Fernando Carreiro
Fernando Carreiro
Jornalista e consultor especializado em reputação, crises de imagem, comportamento humano e estratégia política e de marcas, é autor de ‘Campanhas, Casos & Cases
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A complexidade das campanhas eleitorais no Brasil polarizado

Campanhas eleitorais já foram ambientes mais previsíveis. Não exatamente mais simples — a política brasileira jamais cultivou intimidade com a simplicidade —, mas mais organizáveis. Havia uma lógica relativamente estável entre entrega e recompensa. Governar bem produzia ativo político. Obra gerava argumento. Resultado construía autoridade. A campanha funcionava como a vitrine final de um percurso que, em tese, já havia convencido o eleitor. Esse modelo não desapareceu. Apenas deixou de ocupar sozinho o centro do palco.

O exercício de 2026 vai adquirindo a textura daqueles anos em que a política muda de temperatura antes mesmo que seus protagonistas percebam. Talvez a principal armadilha esteja justamente nessa defasagem entre ambiente e leitura. Continuar interpretando o presente com categorias que pertencem a um país emocionalmente menos congestionado.

O episódio envolvendo o Banco Master e a associação ao filme Dark Horse — uma elogiosa biografia de Jair Bolsonaro, paga com dinheiro do banco —  oferece um retrato curioso desse tempo. Não pelo escândalo em si — a política brasileira sempre produziu material suficiente para abastecer várias temporadas de si mesma —, mas pela linguagem escolhida. Há algo revelador na tentativa de transformar política em mito, liderança em personagem e disputa eleitoral em narrativa épica. A velha política apresentava entregas. A contemporânea disputa imaginação.

Planilhas continuam existindo — de todos os tipos e a serviço de vários ambientes na política, a propósito. Pertencimento apenas costuma mobilizar com mais velocidade.

O governo Lula parece compreender essa gramática. A regionalização dos anúncios, a comunicação segmentada, a territorialização dos investimentos federais não soam apenas como estratégia de publicidade, mas como leitura de ambiente. Entrega, hoje, precisa de tradução emocional. Ainda assim, as pesquisas devolvem um dado eloquente em sua teimosia: a polarização continua de pé.

Lula e Flávio Bolsonaro permanecem orbitando um equilíbrio desconfortavelmente familiar. Em outros tempos, certos episódios talvez produzissem abalos mais consistentes. Hoje, identidades parecem demonstrar mais resiliência do que fatos.

Nos estados, persiste uma aposta quase elegante em sua racionalidade: a crença de que a disputa administrativa preservará algum grau de autonomia diante desse ambiente nacional permanentemente inflamado.

Hospitais, escolas, estradas, investimentos, programas sociais, entregas concretas. Nada disso perdeu valor. A política seria ainda mais deprimente se tivesse perdido. Mas a tranquilidade desse repertório já não é a mesma.

Campanhas administrativas seguem vencendo eleições. Governadores bem avaliados continuam sendo ativos relevantes. Máquinas políticas não se tornaram peças de museu. O eleitor pragmático continua existindo. O que mudou foi a estabilidade desse terreno.

As redes sociais não alteraram apenas a velocidade da comunicação política. Alteraram a natureza da atmosfera eleitoral. O país já não entra em clima de campanha; permanece suspenso nele, todo o tempo. O conflito deixou de obedecer calendário. A indignação ganhou expediente integral. O algoritmo descobriu que antagonismo engaja melhor do que moderação, e a política se adaptou com impressionante disciplina.

Dentro desse ambiente, o eleitor administrativo não desaparece. Apenas divide espaço com outro personagem, menos previsível, mais impulsivo, frequentemente mais mobilizado: o eleitor identitário, emocional, tribal, permanentemente convocado a escolher lados.

O Senado talvez concentre essa transformação de maneira mais explícita. Há disputas em que o eleitor ainda procura gestor. Outras em que procura trincheira. A eleição senatorial tem demonstrado notável vocação para a segunda hipótese. Aquele que não escolher um lado nesta eleição — mesmo que de forma sutil —, talvez esteja fadado à derrota eleitoral.

Governos estaduais, por sua própria natureza, costumam oferecer maior elasticidade. O eleitor tolera nuances quando percebe entrega concreta. Mas nuance, em ambientes polarizados, raramente é sinônimo de conforto.

O Espírito Santo oferece uma lembrança particularmente eloquente. Em 2022, Renato Casagrande carregava o repertório clássico de uma campanha administrativamente robusta: entregas, musculatura institucional, capital político, estrutura consolidada. Uma clássica campanha de candidato que disputa a reeleição. Mas havia ali uma equação bem menos trivial do que a leitura simplificada costuma admitir.

Casagrande tinha o apoio do PT. Num estado majoritariamente conservador, isso significava conviver com duas linguagens políticas que raramente se acomodam sem atrito. De um lado, a associação natural ao campo lulista. De outro, a necessidade de manter diálogo com um eleitor conservador energizado pela onda bolsonarista que levou Carlos Manato ao segundo turno. O “CasaNaro”, frequentemente reduzido à caricatura mais superficial, talvez revele algo mais sofisticado: a tentativa de equilibrar discursos que, em tese, operam por códigos quase antagônicos.

E esse tipo de engenharia raramente é simples. Campanhas assim exigem precisão cirúrgica. Um excesso de aceno numa direção produz ruído na outra. Um símbolo mal calibrado reorganiza percepções. Uma frase fora do tom desloca alianças emocionais construídas com dificuldade.

A política costuma ser descrita como a arte de construir maiorias. Às vezes, ela se parece mais com a arte de administrar contradições. Esse talvez seja um dos dilemas mais subestimados de 2026.

A polarização não impõe apenas a pressão da escolha. Impõe, para muitos, a complexidade da convivência entre mensagens que não nasceram para coexistir harmonicamente. Escolher um campo pode parecer solução intuitiva. Sustentar essa escolha sem implodir outras pontes é outra conversa. E há ainda a possibilidade mais desconfortável: a de que, em determinados estados, sequer exista escolha simples.

Alguns candidatos talvez descubram que a disputa nacional não lhes permitirá neutralidade plena, mas também não lhes oferecerá aderência confortável a nenhum dos polos. A política brasileira sempre teve apreço por esse tipo de ironia. Enquanto parte da classe política ainda organiza campanhas como se bastasse convencer o eleitor da própria competência administrativa, o ambiente emocional do país parece ocupado por perguntas bem menos técnicas.

O Brasil nunca foi exatamente um país moderado em suas paixões eleitorais. Getulistas e antigetulistas. Trabalhistas e udenistas. Petistas e antipetistas. Lulistas e bolsonaristas. A dualidade não nasceu com o algoritmo. O algoritmo apenas profissionalizou a combustão.

Talvez essa seja a verdadeira complexidade das campanhas contemporâneas: não a multiplicação de ferramentas, plataformas ou métricas, mas a convivência simultânea entre racionalidade administrativa e pulsão identitária dentro do mesmo eleitor.

Ignorar isso continua sendo uma escolha legítima. A política brasileira apenas costuma demonstrar pouca delicadeza com quem insiste em disputar a eleição errada.

Fernando Carreiro
Fernando Carreiro
Jornalista e consultor especializado em reputação, crises de imagem, comportamento humano e estratégia política e de marcas, é autor de ‘Campanhas, Casos & Cases

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