“Ainda que Eu Esqueça”

Querido leitor, o texto de hoje é inspirado nas dores de quem vive a ausência dos que ainda se fazem presentes. Boa leitura!

— Filho, senta aqui comigo um instante?

— Claro, mãe. Estou aqui.

— Às vezes, eu olho pra você e me esforço tanto pra lembrar. Sei que é amor o que sinto, mesmo que, em alguns momentos, o seu nome me escape como se o vento o tivesse levado. Isso me dói… porque você é meu menino, meu pedaço de mundo, e nem sempre consigo encontrar você nas minhas lembranças.

— Mãe, não tem problema. Eu estou aqui. Sempre vou estar.

— Eu tenho medo. Medo de ir embora antes de partir. Sabe como é estranho estar aqui, com os olhos abertos, o coração batendo… e, mesmo assim, sentir que estou me despedindo de mim mesma? Como se, pouco a pouco, cada pedaço da minha história estivesse escorregando pelos meus dedos.

— Eu sei, mãe. E eu sinto tudo isso com você.

— Lembro de quando você era pequeno… tinha um ursinho de pelúcia que não largava por nada. Aquele ursinho tinha um nome, mas agora… agora ele me foge. Não é só o nome do ursinho que escapa, são cheiros, vozes, datas, os rostos dos meus pais, o gosto do café da sua avó.

— A senhora lembra do cheiro da lavanda no quintal? Ainda dá pra sentir quando o vento passa…

— Sim… lavanda. Essa ficou. Ainda bem. Algumas memórias ficam como pequenas luzes acesas num quarto escuro. Eu agarro cada uma delas com força, porque sei que em breve elas também podem se apagar.

— A senhora continua sendo você, mesmo com as luzes piscando.

— Às vezes eu duvido. Me olho no espelho e não me reconheço. Me sinto desaparecendo dentro de mim, como se alguém tivesse começado a apagar meu nome de um livro que um dia foi cheio de histórias. Alzheimer não leva só a memória, filho… ele leva a minha essência, o meu jeito, o que me faz ser eu.

— Mas a senhora ainda está aqui. Na risada que dá quando vê uma flor desabrochando, no jeito como segura minha mão, no silêncio cheio de amor que fica entre a gente.

— Por enquanto. Logo virá o tempo em que nem isso vai restar. Quando eu não souber mais que te amo, você vai continuar me amando?

— Sempre. Mesmo que a senhora não saiba meu nome, eu saberei o da senhora. Mesmo que os olhos se percam, eu vou reconhecer você. Vou ser seu porto, sua lembrança viva.

— Me prometa uma coisa?

— O que quiser, mãe.

— Quando eu não souber mais quem sou… me conte. Me fale da menina que corria nos campos, da moça que dançava na chuva, da mulher que te embalava nas madrugadas. Me conte quem eu fui. Me faça viver de novo nas suas palavras.

— Eu prometo. Cada dia, todos os dias.

— Obrigada. Por me amar enquanto eu ainda sou. E por me amar quando eu não for mais.

— A senhora sempre será. Em mim, em nós, em tudo que deixou aqui. Ainda que a doença leve seus caminhos, seu amor é estrada que nunca se apaga.

— Então fica aqui, só mais um pouco?

— Fico. Até o fim. E além.

Moema Giuberti
Moema Giuberti
Moema Giuberti. Promotora de Justiça há 17 anos. Mestra em Direto pela PUC/SP. Poetisa nas horas vagas.

Você por dentro

Receba nossas últimas notícias em primeira mão.

Escolha onde deseja receber nossas notícias em primeira mão e fique por dentro de tudo que está acontecendo!

Comentários

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Mais Lidas

Notícias Relacionadas