*Baseado no artigo “509 anos da Reforma Protestante: Tradição viva, tradicionalismo e o que a fé tem a dizer a uma mente secularizada”, de Lisarb Nascimento
“Louvo-vos, porém, irmãos, porque em tudo vos lembrais de mim e retendes os preceitos (as tradições) tal como vo-los entreguei”
(1 Coríntios 11:2; cf. 2 Tessalonicenses 2:15)
Quando outubro chega ao fim, sempre me pego pensando sobre o que ainda precisamos aprender com a história. Neste 31 de outubro de 2026, celebramos os 509 anos da Reforma Protestante. Olhando para nossas igrejas, empresas, universidades e famílias, percebo uma ferida silenciosa: desaprendemos a caminhar com a forma e com a essência, sem separar o jeito de fazer da razão pela qual fazemos.
“Igreja reformada, sempre se reformando segundo a Palavra de Deus.” Esse princípio não é um passe livre para inventarmos modas religiosas, nem um convite à nostalgia paralisante. É um chamado à vigilância. Com a Bíblia aberta, somos convidados a retornar ao Pai, guiados pelo mandamento de Jesus: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos.
Tradição viva ou peça de museu?
Tradição significa entregar, passar adiante, transmitir um tesouro de uma geração para outra. Não é um museu cheio de peças empoeiradas; é como o leito firme de um rio, que protege a água e permite que ela corra limpa desde a nascente até nós.

O historiador Jaroslav Pelikan resumiu: “Tradição é a fé viva dos mortos; tradicionalismo é a fé morta dos vivos”. Uma tradição viva preserva costumes e métodos porque ainda se lembra do propósito que lhes dá sentido.
O tradicionalismo surge quando a embalagem passa a valer mais do que o presente. O gesto no culto, o estatuto ou a planilha continuam sendo cobrados com rigor, mas ninguém sabe explicar por quê. A forma vira um ídolo: venerada por fora, vazia por dentro.
A Reforma Protestante e o retorno às fontes
A Reforma enfrentou uma religiosidade na qual regras humanas e abusos, como a venda de indulgências, obscureciam a essência do Evangelho. O chamado dos reformadores era um retorno às fontes: às Escrituras e ao testemunho dos primeiros séculos do cristianismo.
Os Cinco Solas resumem esse coração: somente a Escritura, somente Cristo, somente a graça, somente a fé e glória somente a Deus. Um critério para limpar a fé das imposições humanas e devolver o brilho à graça de Deus.
Mas, ao combaterem o tradicionalismo vazio, os reformadores não jogaram a forma no lixo. Sabiam que somos frágeis, distraídos e precisamos de estruturas que nos ajudem a crescer na fé.

Rejeitar uma liderança acima da Bíblia não significava desprezar o estudo, a história da Igreja ou a vida comunitária. Quando alguém diz “basta eu e minha interpretação”, pode apenas trocar a autoridade da Igreja pela ditadura do próprio umbigo, dando aos próprios caprichos o nome de Deus.
Por isso, a Reforma valorizou o ensino cristão e produziu catecismos e confissões de fé. A boa forma ensina a doutrina, educa o coração e ajuda a transmitir a verdade às próximas gerações.
Entre a burocracia e o improviso
Esse problema atravessa os muros das igrejas. Quando nossa sociedade afasta Deus e o propósito espiritual das práticas que herdou, corre o risco de oscilar entre dois extremos: a burocracia cega do “sempre foi feito assim” e o improviso que descarta qualquer regra.
Nas universidades e na cultura, podemos trocar a busca pela verdade por jargões e vaidades. No extremo oposto, podemos desprezar métodos e fundamentos, deixando que a conveniência do momento decida o que vale.

Nas empresas e na gestão pública, procedimentos mantidos por inércia sufocam o propósito da instituição. Mas ignorar manuais técnicos e diretrizes em nome de uma falsa agilidade também cobra seu preço. Confunde-se o desconhecimento do motivo de uma regra com a inutilidade da própria regra.
Sem memória e fundamentos, tudo vira improviso. Uma organização que não sabe por que faz o que faz é como uma igreja sem catecismo: cheia de reuniões, mas vazia de direção.
Com a inteligência artificial, o desafio se repete. Adotamos ferramentas poderosas sem perguntar a qual propósito humano, ético e espiritual devem servir. Podemos criar um novo “clero digital”, delegando aos algoritmos a tarefa de pensar e discernir por nós.
Uma fé que aponta para Cristo
Nas igrejas, a mesma ferida aparece quando repetimos termos teológicos perfeitos, mas sem oração e amor prático ao próximo. Ou quando rejeitamos o estudo bíblico em busca de uma experiência espontânea, trocando a rocha das Escrituras por sensações passageiras.
Celebrar a Reforma é lembrar que nenhuma estrutura humana é intocável. Quando deixa de apontar para a verdade e para Cristo, precisa ser corrigida pela Palavra. Reformar exige voltar às raízes, preservando os fundamentos e compreendendo o propósito das formas.
Que o Senhor nos dê sabedoria para nunca separarmos o “como” do “para quê”, na fé, na família e no trabalho. A verdade e a graça não nasceram conosco: são uma herança preciosa que recebemos, examinamos à luz da Bíblia e, pelo poder do Espírito Santo, transmitimos com vida à próxima geração. Glória somente a Deus!









