovação de uma liberdade espiritual.
Não gosto de vincular essas propostas à estética relacional de Nicolas Bourriaud, mas vale ressaltar que há nessas experiências a construção de espaços de sociabilidade provisórios onde as relações ainda se mostram capazes de escapar do controle estrito da produtividade. O OPAVIVARÁ! mistura o rigor dessa sociabilidade relacional com a vitalidade da tradição carnavalesca brasileira, o que o filia às proposições de Hélio Oiticica. O suprasensotial e o crelazer já buscavam tanto a sensibilização corporal para a liberação do poder criativo quanto destacavam a estética do improviso e da gambiarra.

IMAGINALIVRE! tenta sintetizar essa trajetória do grupo ao entregar o ato de cantar, sentar ou preparar alimentos em momentos de invenção compartilhada como experiencias poéticas sem necessidade de maiores explicações. O uso da colagem e do acoplamento de objetos cotidianos reconfigura a utilidade do mobiliário urbano e doméstico e gera uma poética da proximidade. A voz individual junta-se a outras vozes na tentativa de ultrapassar o isolamento provocado pelas tecnologias contemporâneas e pelos modelos urbanos excludentes. Como já dito, esse é um conjunto de ideias que somente funciona quando visitantes aceitam o concite e compartilham o tempo e o espaço sem exigências de produção ou consumo. Está aí uma bandeira colorida que vale a pena ser levantada: o direito ao ócio e à fantasia coletiva.
Nesse caso, a transição entre o parque natural e o interior da galeria nos serve como metáfora para as próprias contradições da vida em sociedade. A busca por áreas de respiro e espaços comuns faz-se cada vez mais premente em um ecossistema degradado. É um refresco sair do asfalto e caminhar pelo parque, mas após fruir as propostas da mostra, fica um retrogosto de que aquele é apenas um oásis. Quando entrei sob a rede de Sistemar, dividi espaço com a criança que engatinhava no chacoalhar do plástico; sorri com o sorriso da mãe que me apontou e disse “Olha! Agora ele é a onda”; dancei com a Saia Como e seus talheres; ouvi os cegos cantando no Karaokente; descansei sobre uma Espreguiçadeira-multi; mas saí e fiquei com saudade de mais domingos no parque.

Sim, o grupo consegue transformar o pequeno espaço da exposição em um laboratório de afetos, no qual a imaginação ganha estatuto de ferramenta de libertação. A brincadeira e a sonoridade coletiva demonstram que entreter-se e se divertir são modos políticos de habitar e requisitar o mundo. Mesmo diante das limitações espaciais impostas pela arquitetura de um espaço de exibição, o OPAVIVARÁ! ainda torna viável uma prática artística enraizada no afeto. IMAGINALIVRE! atesta que a arte contemporânea pode prescindir da distância elitista sem perder a sua densidade reflexiva. E por mais cansativo que seja repetir: a insistência na dimensão festiva não representa uma fuga da realidade, mas uma estratégia de sobrevivência e reconstrução social. Ao colocar a alegria no centro da convivência humana, o grupo aponta caminhos para a construção de mundos possíveis, e nos lembra de que a transformação social exige a presença ativa dos corpos e a permanente reinvenção dos espaços compartilhados.











