José Cirillo
José Cirillo
José Cirillo é doutor em Comunicação e Semiótica (PUC-SP), mestre em Educação pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES,) onde é professor titular e coordenador do Programa de Pós-graduação em Artes. Pós-doutor em Artes pela Universidade de Lisboa. Foi Pró-reitor de Extensão da UFES (2008-2014); Diretor do Centro de Artes (2005-2008). Atua como coordenador do Laboratório de Extensão e Pesquisa em Artes (LEENA), desenvolvendo pesquisas sobre a arte e a cultura capixaba.
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Um olhar para o além; ou uma fuga dos verdes mares

Hoje eu estava andando pela cidade. Conversando aqui, comendo uma comida de origem no Said. Aliás, o Said foi um dos lugares fabulosos em Jucutuquara que a anos havia se apagado e se perdeu. Pensava que ele tinha parado com os quibes, a coalhada seca, os charutos em folha de uva e aquele quibe cru maravilhoso. Mas, por acaso, o redescobri graças à rede social. Agora ele ilumina a rua Sete.

Nessa manhã de sábado, sem nenhum planejamento, permaneci ali por algum bom tempo, no deleito do paladar. Mas, também com os ouvidos afiados, como um bom pesquisador.

Ouvi que o projeto de “manutenção” dos monumentos da nossa capital tem um novo alvo: a Dona Domingas, do Carlo Crepaz, da década de  1970. Essa escultura icônica ocupa os pés da Escadaria Barbara Lindemberg, entre o porto e o Palácio Anchieta.

Domingas era uma mulher negra, figura conhecida pelos antigos moradores do Centro da nossa capital. Segundo alguns, uma mulher sisuda, de poucas brincadeiras. Talvez pelo trabalho árduo como coletora de papelão; talvez pela jornada longa entre o centro e o bairro de Santo Antônio com seu fardo nas costas… o olhar cansado, o corpo emborcado; o braço esquerdo ligeiramente mais curto… assim como o pé esquerdo, aparentemente mais inchado… Características que revelam o cansaço de uma vida sem privilégios. O fardo, não apenas do saco que suporta, mas da própria vida privada de prazeres, talvez excetuando os momentos em que posava para o artista, Carlo Crepaz, de quem tomava os charutos caros para fumar enquanto tentava ser um modelo vivo para o escultor que a externalizaria, seja no busto e a escultura de corpo inteiro em madeira, ambos para o Museu Nacional de Belas Artes, no final de 1958; seja para a peça que Crepaz levou consigo de volta para Ortisei, na Itália, também em madeira; ou seja na versão eternizada da coletora de papel, na escadaria do Palacio Anchieta, encomendada em bronze pelo então prefeito da capital, Chrisógono Teixeira da Cruz , na primeira metade de 1970.

Crepaz tinha uma marca em seus bronzes: uma pátina negra que era sua marca pessoal. Em conversa com um escultor local, o Jânio Leonardelli, fiquei sabendo que esta pátina escurecida era uma composição secreta – quase como receita da torta de limão de nossa avó, que mesmo dando todos os ingredientes, era impossível refazer.

Porque falo isto, Domingas está no mais alto nível da escultura pública no Estado e, talvez, uma das poucas que ainda mantem a pátina (o tratamento de cor da superfície da obra) original de Crepaz. Ela ficou isenta de um restauro catastrófico dos anos de 1990, quando alguém, com autorização dos órgãos de cultura municipais, autorizou que os bustos fossem “limpados” e retirado toda aquela mancha escura deles.

Nesse momento trágico da história dos monumentos da nossa capital, andávamos pelo centro e víamos obras em um metal dourado impecavelmente limpos e ausentes de qualquer representatividade da nossa escultura pública. A limpeza profunda apagou não apenas a oxidação, esperada no caso das peças em bronze, mas removeu toda a história dos monumentos “restaurados”

As peças ficaram desnudas.

As esculturas públicas, quando integram o afeto das pessoas que circulam entre elas nos espaços públicos, tendem a ter uma ação em sua superfície provocada pelo toque das pessoas. Deferentemente das obras em museus, as peças no espaço público das cidades estão sujeitas – e carecem – à uma interação; estão abertas ao toque. Aos afetos.

Um olhar para o além; ou uma fuga dos verdes mares

A escultura de Julieta, em Verona, tem sua cor variando  de um tom amarronzado da oxidação do bronze com os anos em contraste com um tom dourado e brilhante, resultante do inúmeros, dos milhares de toques de amantes e apaixonados que querem viver um romance tão esplendoroso quando o dela e de Romeu. Em outras, a ideia da maternidade pode levar ao toque contínuo nos seios de outra; ou no focinho de esculturas de cachorros, como se lhes fizessem carinho…

Resumindo, as esculturas em espaços públicos são sujeitas ao toque e a alterações decorrentes dessa relação de pertencimento entre a imagem e os valores simbólicos de uma determinada sociedade. Isto ocorre, sem que efetivamente haja uma alteração do projeto poético que gerou a obra.  Ao longo de séculos, a patina original do artista, acrescida de sua oxidação natural vai sofrendo uma “limpeza” pelo afeto, mas não alterando sua natureza artística.

Um olhar para o além; ou uma fuga dos verdes maresDomingas de Crepaz é assim, tomada de uma pátina escurecida, que era assinatura do artista e que, no caso de domingas, reforça ainda mais o seu humor, cunhado pelas dificuldades da vida. Era assim em 1959, quando vai para o Museu de Belas Artes do Rio… seguiu assim, quando Chrisógono a viu no ateliê de Crepaz em Santo Antônio, ainda em madeira escurecida.

Crepaz a fez assim para sua versão em bronze. Apesar desse metal ser uma liga predominantemente de estanho e cobre – o que oxida dando uma pátina esverdeado com as décadas -, Crepaz desenvolveu uma técnica de tratamento da superfície da peça que conseguia anular essa oxidação esverdeante.

Em todas as suas obras, mesmo as que temos hoje apenas em gesso, como o busto de Homero Massena no Cetro de Artes na UFES, ele as queria enegrecidas. E Domingas tem sendo assim desde os anos de 1970 quando ganhou destaque na escadaria do Palácio Anchieta. Por que Chrisógono  quis uma mulher negra nesse destaque tão evidente num local de protagonismo político no estado, nunca saberemos exatamente, mas sua visão de colecionador de arte e de prefeito antenado com o futuro trouxe para o cenário capixaba a primeira mulher negra, não celebridade ou ocupante de um cargo político memorável. Chrisógono viu na obra de Crepaz um ícone dos novos tempos da capital, de valorização da população comum com a qual mantinha contato sempre próximo. Crepaz viu nessa oportunidade, a possibilidade de eternizar essa mulher que desde os anos de 1950 o encantava, talvez pelos traços geometrizados de seu rosto negro; talvez pela força emocional de uma mente que desafia seu corpo fragilizado; talvez pela força e pela presença de uma modelo que mais se interessava pela boa conversa com um charuto cubano, do que exatamente com o fato de ser a musa de um escultor.

Um olhar para o além; ou uma fuga dos verdes mares

Domingas é assim.

Domingas permanece assim a mais de cinco décadas.

Domingas é negra. Deve permanecer negra.

Domingas segue com seus olhos firmes, ao lado do mar, mas sem querer ser mar.

Domingas é afeto!

José Cirillo
José Cirillo
José Cirillo é doutor em Comunicação e Semiótica (PUC-SP), mestre em Educação pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES,) onde é professor titular e coordenador do Programa de Pós-graduação em Artes. Pós-doutor em Artes pela Universidade de Lisboa. Foi Pró-reitor de Extensão da UFES (2008-2014); Diretor do Centro de Artes (2005-2008). Atua como coordenador do Laboratório de Extensão e Pesquisa em Artes (LEENA), desenvolvendo pesquisas sobre a arte e a cultura capixaba.

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