A exposição coletiva “Cidade: um corpo em construção”, com curadoria de Thiago Sobreiros e realizada na Casa Cultural 155, em Vila Velha, reúne dez artistas em torno de uma questão que a contemporaneidade não cessa de recolocar: o que significa habitar uma cidade? Nós sabemos que essa pergunta jamais terá uma resposta única. Afinal, nós estamos na cidade ou, no mínimo, passamos por ela. Nós sabemos que a cidade é uma coisa viva. É certo que cada trabalho tenta se aproximar do urbano por um ângulo distinto, e é justamente na fricção entre essas perspectivas que a exposição encontra alguma espessura. Isso não significa que tais artistas têm como tema primordial a cidade. Seus processos criativos podem ser sensíveis a questões as mais diversas. O primeiro esforço curatorial seria, então, de identificar quais propostas seriam razoáveis para integrar esse conjunto. O resultado não é um painel muito ilustrativo das cidades capixabas. Talvez seja mais justo pensarmos em uma espécie de mapa de afetos, tensões e permanências que o espaço urbano acumula sem que seus habitantes necessariamente percebam.
Renato Pontello apresenta “Prato do dia”, parte da série “Desde a primeira chegada”. O desenho volta o olhar para a pesca realizada como reforço alimentar por moradores da cidade, especificamente na baía de Vitória. O que Pontello encontra nesse gesto escapa do estereótipo etnográfico, mas recai em uma ausência de memórias corporais. Há caminhos através das quais certos modos de existir persistem nas margens da cidade formal, sem se anunciar como resistência, simplesmente por não terem outro lugar onde estar. Um aspecto positivo que não deve ser ignorado é a dificuldade de lidar com uma paisagem como o Porto de Vitória, já profusamente explorado nos registros de nossa paisagem, notadamente através de fotografias e vídeos. Nesse caso, o pastel seco e o carvão criam superfícies que parecem reter o tempo em camadas. Isso é uma condição da técnica e, em simultâneo, um mecanismo que não esconde a presença do artista, como se o próprio suporte guardasse o peso do cotidiano que o trabalho descreve. A superfície, no desenho, é capaz de situar a imagem dentro de uma economia de meios que ao mesmo tempo registra e encarna.
Nathanael Souza parte da cidade como fenômeno visual antes de ser fenômeno social. Seus desenhos capturam o que se amontoa, se sobrepõe e se recorta pelas bordas do campo visual urbano, aquilo que o olho percebe antes que a razão classifique. Há na sua abordagem uma atenção ao que permanece em movimento mesmo quando parece estático: a cidade como um tremor contínuo, um deslocamento que nunca chega a ser ruptura, mas que tampouco se estabiliza. Desenhar a cidade nesses termos é recusar a fotografia como documento hegemônico e propor o traço como um modo de pensar que vai mais devagar do que a imagem técnica, e que por isso mesmo consegue capturar camadas que a velocidade do registro automatizado apaga. Ainda assim, vale a lembrança de que nem todo o desenho precisa ser emoldurado. Algumas propostas técnicas carregam uma herança ríspida e crua que a moldura e o passe-partout apenas encarceram.
Thayná Simões apresenta “O que as samambaias me contaram sobre liberdade”, trabalho que parte da impressão sobre tecido para criar um mosaico de silhuetas botânicas que convoca memórias da vegetação meio doméstica e meio urbana. Os fantasmas de folhas, ramos e plantas funcionam como arquivo de uma cidade orgânica que coexiste com a aquela de concreto e asfalto, frequentemente invisibilizada pela segunda. Os tons da cianotipia produzem imagens de uma frieza azul que contrasta com a vitalidade da natureza que registra. Esse conflito visual é produtivo: a planta que crescia livremente torna-se, no tecido, uma sombra de si, destacada e congelada. O trabalho poderia ser lido como uma reflexão sobre o que a cidade conserva e o que ela extingue no processo de construir-se sobre a natureza que a precede. Para além disso, seu modo de apresentação é convidativo. A escolha pela montagem de um quase quebra-cabeça de retalhos nos distancia de uma cansativa etiqueta museológica.

Deveríamos ser capazes de propor espaços em que o futuro se recuse a demolir o presente antes que ele se consolide? Jéssica Sampaio e Yurie Yaginuma constroem uma prática ensaística que integra fotografia, cinema antropologia urbana. A imagem que pensa, como diríamos de filmes-ensaio, propõe o ato de registro como aquele da elaboração. A câmera, nessa perspectiva, diante da paisagem (física e social), a interpreta, seleciona, recorta e recombina. Essa dimensão ensaística diz respeito a uma recusa em estabilizar o sentido: as imagens não são provas ou ilustrações de teses.
A lente de Ana Luzes está entre as mais sensíveis e enfáticas da nossa arte contemporânea capixaba. Ela traz para a exposição uma de suas tantas fotografias que nega o instantâneo. Suas imagens parecem ter sido pensadas antes que o obturador fosse acionado: há uma deliberação no enquadramento, na escolha da luz e na relação entre corpo e espaço urbano que as distingue do registro jornalístico ou documental. Elas partem do princípio de que não há cidade sem vida, e não há vida sem corpos: essa afirmação, que poderia soar como truísmo, torna-se programa visual na medida em que seus trabalhos insistem em colocar a figura humana em relação de tensão ou cumplicidade com a arquitetura e a paisagem que a circunda. Suas crianças e jovens, mescladas com a cidade que não é apenas urbana, balanceia duas escalas de tempo: a da infância que ainda não nomeou o lugar onde vive, e a da cidade que já acumulou décadas de transformação. Entre essas duas temporalidades, a fotografia se instala.

Embora esse talvez não seja o seu fundo referencial imediato, acredito que pode ser interessante falar sobre os trabalhos de Renato Ren para além da costumeira transição do muro para a galeria. Nesse sentido, é possível considerar que suas peças realizam uma revisão do suprematismo, tradição de vanguarda que apostou na geometria como linguagem universal e na forma pura como princípio de organização do espaço. Os suprematistas iam muito além de pensar a imagem. Seus projetos para espaços, casas, cidades e paisagens inteiras foram capazes de influenciar gerações de sonhadores de futuros. Mas se o suprematismo histórico projetava formas sobre um vazio ideal, Renato Ren desloca essa atitude para o espaço concreto: a intervenção dá lugar ao projeto, o contorno substitui a superfície. O trabalho implica uma crítica à utopia urbanística que acredita poder organizar a cidade a partir de formas racionais externas às práticas que a constroem. A geometria, em Renato Ren, não impõe ordem; ela revela os traçados que já estavam lá, invisíveis por excesso de familiaridade.
Natan Dias, por sua vez, encontra na cidade os sistemas de encaixe e cruzamento que revelam a engenhosidade de quem habita os espaços que a cidade formal não planejou. Suas esculturas propõem pensar a tecnologia tanto como o que vem de fora para transformar o espaço quanto como o que emerge do próprio desafio de habitar; as soluções improvisadas, as gambiarras, os sistemas de apoio mútuo que tornam possível a vida nos interstícios da cidade planejada. Há uma valorização implícita do conhecimento técnico popular, daquele saber fazer que não recebe certificado nem aparece nos projetos arquitetônicos, mas que sustenta porções inteiras da vida urbana.
Jéssica Campos reúne materiais retirados das margens e lhes dá forma por meio de procedimentos que ativam heranças culturais sem se tornar reconstituição folclórica. Suas peças partem das mãos que escolhem e das mãos que transformam: dois gestos que a cultura contemporânea tende a separar, e que a artista reaproxima com uma deliberação que é também posicionamento político. A cerâmica, seu modo de apresentação no espaço da galeria, a reunião de matéria em transformação e o uso de superfícies orgânicas apontam para formas de relação com a cidade que antecedem o urbanismo moderno e que insistem em se fazer presentes. Há, aqui, uma afirmação de que certas presenças nunca foram de fato apagadas, apenas deslocadas para os lugares que a cidade dominante não sabe digerir.
Já Maria Tereza traz à exposição uma dimensão da cidade que se situa entre o arquivo e a deriva. Seus processos de pesquisa sobre a cidade já foram apresentados como “pintura diário”. Em alguma medida, encadear palavras não se diferencia de escavar memórias. Transpor esse processo para a feitura de imagens, seja pintura ou desenho, é complexo e desafiador. Pode ser estranho afirmar que muitas propostas poéticas surgem como imagens em um ato inevitável e meio ritualístico de documentar vestígios de si. Há algo de arqueológico nesse procedimento: escavar camadas de tempo e de uso, encontrar o que sobrou, dar forma ao que resta. É possível que fique a falta das o palavras simples e diretas.

A curadoria de Thiago Sobreiros procura organizar as ideias, que podem ser muito díspares, sobre uma cidade que ganha forma a partir das ações da sociedade que a habita. Essa é parte da condição da cidade contemporânea. Ela também se desfaz, se esgota e reage contra as criaturas que a habitam como se fossem corpos invasores. Há cidades com síndromes autoimunes, transformadas a partir de desejos externos ao seu chão, seu ar, suas águas, plantas, prédios, pontes, muros e asfalto. Pensar na cidade como escultura pode ser tanto libertador quanto horripilante. Podemos nos colocar no papel de escultures que trabalham em vivência comunitária. Por outro lado, também somos peças, ferramentas e restos não abarcados pelos projetos de quem, quando muito, pousa em nossas costas para verificar o andamento da obra.
Sob as concepções de Jéssica Sampaio e Yurie Yaginuma, assim como em Nathanael Souza e Thayná Simões, essa cidade permite-se aparecer como um acúmulo de ruídos, por vezes ordenado, por vezes caótico, singelo e agressivo, emotivo e racional. Ali, é possível perceber uma cidade que pode até não parar, mais ameaça se quebrar; se dissolver, se afogar e deixar marcas, registros e lembranças trêmulas.
Revisão: Alana de Oliveira
Fotografias: Rodolfo Vieira










