A relação de Flávio Bolsonaro com as igrejas merece uma avaliação que vá além das orações públicas e das fotografias com líderes religiosos. Depois de examinar as aproximações de Lula com católicos e evangélicos, o Fé Pública analisa o senador e candidato à Presidência pelos mesmos critérios: fatos documentados, efeitos práticos e discernimento à luz do Evangelho.
O recorte acompanha o período iniciado em 2023, respeitando uma diferença: Lula exerce a Presidência; Flávio atua no Senado. A pergunta permanece: o que essas aproximações representam para as igrejas, para a política e para o nosso voto?
Os encontros e as medidas
A vinculação parlamentar de Flávio ao segmento evangélico antecede a campanha. Em março de 2023, a Agência Senado o registrou entre os integrantes da Frente Parlamentar Evangélica. Ele também aparece entre os autores do projeto de resolução de 2025 que propõe criar a Bancada Cristã do Senado. São registros de articulação legislativa, que não demonstram, isoladamente, benefícios concretos para a população.
Em 6 de abril de 2026, o senador esteve na Assembleia de Deus Ministério de Belém, em São Paulo. Segundo o Poder360, que publicou vídeo do encontro, José Wellington Bezerra da Costa orou para que ele chegasse à Presidência. Nesse caso, a oração incluiu uma manifestação favorável à eleição do pré-candidato.
Em 3 de maio, Flávio participou de culto na Assembleia de Deus Vitória em Cristo, no Rio. A Folha registrou a reaproximação com Silas Malafaia, que indicou apoio à candidatura após demonstrar reservas ao nome do senador.

Em 4 de junho, esteve na Marcha para Jesus, em São Paulo. A CNN confirmou sua participação. Na cobertura dos discursos, a Folha registrou sua referência a uma “guerra espiritual” e a afirmação de que o mal seria expulso do governo. O episódio permite examinar como a linguagem da fé é empregada na disputa política.
No campo católico, o cardeal Paulo Cezar Costa recebeu Flávio em 8 de outubro. O comunicado da Arquidiocese de Brasília descreve uma visita institucional, com diálogo sobre liberdade religiosa, laicidade, vida, família e combate à pobreza. Não declara apoio eleitoral. No dia 12, o candidato também participou de missa em homenagem a Nossa Senhora Aparecida, na Catedral de Brasília.
Entre essas agendas, em 10 de outubro, esteve na celebração do centenário da Assembleia de Deus Ministério de Madureira. Conforme reportagem da Folhapress publicada por O Tempo, Samuel Ferreira conduziu o lema “irmão vota em irmão” e disse que, se pudesse pedir votos, pediria para Flávio.
O significado dessas aproximações
Esses episódios têm naturezas diferentes. Participar de uma frente parlamentar revela articulação. Uma visita ao cardeal abre diálogo. Uma manifestação favorável à eleição expressa apoio político. Nenhum desses registros comprova, sozinho, melhoria na vida da população – ou, mesmo, transferência de votos.
A relação também teve tensões. Em setembro, circulou a informação falsa de que Flávio pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. A apuração do Projeto Comprova esclareceu que o projeto associado à narrativa era de outro parlamentar e estava arquivado desde 2008.

Flávio acusou pessoas ligadas à CNBB de ajudar na divulgação. A entidade negou envolvimento, como registrou a Agência Brasil. A avaliação honesta exige reconhecer a desinformação contra o candidato e não apresentar sua acusação contra a instituição como fato comprovado.
Católicos e evangélicos possuem diferenças internas. O apoio de um pastor não representa todos os membros de sua igreja – parte deles, sim; mas, como já dissemos aqui no Fé Pública, isso configura voto de cajado. Da mesma forma, receber um candidato em uma instituição católica não significa endossar suas propostas.
Discernir sem entregar a consciência
Em 1 Tessalonicenses 5:21, a Bíblia orienta a examinar tudo e reter o que é bom. Aplicado à vida pública, esse princípio exige verificar informações, reconhecer acertos e avaliar críticas com honestidade, inclusive quando o candidato compartilha nossa fé.
Miqueias 6:8 aponta para justiça, misericórdia e humildade diante de Deus. Esses critérios ajudam a perguntar quem é beneficiado pelas decisões, como os vulneráveis são tratados e se há respeito à dignidade humana. A identidade religiosa não dispensa essa avaliação.

A igreja pode dialogar com autoridades e colaborar em ações legítimas, preservando liberdade para discordar. Atos 5:29 estabelece a prioridade da obediência a Deus. Nenhuma aliança política deve ocupar esse lugar.
Também precisamos de cuidado ao apresentar a eleição como uma batalha entre o bem e o mal. A realidade espiritual ensinada pela Bíblia não autoriza identificar automaticamente uma candidatura com a vontade de Deus ou seus adversários com o mal.
Orar pelos governantes, como ensina 1 Timóteo 2:1–2, não obriga ninguém a apoiá-los eleitoralmente. Compartilhar a fé merece respeito, mas não substitui a avaliação da capacidade, da conduta e das propostas de quem deseja governar. Esta análise examina a atuação pública de Flávio, sem pretender julgar sua salvação.
Quanto isso pesa no voto?
As aproximações de Flávio Bolsonaro com as igrejas podem informar nossa avaliação, mas não devem determinar o voto. Orações, fotografias e apoios de líderes têm peso limitado. Ações concretas merecem consideração pelos resultados, junto com as propostas e o conjunto da atuação do candidato.
O respeito à liberdade religiosa importa. Também importam verdade, justiça, proteção da vida, cuidado com os pobres e responsabilidade no exercício do poder. Esses critérios precisam valer tanto para Flávio quanto para Lula.
Podemos votar com responsabilidade, cobrar governantes e reconhecer medidas boas. Nossa esperança definitiva, porém, está em Jesus Cristo. Governos podem servir à população, mas não podem nos salvar do pecado nem nos reconciliar com Deus.
Cristo morreu e ressuscitou para salvar pecadores. Nele encontramos perdão e vida eterna. Essa esperança nos permite participar da política com seriedade e liberdade de consciência, sem entregar a um candidato a confiança que pertence ao nosso Salvador.









