Acredito que não haveria a prosperidade econômica que hoje vivemos no Espírito Santo se não houvesse o Porto de Tubarão e os negócios gigantescos que ele atraiu para a região metropolitana de Vitória.
Inaugurado em 1966, comemora agora os seus 60 anos. Devemos ao porto o nosso processo recente de desenvolvimento, ocorrido nas últimas décadas. Podemos até dizer que não existiria o Espírito Santo moderno se não existissem a Vale ou o porto que ela gerou. Vou tentar explicar melhor.
Primeiro fator de sucesso nessa arrancada foi o fato de já existir aqui um porto por onde se exportava minério, o Porto de Vitória, que comemorou, no último mês de março, 120 anos de existência. Ele foi fundamental no esforço desenvolvimentista capixaba nos tempos da primeira república e do protagonismo da economia do café. Como esse ciclo cafeeiro se apoiava nas ferrovias para transportar o minério, foi criada a Estrada de Ferro Vitória-Minas.
A Vitória-Minas acabou inaugurando outro ciclo, quando começou a transportar não só o café, mas também o minério que vinha das Minas Gerais. Esse minério que obrigou o Porto de Vitória a adaptar as suas instalações para exportá-lo, e, mais tarde, criou as condições para a transferência dessas operações para a Ponta de Tubarão, como a região já era conhecida.
Uma nota importante: o professor Estilaque Ferreira escreveu um livro sobre a vida do empresário Américo Buaiz, editado pela entidade empresarial Espírito Santo em Ação, em 2011. Nele, Estilaque traça o papel importante do fundador e presidente da Federação das Indústrias no nosso processo de desenvolvimento recente. O autor cita uma pesquisa coordenada pelo sociólogo José Arthur Rios e publicada em 1962 com o título de Desenvolvimento Municipal e Níveis de Vida do Estado do Espírito Santo.
Os resultados mostram o que era o Espírito Santo antes do processo de industrialização iniciado nos anos 1960. Naquela altura, segundo o estudo, mais de 70% dos capixabas ainda bebiam água sem qualquer tratamento, a maioria não possuía instalações sanitárias dentro de casa. Entre 50% e 90% da população andava descalça; o nível de mortalidade, no primeiro ano de vida, era superior a 40% em alguns municípios, devido à inexistência de assistência à maternidade ou de hospitais em grande parte das cidades.
Havia ainda, aponta o estudo de 1962, casas sujas, predomínio de fogões a lenha, trabalho excessivo das mulheres na agricultura, falta de higiene pessoal, analfabetismo, má conservação de estradas, aliás, não tínhamos ainda um só quilometro de asfalto.
E olha que estamos falando de um momento em que ainda não havia ocorrido o flagelo da erradicação dos cafezais, que jogou grande parte dos capixabas na miséria. Eram os meeiros que tinham que abandonar suas terras para viverem nas maiores cidades, aumentando a miséria, a violência e criando um mundo sem alternativas de prosperidade.
Foi nesse ambiente de grandes dificuldades para a maioria da população que foram pensadas as políticas públicas de industrialização que nos transformaram em um dos estados mais prósperos da federação brasileira. O engenheiro Eliezer Batista foi o pai de muitas dessas ideias, gerente da companhia no Espírito Santo e, depois, seu presidente, nomeado em 1961 por Jânio Quadros. Foi ministro das minas e energias do governo João Goulart. Teve muitos outros lugares de destaque em sua longa vida, mas quero aqui me centrar mais nesse período que gerou o nosso desenvolvimento atual.
Eliezer e um grupo de capixabas pensaram o nosso desenvolvimento. Mais do que isso, pensaram juntos que esse desenvolvimento se daria a partir do Porto de Tubarão, que seria uma espécie de âncora de todo esse processo. Foi o que se deu, efetivamente. O porto seria a cabeça de um complexo metal mecânico que levou a criação da Aracruz Celulose, hoje Suzano, da CST, hoje Arcellor-Mittal, e da Samarco. Eram esses os chamados Grandes Projetos de Impacto que foram atraídos para o nosso estado pelo governador Arthur Carlos Gehardt.
Por isso, os 60 anos do Porto de Tubarão são um grande marco no perfil de exportação da economia brasileira. É preciso lembrar muito mais do que a importância de um porto. É preciso lembrar que um grupo de formuladores do nosso projeto industrial não apenas concebeu um porto, mas um hub de grandes negócios industriais, a partir da oportunidade de termos aqui esse grande equipamento. É uma invenção social dos capixabas, capazes que foram, ainda nos anos 1960, de visualizar essa enorme oportunidade.









