Fernando Carreiro
Fernando Carreiro
Jornalista e consultor especializado em reputação, crises de imagem, comportamento humano e estratégia política e de marcas, é autor de ‘Campanhas, Casos & Cases
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O eleitor está de mau humor

O velho pêndulo entre direita e esquerda continua existindo. A política não abandonou suas alternâncias históricas, nem os eleitores deixaram de migrar entre campos ideológicos distintos. Mas algo novo parece ter se instalado nas democracias das Américas: uma crescente insatisfação com a própria política.

Durante décadas, a derrota de um governo costumava ser interpretada como consequência de uma má gestão, de uma crise econômica ou de um erro estratégico. Hoje, em muitos casos, essa explicação parece insuficiente. O que as urnas revelam é um eleitor cada vez mais impaciente, mais desconfiado e menos disposto a renovar cheques em branco para qualquer grupo político.

A consequência é que a oposição passou a ocupar uma posição privilegiada no imaginário eleitoral. Não porque necessariamente apresente os melhores projetos ou as soluções mais consistentes, mas porque se beneficia de um sentimento difuso de frustração. Diante de uma sociedade cansada da política tradicional, seus discursos frequentemente parecem mais simples, mais diretos e, sobretudo, mais capazes de oferecer respostas rápidas para problemas que se tornaram crônicos.

Talvez por isso a principal característica deste ciclo político nas Américas não seja a ascensão da direita ou da esquerda. Seja na Argentina de Javier Milei, no Equador de Daniel Noboa, no Panamá de José Raúl Mulino ou na Colômbia, onde a oposição voltou a demonstrar força eleitoral, o padrão que se repete parece menos ideológico do que emocional. O eleitor não está necessariamente votando em um campo político. Está votando contra uma sensação.

E essa sensação tem nome: cansaço.

Durante muito tempo, o marketing político trabalhou com a ideia de que eleições eram disputas entre projetos de futuro. Quem conseguisse apresentar a visão mais convincente para os próximos anos conquistaria a preferência do eleitorado. Essa lógica continua válida, mas passou a conviver com uma variável cada vez mais poderosa: o estado emocional das sociedades.

As redes sociais encurtaram os ciclos de paciência. A hiperconectividade ampliou a percepção de crise. A política passou a ser consumida em tempo real, como uma sucessão permanente de conflitos, escândalos, promessas não cumpridas e cobranças instantâneas. O resultado é um ambiente onde a frustração se acumula mais rápido do que a capacidade dos governos de entregar respostas.

O eleitor contemporâneo vive uma experiência paradoxal. Nunca teve acesso a tanta informação sobre a política. E talvez nunca tenha confiado tão pouco nela. É justamente nesse ambiente que prosperam os discursos de ruptura, que oferecem algo que os governos dificilmente conseguem entregar: a promessa de um recomeço.

A oposição, em qualquer democracia, vende futuro. O governo administra presente. E o presente quase sempre é mais difícil de defender. Esse é um dos ensinamentos mais importantes para quem trabalha com comunicação política. Muitas análises superestimam a força dos candidatos e subestimam a força do contexto emocional.

Em determinados momentos históricos, a eleição deixa de ser uma comparação entre propostas e passa a funcionar como um mecanismo coletivo de extravasamento de insatisfações. O voto deixa de ser uma escolha e passa a ser uma reação.

Isso ajuda a explicar por que governos com indicadores razoáveis, entregas concretas e até índices positivos de aprovação acabam derrotados por adversários que oferecem soluções simplificadas para problemas complexos. A disputa já não acontece apenas no terreno da gestão. Ela acontece, sobretudo, no terreno das percepções. E percepções obedecem mais ao sentimento do que às planilhas.

A ironia é que a oposição costuma descobrir essa realidade da forma mais dura possível. Depois de vencer impulsionada pelo desejo de mudança, ela chega ao poder e encontra exatamente o mesmo eleitor que ajudou a elegê-la: desconfiado, impaciente e permanentemente insatisfeito.

O Chile talvez seja um dos exemplos mais emblemáticos desse fenômeno. Nos últimos anos, o país alternou governos de diferentes correntes ideológicas sem que isso produzisse uma redução significativa do descontentamento social. A mudança de personagens não eliminou o mal-estar. Apenas mudou os protagonistas da cobrança.

Quando observamos as eleições recentes das Américas, é tentador enxergar uma disputa entre direita e esquerda. É uma leitura confortável, simples e fácil de explicar. Mas a realidade parece mais complexa. O que está em curso não é apenas uma alternância ideológica. É uma alternância emocional.

A política continua trocando de lado. O eleitor, porém, continua carregando consigo a mesma inquietação. Por isso, a pergunta mais importante para os próximos anos talvez não seja quem vencerá as eleições. A pergunta é quem conseguirá governar um eleitorado que perdeu parte de sua confiança na política, nos partidos, nas instituições e, muitas vezes, nos próprios políticos.

Diante de todo esse contexto, a única coisa que permanece invicta é o mau humor do eleitor.

Fernando Carreiro
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Jornalista e consultor especializado em reputação, crises de imagem, comportamento humano e estratégia política e de marcas, é autor de ‘Campanhas, Casos & Cases

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