Abril, no calendário político-eleitoral, é tradicionalmente o mês que marca o início da pré-temporada. É quando ocorrem as desincompatibilizações, quando os movimentos partidários deixam os bastidores e passam a ganhar forma pública, e quando os principais nomes começam a ocupar, de fato, seus espaços no tabuleiro. Ainda não é a eleição, mas é o momento em que o jogo começa a se organizar.
No Espírito Santo, 2026 entrou exatamente nesse estágio. Nas últimas semanas, decisões estruturais redesenharam o cenário: Renato Casagrande se desincompatibilizou, Lorenzo Pazolini deixou a prefeitura de Vitória, Ricardo Ferraço assumiu o governo do Estado e Arnaldinho Borgo optou por permanecer à frente da prefeitura, saindo da disputa. A isso se somam trocas partidárias, rearranjos de alianças e reposicionamentos estratégicos que, juntos, configuram o início efetivo da pré-temporada.
É exatamente após esse conjunto de movimentos que a pesquisa do Instituto Perfil, encomendada pelo ES Hoje, vai a campo. E esse detalhe é decisivo. Porque os números não captam uma eleição em andamento — captam um cenário ainda em formação.
Mesmo assim, como em toda pré-temporada, a apresentação das equipes já permite identificar algumas tendências importantes. No cenário estimulado para o governo, Lorenzo Pazolini aparece com 35,67%, enquanto Ricardo Ferraço registra 23,78%. À primeira vista, pode parecer uma vantagem consolidada. Mas esse é um tipo de leitura que ignora o principal: neste momento, a pesquisa estimulada mede muito mais recall do que decisão de voto.
E o recall, aqui, tem explicação objetiva. Pazolini e Casagrande vinham de posições com alta exposição institucional — prefeitura da capital e governo do Estado. Isso naturalmente os mantém presentes na memória do eleitor. Ricardo Ferraço, até então, não ocupava essa mesma vitrine. Esse quadro, no entanto, começa a se alterar a partir de agora. Ao assumir o governo, ele passa a operar com visibilidade contínua, agenda pública permanente e também com o ônus natural da gestão. Sai do plano secundário e entra definitivamente no centro da disputa.
Outro movimento que ajuda a explicar o cenário inicial é a saída de Arnaldinho Borgo da corrida pelo governo. Pelo perfil político, ele dialoga com uma faixa de eleitor muito próxima à de Pazolini. Sua decisão de não disputar não representa uma transferência automática de votos, mas reduz a fragmentação dentro desse mesmo campo. Em outras palavras, diminui a competição direta por um eleitor semelhante, o que tende a favorecer quem já estava melhor posicionado nesse espaço.
Mas é na leitura do voto espontâneo que o cenário real começa a aparecer. Quando não há apresentação de nomes, Renato Casagrande surge com 17,22%, seguido por Pazolini com 9,67% e Ricardo Ferraço com 7,11%. O dado, isoladamente, pode sugerir uma hierarquia. Mas ele precisa ser lido com cuidado. Casagrande não é candidato ao governo. Ou seja, esses 17% não permanecem na disputa real.
Mais relevante do que isso é observar o tamanho do eleitorado que ainda não se posicionou. A pesquisa mostra 19,67% de indecisos e 33,94% de entrevistados que não souberam ou não quiseram responder. Somados, são cerca de 53% do eleitorado sem qualquer definição clara. E mesmo entre os nomes citados, há forte dispersão. Isso indica que a eleição, neste momento, está muito mais no campo da formação de escolha do que da consolidação de voto.
É exatamente aqui que mora o principal risco de interpretação. Os números estimulados organizam o cenário, mas não definem comportamento. O que se vê hoje é presença de memória, não decisão tomada. Na analogia da Fórmula 1, os carros já estão na pista, os tempos começam a aparecer, as equipes testam ritmo e ajustes. Mas ainda não há corrida. Nem sequer houve largada.
A pesquisa também revela um ponto estrutural importante do Espírito Santo: a presença relevante do campo da direita. Mas esse dado vem acompanhado de um limite claro. Magno Malta aparece com 34,39% de rejeição, um patamar elevado que, na prática, restringe seu potencial de crescimento. Isso mostra que existe espaço político, mas não necessariamente viabilidade para todos os nomes que tentam ocupá-lo. Em eleição, não basta estar no campo certo — é preciso ser competitivo dentro dele.
Na disputa pelo Senado, o cenário apresenta outra dinâmica. Renato Casagrande surge com 28,68% no cenário estimulado e chega a 32,62% em um cenário mais enxuto. Aqui já se percebe um nível maior de consolidação, fruto de recall, trajetória e presença recente no comando do Estado. Ao mesmo tempo, a segunda vaga permanece completamente aberta, com nomes próximos e sem definição clara, o que tende a transformar essa disputa em uma das mais imprevisíveis do processo eleitoral.
Outro dado que merece atenção é o comportamento do eleitor ao longo do tempo. Mais de 51% afirmam decidir o voto nos últimos 10 dias de campanha. Esse número, por si só, reorganiza toda a análise. Ele indica que o cenário atual tem valor de leitura, mas não de definição. Mostra que a disputa real se dará na reta final, quando comunicação, posicionamento e estratégia terão peso decisivo.
Diante disso, a conclusão é inevitável. Abril marca, de fato, o início da pré-temporada. As equipes já se apresentaram, os primeiros movimentos foram feitos e os números começaram a aparecer. Mas é preciso dizer com clareza: o campeonato ainda não começou.
Não há corrida em andamento. Não há ritmo consolidado. Não há liderança real. O que existe é teste, ajuste e leitura de cenário.
E, no Espírito Santo de 2026, quem está olhando esses números como se fossem resultado final ainda não percebeu que a largada sequer foi dada.









