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SÃO CARLOS, SP (FOLHAPRESS) – Os grandes desafios deste século estão todos ligados à ciência e à tecnologia em escala global, o que significa que os políticos da direita nacionalista que chegaram ao poder nos últimos anos em países como os EUA e o Brasil não estão equipados para enfrentá-los. Eles simplesmente não têm respostas para essas questões, diz o historiador israelense Yuval Noah Harari.
Autor de livros como Sapiens e Homo Deus, que há anos não saem da lista de mais vendidos no país, Harari conversou com a Folha num hotel de São Paulo, durante sua primeira visita ao Brasil. Na capital paulista, ele participará de um encontro com um dos autores que inspiraram seu trabalho, o biogeógrafo americano Jared Diamond, e também estará em eventos no Rio e em Brasília.
Harari cita três grandes problemas globais que devem preocupar a humanidade no século 21: mudança climática, ascensão da inteligência artificial e avanços tremendos da biotecnologia e da bioengenharia.
Essas coisas vão transformar a própria evolução humana. E, quando você escuta o que a extrema direita tem a dizer, vê que eles não têm ideia alguma sobre esses temas. Afirmam que a mudança climática é fake news, não têm nada a dizer sobre as revoluções tecnológicas e sobre como lidar com a revolução da automação e não têm plano nenhum para criar uma ordem global alternativa. O máximo que eles conseguem imaginar é um mundo formado por fortalezas isoladas, que não tem como funcionar considerando as conexões econômicas mundiais de hoje.
Além de Donald Trump e de Jair Bolsonaro, Harari elenca entre essas figuras da direita radical políticos como o italiano Matteo Salvini e o russo Vladimir Putin. Os grandes desafios que citei só podem ser mitigados por regras de cooperação internacional aceitas pela grande maioria dos países. Pense no estrago que a criação de sistemas de armamentos autônomos pode causar, por exemplo. Não adianta o seu país dizer: Esse negócio é perigoso, não vamos mexer com isso. Se, por exemplo, os russos começarem a usar esse tipo de sistema, outros países não terão alternativa a não ser desenvolvê-lo também.
No entanto, para o historiador, ainda é cedo para dizer se essa onda direitista veio para ficar. O que acontecer em 2020, durante a próxima eleição presidencial americana, deve fazer muita diferença para os rumos desses movimentos, prevê ele.
O que Trump tem feito é recusar o papel que os EUA desempenham desde o fim da Segunda Guerra Mundial, o de líderes do mundo livre. Isso causou uma bagunça sem precedentes nesse sistema global, que parecia bem estabelecido.
Apesar de ter defendido, em Homo Deus, que a humanidade está perto de adquirir a capacidade de reescrever seu próprio genoma e adquirir longevidade e capacidades quase divinas, Harari diz que não descarta a possibilidade de que existam barreiras fundamentais na biologia humana, as quais impediriam que esse processo fosse levado às últimas consequências.
Acho que modificações profundas no genoma humano talvez aconteçam daqui a cem ou 200 anos. Não é algo para agora, explica. Enquanto isso, porém, as possibilidades mais perturbadoras viriam do casamento entre tecnologia da informação e biotecnologia. Governos não democráticos e grandes empresas inescrupulosas poderiam utilizar sensores presentes em smartphones e sistemas de análise maciça de dados para monitorar os estados mentais de cada pessoa em tempo real, com base em coisas aparentemente tão simples quanto detalhes das expressões faciais ou a dilatação das pupilas.
Ainda que esse tipo de pesadelo totalitário não se concretize, Harari diz que historiadores como ele precisam ficar cada vez mais abertos à influência das ciências naturais, em especial por parte da biologia e de sua ideia unificadora, a teoria da evolução.
É algo que vem acontecendo cada vez mais, em parte porque a história sempre absorveu bastante as contribuições de outras disciplinas, como aconteceu com a economia no século passado, afirma.
Além do trabalho de Jared Diamond, autor de Armas, Germes e Aço e responsável por formular uma história do desenvolvimento das civilizações baseada nos efeitos da agricultura e da criação de animais, Harari destaca a importância de dois primatologistas, o holandês Frans de Waal e o americano Robert Sapolsky, para o desenvolvimento de suas ideias sobre a condição humana.
Para o historiador, entender as sociedades de primatas e o parentesco entre os seres humanos e essas criaturas traz insights sobre os mais diferentes aspectos do comportamento do Homo sapiens, da guerra às configurações familiares. A ideia ingênua de que a única configuração natural da família humana é formada por um homem, uma mulher e três filhos, por exemplo, cai por terra quando você leva em conta os demais primatas e o nosso passado evolutivo.
Por outro lado, a história humana possui uma camada extra de complexidade, representada pela criação coletiva de histórias e mitos, cujo papel é conferir significado ao que se faz em sociedade. Essa capacidade exclusivamente humana seria, para o autor, a responsável pela construção de grupos sociais tão complexos quanto Estados, impérios ou a União Europeia.
É um erro achar que conflitos entre seres humanos normalmente giram em torno da disputa por recursos. Na maior parte das vezes, eles acontecem por causa do conflito entre histórias rivais. O caso do meu próprio país mostra bem isso. Há terra, água e alimentos suficientes tanto para israelenses quanto para palestinos em Israel e nos territórios ocupados. A questão é que as histórias que cada um dos grupos conta sobre seu lugar no mundo não se encaixam uma com a outra.
Autor: REINALDO JOSÉ LOPES









