Crescer é importante. Sustentar o crescimento é o desafio

O Espírito Santo voltou a ocupar posição de destaque no cenário nacional ao liderar o ranking de atividade econômica do país em fevereiro, segundo dados do Banco Central. O resultado reforça algo que os capixabas já percebem há algum tempo: a economia do Estado possui capacidade de reação, competitividade e forte conexão com o mercado global.

Entretanto, números positivos, por si só, não devem ser encarados como um ponto de chegada. Precisam servir, sobretudo, como oportunidade para refletirmos sobre qual modelo de desenvolvimento queremos construir para o futuro do Espírito Santo.

Grande parte desse desempenho econômico está ligada à estrutura produtiva capixaba, historicamente sustentada por commodities, exportações e logística. Minério de ferro, café, celulose e a atividade portuária colocam o Estado em posição estratégica dentro da economia brasileira. Somos um território pequeno em extensão geográfica, mas altamente integrado às dinâmicas internacionais. Quando o mercado externo acelera, sentimos rapidamente seus efeitos positivos.

Essa característica ajuda a explicar por que o Espírito Santo frequentemente apresenta resultados acima da média nacional. Temos eficiência logística, localização privilegiada e uma estrutura fiscal relativamente equilibrada quando comparada à de muitos estados brasileiros. Esses fatores contribuem para um ambiente mais seguro à atração de investimentos, expansão dos negócios e geração de oportunidades.

Entretanto, há uma questão central que precisa ser debatida: crescimento econômico não significa, automaticamente, desenvolvimento social.

O verdadeiro desenvolvimento ocorre quando os avanços da economia conseguem, de fato, melhorar a vida das pessoas. Isso envolve geração de empregos de qualidade, redução das desigualdades regionais, fortalecimento da educação, incentivo à inovação, ampliação da produtividade e criação de oportunidades para as novas gerações.

A experiência econômica brasileira demonstra que depender excessivamente de ciclos externos pode gerar vulnerabilidades. Commodities são importantes e continuarão sendo fundamentais para a economia capixaba, mas nenhum território constrói um futuro sólido sustentando-se exclusivamente na exportação de matéria-prima. É preciso agregar valor, investir em tecnologia, estimular a indústria do conhecimento, fortalecer cadeias produtivas e diversificar a matriz econômica.

O Espírito Santo possui condições reais para dar esse próximo passo. Temos universidades qualificadas, capacidade técnica, localização estratégica, infraestrutura logística e forte vocação empreendedora. O grande desafio está em transformar crescimento conjuntural em desenvolvimento estrutural.

Também é necessário pensar o desenvolvimento de forma regionalizada. Não basta que apenas alguns municípios concentrem investimentos e oportunidades enquanto outros permanecem à margem do dinamismo econômico. Planejamento territorial, ampliação da infraestrutura e interiorização do desenvolvimento precisam ocupar lugar central na agenda econômica capixaba.

Outro ponto importante é compreender que estabilidade fiscal não deve ser vista apenas como um indicador técnico. Contas públicas equilibradas representam maior capacidade de investimento, previsibilidade e segurança econômica. Contudo, equilíbrio fiscal também precisa caminhar lado a lado com responsabilidade social e ampliação do bem-estar coletivo.

A economia não pode ser analisada apenas por gráficos e estatísticas. Por trás de cada indicador existem pessoas, famílias, trabalhadores e empreendedores buscando construir perspectivas melhores de vida.

O atual momento do Espírito Santo merece ser celebrado, mas, sobretudo, compreendido como uma janela de oportunidade. O crescimento econômico abre portas. O desenvolvimento sustentável e inclusivo é o que garante que elas permaneçam abertas no futuro.

Crescer é importante. Sustentar o crescimento é o desafio
O economista Ricardo Paixão (Divulgação)

***

Ricardo Paixão
Presidente do Conselho Regional de Economia do Espírito Santo (Corecon-ES)
Professor efetivo da Faculdade Municipal de Linhares (FACELI)

Coluna de Economia
Coluna de Economia
O que impacta a economia do Espírito Santo e dos capixabas tem um espaço exclusivo em ES Hoje. Por meio de artigos de especialistas a coluna - em parceria com Conselho Regional de Economia do Espírito Santo (Corecon-ES) - visa oferece aos leitores uma análise clara, contextualizada e acessível das dinâmicas econômicas nacionais e internacionais, mostrando como decisões, eventos e tendências globais impactam direta e indiretamente o Espírito Santo. O estado aponta grande crescimento na indústria, comércio, serviços, agro, logística e transporte, portos, petróleo e gás. Em parceria com o Conselho de Economia do Estado, as análises alertam e atualizam o mercado.

Você por dentro

Receba nossas últimas notícias em primeira mão.

Escolha onde deseja receber nossas notícias em primeira mão e fique por dentro de tudo que está acontecendo!

Comentários

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Mais Lidas

Notícias Relacionadas