Os malefícios das bets e dos influenciadores sociais na sociedade brasileira

As Bets, termo anglo-saxão para designar as casas de apostas esportivas online, tiveram uma expansão estrondosa desde 2018 no Brasil, quando foram autorizadas a funcionar por meio da Lei 13.756.  Na ocasião, ficou estabelecido que haveria uma regulamentação da atividade no período de dois anos. Mas isso não ocorreu no mandato do ex-presidente Bolsonaro. Somente em 2023 foi que o tema voltou a ser discutido no Congresso Nacional, a partir de Medida Provisória convertida na Lei 14.759.

Apesar da existência de uma base legal, os acontecimentos posteriores mostraram que o país estava à mercê de uma avalanche de casas de apostas irregulares, inclusive indo além das apostas esportivas. Os sites de apostas e jogos online de cota fixa desenvolveram-se em plataformas desreguladas e se constituíram em verdadeiros casinos nos celulares de adultos, mas também de jovens e crianças. O tal jogo do tigrinho como passou a ser conhecido é o mais famoso deles. Os dados mostraram que o país convive com uma prática social que leva a graves implicações para a sociedade em geral.

No correr do ano de 2024 os valores transacionados nesta atividade e os impactos sociais e econômicos chamaram a atenção da sociedade brasileira. Isso só se efetivou a partir das denúncias que sites e blogs independentes fizeram. Os grandes meios de comunicação dirigidos por corporações empresariais demoraram a entrar na discussão do tema. Eles são altamente beneficiados com as publicidades e resistem a regulações mais rígidas.

As bets foram se multiplicando de forma espantosa, com um movimento midiático pesado, e tendo a presença de atletas e personalidades do mundo esportivo e cultural do país. Os times de futebol foram ficando cada vez mais dependentes de apoios financeiros das bets e aqui, como em outros países, surgiram suspeitas de interferências criminosas nas partidas.  Nas redes sociais foram ganhando destaque as atuações dos influencers, ativistas que visam conquistar adeptos para produtos e serviços, tendo capacidade de chegar a um grande número de seguidores. Muitos destes “influenciadores” assumem o papel midiático de coachs e ganham muito dinheiro fazendo pregações de soluções milagrosas para seus seguidores, respaldando-se em enganosos discursos de autoajuda e de meritocracia. Esta perniciosa atividade (com raríssimas exceções) leva para os jovens a falsa ideia de se ter sucesso na vida e ter ganhos fáceis sem fazer esforço. Há uma adulteração dos valores sociais nobres e indispensáveis nas sociedades contemporâneas. A veneração a tais indivíduos é um fenômeno social dos nossos tempos e afeta diretamente a própria organização institucional e política do país.

O espantoso crescimento das bets, desenvolvido em meio a esta onda de domínio das redes sociais, se tornou um problema mais agudo quando foram constatados os números do que ocorria. Um relatório do Banco Central mostrou que, em agosto/2024, tinha havido uma destinação de mais de R$20 bilhões para esta atividade e, o pior, grande número de apostadores tinha renda muito baixa e dependia de benefícios de transferência de renda governamental. Em seguida, o setor varejista destacou que o segmento estava perdendo renda em função da destinação de recursos das famílias para apostas. O sistema financeiro também exprimiu sua preocupação com a escalada de valores que estavam sendo manuseados. Havia um aumento do endividamento pessoal e criavam-se as condições para lavagens de dinheiro. Além disso, centenas das bets estão sediadas no exterior, são desreguladas e passaram a ser dutos ativos da saída de divisas.

Diante desta realidade o governo federal restringiu mais de uma centena de casas de apostas irregulares. Ao mesmo tempo o Congresso Nacional constituiu uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) das bets.

O impacto na sociedade advindo deste tsunami de jogos online não é um fenômeno exclusivo do nosso país. Em diversos países esta situação também se manifestou e foram adotadas medidas rígidas para conter os danos na sociedade. Na Espanha a legislação se tornou muito mais rigorosa, restringindo a relação delas com os times de futebol e houve a decisão de só permitir a veiculação de propaganda em horários da madrugada. Nos EUA a autorização para as bets é recente e, por ora, vigora em 38 dos 50 estados da federação. Na China também foi necessário suspender inicialmente todas as casas de aposta e depois fazer um controle rígido da sua atuação nas redes sociais.

A proliferação das bets é fruto de um novo tempo que vivemos, onde predominam as relações sociais por meio virtual. Esta realidade precisa ser enfrentada com a clareza de que há efetivo risco para a coesão social em nosso país. Não bastam leis rígidas, embora elas sejam imprescindíveis. As instituições sociais, as entidades não governamentais e também as igrejas precisam atuar junto às famílias. Da mesma forma, os meios de comunicação precisam se engajar no fortalecimento de valores éticos no âmbito familiar e social.

Neste sentido, a restrição de uso de celulares nas escolas é uma medida que precisa ter o apoio da sociedade brasileira. As redes sociais trouxeram grandes avanços para os tempos modernos, mas também abriram caixas de pandora com a destruição de valores comportamentais próprios de uma urbanidade valiosa. O problema gerado pelas apostas online não é fato isolado. Ele está associado à própria futilidade predominante nas redes sociais, que tolhe a capacidade de raciocínio das pessoas e joga para bem longe o interesse pela leitura e pela educação integral, indispensáveis à construção de uma nação.

Enfim, é imprescindível que o aperto regulatório feito pelo executivo federal e a atuação parlamentar resultem na contenção dos malefícios do mundo virtual que atingem nossa sociedade. Cabe a cada um de nós atuarmos no esclarecimento do que enfrentamos e no debate sobre os valores sociais que predominam em nossas relações sociais.

Guilherme Lacerda
Guilherme Lacerda
Economista, com longa experiência na academia e com diversificada atuação nos setores público e privado, Guilherme Narciso de Lacerda foi Professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Espírito Santo, secretário adjunto de Desenvolvimento Econômico da Prefeitura de Belo Horizonte, Diretor de Operações do Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo (BANDES), Secretário de Planejamento do Estado do Espírito Santo, Secretário de Finanças da Prefeitura de Vila Velha, Presidente da Fundação dos Economiários Federais (FUNCEF) e Diretor do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). As colunas de Guilherme Lacerda serão publicadas em ESHOJE quinzenalmente, sempre às segundas-feiras. Seu histórico profissional dará base para opiniões que refletem, somente, a opinião do colunista. Como economista tem participado da estruturação de projetos de concessão/PPPs e elabora diagnósticos e estudos econômicos corporativos e sobre a conjuntura nacional.

Você por dentro

Receba nossas últimas notícias em primeira mão.

Escolha onde deseja receber nossas notícias em primeira mão e fique por dentro de tudo que está acontecendo!

Comentários

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Mais Lidas

Notícias Relacionadas