Narcisismo à Bolsonaro

Narcisismo à Bolsonaro

Por muito tempo, e ainda atualmente, dedico-me ao estudo do comportamento humano. Penso que entender a cabeça dos iguais nos mostra que somos bem diferentes. Em muitas coisas. E, de tal forma, precisamos nos respeitar dentro dessa diversidade. O que não quer dizer, por óbvio, que sejamos obrigados a conviver ou a aceitar determinados tipos de idiossincrasias. Algumas delas são tipificadas como doenças e merecem tratamento médico adequado.

O narcisismo é um dos vários tipos de transtornos de personalidade. Trata-se de uma condição mental em que as pessoas têm um senso inflado de sua própria importância, uma profunda necessidade de atenção e admiração excessivas, relacionamentos conturbados e falta de empatia pelos outros.

O narcisista tem um ego ferido, e o sofrimento que causa nas pessoas é uma projeção do sentimento interior e das feridas que evita. Seu maior medo é ser considerado louco ou fraco, e é por isso que ele tem prazer em fazer os outros se sentirem assim. Segundo uma das hipóteses, o narcisismo surge quando os pais valorizam demais as crianças, e elas acabam por ter uma ideia desproporcionada de si próprias: veem-se como pessoas privilegiadas.

O narcisista não se preocupa com você quando termina um relacionamento, por isso costuma ser incrivelmente difícil e doloroso no final. Ele não importa se você teve vida, família ou lealdade nos últimos vinte e cinco anos, ou apenas meses de relacionamento. É muito provável que no fim da relação você seja classificado e tratado pelo narcisista como um lixo.

O presidente Jair Bolsonaro tem uma rede de ex-amigos muito magoados com o término do relacionamento com ele. Roberto Jefferson talvez seja um dos principais. Passou o último ano reestruturando o PTB para caber no mundo bolsonarista. Preso pelo STF e se sentindo esquecido pelo amigo de então, escreveu um carta em que diz que Bolsonaro “fraquejou” e o condena por cercar-se de “viciados em dinheiro público”. O caso de Jefferson é uma rara situação em que um narcisista se relaciona com outro de mesma tipificação. Mas há outros, semelhantes.

Ao final de um relacionamento, os narcisistas tendem a culpar você por tudo que ocorreu. É o caso de Roberto Jefferson. Mas há também os que tentam convencer de que apenas você cometeu erros. E é nesse ponto que mora a relação entre Bolsonaro e Sérgio Moro. Quando era seu ministro da Justiça, respeito e admiração caminhavam lado a lado. Ao deixar seu governo – e, aqui, vou me ater à análise da relação narcísica entre os dois; as aspirações políticas do ex-juiz são tema para uma outra coluna –, Moro passou de escrupuloso a escroque de marca maior. Conseguiu ser odiado por bolsoanristas e petistas, na mesma intensidade. Um feito histórico!

Sara Giromini também compartilha desse sentimento de abandono. Foi coordenadora no Ministério da Mulher e organizou acampamentos em defesa do presidente, em Brasília. Mas como a história se repete como tragédia ou como farsa – segundo Karl Marx, o sociólogo mais odiado pela direita –, ao também ser presa pelo STF, Sara Winter (para os íntimos) lamentou o que chamou de “grande ilusão” ao se referir ao Governo Bolsonaro. E lamentou ter gritado “mito” pelas ruas: “Eu me decepcionei demais”.

Alguns outros, como é o caso do deputado federal Daniel Silveira (PSL-RJ), também preso pelo Supremo, chegam ao estado de negação: em entrevista aos jornais, minimizou o desalento de outrora e, ao deixar a prisão, garantiu ser fiel apoiador do presidente: “Ele fez o que pôde”.

Os traços narcísicos de Bolsonaro são inequívocos, o que não isenta seus amigos (e ex-amigos) de também os terem. Em menor ou maior grau, exibem seus perfis personológicos. Até porque o narcisismo vem acompanhado de suas categorizações: o tirano narcisista, o elitista narcisista, o narcisista fantasioso, o antagonista narcisista, o trapaceiro narcisista, o mártir narcisista. Cada um com sua especificidade, mas todos eles com os mesmos pontos fracos, entre eles a fuga da gratidão: quem sofre do transtorno de personalidade narcisista acredita que a gratidão desnuda suas fraquezas. E o maior medo de quem sofre dessa doença é se sentir fraco… ou louco. A boa notícia é que há tratamento.

Narcisismo à Bolsonaro

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Fernando Carreiro, 37, é jornalista e consultor de comunicação especializado em imagem, reputação e gerenciamento de crises

Fernando Carreiro
Fernando Carreiro
Jornalista e consultor especializado em reputação, crises de imagem, comportamento humano e estratégia política e de marcas, é autor de ‘Campanhas, Casos & Cases

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