Fernando Carreiro
Fernando Carreiro
Jornalista e consultor especializado em reputação, crises de imagem, comportamento humano e estratégia política e de marcas, é autor de ‘Campanhas, Casos & Cases
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O voto que sai do templo em silêncio

Existe um equívoco que se repete sempre que o comportamento do eleitor evangélico entra em discussão: imaginar que seu voto nasce dentro da igreja. A fé, evidentemente, molda valores, princípios e visões de mundo, mas a decisão eleitoral obedece a uma lógica mais complexa, construída a partir da confiança depositada em quem se apresenta como representante legítimo desses mesmos valores. É justamente essa confiança que parece começar a sofrer pequenas fissuras, quase imperceptíveis para quem observa apenas o ruído das redes sociais, mas suficientemente relevantes para aparecer nas pesquisas de opinião.

A leitura mais superficial concluirá que Lula avançou entre os evangélicos. Não me parece que seja esse o fenômeno mais importante. O dado verdadeiramente novo está no fato de que uma parcela desse segmento deixou de oferecer confiança automática ao principal herdeiro político do bolsonarismo. Pode parecer uma diferença meramente semântica, mas ela altera completamente a interpretação do cenário, porque toda liderança construída sobre um patrimônio simbólico depende da renovação permanente da credibilidade que lhe deu origem.

O bolsonarismo consolidou, ao longo dos últimos anos, uma relação muito particular com o eleitor evangélico. Não foi apenas uma aliança política; foi uma identificação emocional construída sobre a defesa pública da família, da liberdade religiosa, do conservadorismo e da resistência ao avanço de determinadas pautas culturais. Essa conexão produziu um ativo extremamente valioso para qualquer projeto de poder: a sensação de que havia, entre líder e liderados, um compromisso que transcendia as disputas eleitorais.

É justamente por isso que qualquer desgaste nesse ambiente produz efeitos diferentes daqueles observados em outros segmentos da sociedade. Quem constrói sua autoridade apoiado em valores morais passa a ser julgado, antes de tudo, pela coerência entre aquilo que defende e aquilo que representa. Os recentes episódios envolvendo Flávio Bolsonaro não provocam apenas desgaste político; eles introduzem um elemento muito mais delicado: a dúvida. E poucas coisas corroem tanto uma liderança quanto a dúvida instalada entre aqueles que antes confiavam sem reservas.

As redes sociais, entretanto, são incapazes de captar esse processo em sua profundidade. Elas medem indignação, engajamento, compartilhamentos e volume de interações, mas continuam incapazes de registrar aquilo que realmente move uma comunidade religiosa: a reputação construída ao longo do tempo. Igrejas funcionam de maneira muito diferente dos algoritmos. Enquanto as plataformas digitais recompensam quem grita mais alto, comunidades religiosas tendem a valorizar quem inspira confiança. Quando essa confiança começa a se desgastar, dificilmente o faz em praça pública; ela simplesmente deixa de ocupar o espaço que antes lhe pertencia.

Talvez resida aí o principal ensinamento desta pesquisa. Não estamos, necessariamente, diante de uma migração definitiva de votos da direita para a esquerda, nem de uma ruptura entre o eleitor evangélico e o conservadorismo. O que começa a surgir é algo mais sofisticado e, justamente por isso, mais difícil de perceber: uma parcela desse eleitorado voltou a fazer aquilo que todo eleitor maduro faz quando seus referenciais passam a apresentar contradições. Voltou a observar, a comparar, a ponderar e, sobretudo, a decidir por conta própria.

A política brasileira sempre demonstrou enorme habilidade para medir o barulho. Monitora curtidas, compartilhamentos, vídeos virais e manifestações de rua com impressionante precisão. Continua, porém, encontrando enorme dificuldade para interpretar o silêncio, justamente porque o silêncio não produz manchetes, não viraliza e não gera engajamento. Mas é nele que, muitas vezes, as eleições começam a mudar.

Os estrategistas costumam dedicar atenção excessiva a quem fala mais alto. Eu prefiro observar quem parou de falar. É quase sempre nesse intervalo silencioso entre a convicção e a dúvida que nasce o comportamento eleitoral capaz de redefinir uma disputa.

Fernando Carreiro
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Jornalista e consultor especializado em reputação, crises de imagem, comportamento humano e estratégia política e de marcas, é autor de ‘Campanhas, Casos & Cases

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