A denúncia da pastora Helena Raquel, o silêncio das igrejas e o espetáculo

A denúncia da pastora Helena Raquel, o silêncio das igrejas e o espetáculoEm meio aos gritos, aplausos e à intensa repercussão do Congresso dos Gideões, um trecho específico da pregação da pastora Helena Raquel rompeu a bolha religiosa e alcançou até quem normalmente não acompanha o universo evangélico.

Diante de milhares de pessoas e de uma audiência multiplicada pelas redes sociais, ela fez um apelo direto às mulheres vítimas de violência doméstica: parar de apenas orar por maridos violentos, buscar ajuda, denunciar e, se necessário, romper o relacionamento antes que a agressão termine em morte.

A fala causou impacto porque confronta um problema antigo e silencioso dentro de muitos ambientes religiosos: a espiritualização do sofrimento feminino.

Quando o aconselhamento mantém mulheres em perigo

Durante décadas, inúmeras mulheres ouviram conselhos que, embora revestidos de linguagem bíblica, frequentemente serviram para mantê-las presas em relações abusivas. “Ore mais”, “jejue mais”, “Deus vai transformar seu marido”, “não destrua sua família”, “casamento é até a morte”. Em muitos casos, aquilo que deveria ser aconselhamento pastoral tornou-se tolerância disfarçada de espiritualidade.

É evidente que a Bíblia valoriza profundamente o casamento. O matrimônio não é tratado nas Escrituras como algo descartável ou superficial. Contudo, a defesa bíblica da aliança nunca foi autorização para violência, humilhação ou terror doméstico.

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Quando o apóstolo Paulo de Tarso orienta os maridos a amarem suas esposas “como também Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela” (Efésios 5:25, NAA), ele não legitima domínio cruel, manipulação ou agressão. O padrão estabelecido ali é sacrificial, protetivo e amoroso — completamente incompatível com abuso.

A própria Escritura condena explicitamente a violência. Em Livro de Malaquias 2:16, a NAA registra: “Porque o Senhor, Deus de Israel, diz que odeia o divórcio e também odeia aquele que cobre de violência as suas roupas”. O texto é frequentemente lembrado apenas pela primeira parte, enquanto a condenação da violência costuma ser ignorada.

A coragem de dizer o que muitos púlpitos evitaram

Talvez aí esteja um dos aspectos mais emblemáticos da fala de Helena Raquel: ela verbaliza publicamente uma dor que muitas mulheres cristãs carregam em silêncio há anos.

Não deixa de ser simbólico que isso aconteça pela voz de uma mulher em um ambiente predominantemente masculino. Não se trata aqui de discutir pastorado feminino ou modelos eclesiásticos — debate legítimo, mas pertencente a outra conversa. O ponto é outro: durante muito tempo, boa parte das estruturas religiosas falhou em oferecer proteção real às vítimas.

Muitas mulheres têm medo de procurar ajuda dentro da própria igreja porque receiam ser desacreditadas, culpabilizadas ou pressionadas a permanecer imediatamente em relacionamentos abusivos “para preservar a família”.

Nesse sentido, a denúncia pública feita por Helena Raquel possui relevância pastoral e social inegável.

A denúncia da pastora Helena Raquel, o silêncio das igrejas e o espetáculoO púlpito transformado em palco

Mas há outra camada nessa história que também precisa ser observada.

A mesma pregação que denuncia corretamente a violência doméstica também revela um fenômeno crescente no evangelicalismo brasileiro contemporâneo: a transformação do púlpito em espetáculo.

Não é uma crítica exclusiva ao pentecostalismo. Seria injusto e simplista afirmar isso. O fenômeno atravessa praticamente todo o evangelicalismo nacional, ainda que se manifeste de maneiras diferentes.

Hoje, muitos líderes religiosos operam dentro de uma lógica semelhante à da cultura de influência digital: equipes profissionais, gerenciamento de imagem, agendas comerciais, produtos próprios, clubes exclusivos, linguagem de marca pessoal, cortes emocionais para redes sociais e construção de forte apelo performático.

No caso de Helena Raquel, isso aparece de forma explícita: trilha sonora dramática ao fundo, gestos intensos, construção emocional da narrativa e elementos visuais cuidadosamente pensados para circulação digital.

Emoção não é o problema

É importante dizer: emoção não é problema. A Bíblia está repleta de emoção. O profeta Jeremias chorou diante da decadência espiritual de Israel. Davi escreveu salmos atravessados por angústia, medo e desespero. O próprio Jesus Cristo chorou diante da morte de Lázaro.

A questão não é a existência de emoção no púlpito. A questão é quando a emoção passa a ser cuidadosamente produzida para consumo.

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han afirma, em “A Sociedade do Cansaço” (Vozes, 2015), que a sociedade contemporânea transformou praticamente todas as experiências humanas em desempenho e exposição. A lógica da performance invadiu a política, o entretenimento, os relacionamentos — e também a religião.

Nesse ambiente, o pregador corre o risco de deixar de ser reconhecido pela fidelidade de seu pastoreio para ser consumido pela capacidade de gerar impacto.

E esse talvez seja um dos grandes dilemas do evangelicalismo atual: quando o púlpito se adapta excessivamente à lógica do entretenimento, a igreja pode aprender a admirar celebridades religiosas enquanto desaprende a cuidar de pessoas feridas.

O Evangelho não foi dado para aprisionar vítimas

Ainda assim, reduzir a fala de Helena Raquel apenas à estética do espetáculo seria um erro. Porque, mesmo em meio às luzes, aos cortes virais e à cultura da celebridade religiosa, uma verdade necessária foi dita.

Mulheres violentadas precisam de proteção, não de culpa espiritual. Precisam de acolhimento, não de silêncio. Precisam de segurança, não de sermões que transformem sofrimento em prova obrigatória de fé.

Talvez um dos pecados mais silenciosos de parte do evangelicalismo brasileiro tenha sido ensinar mulheres a suportarem o insuportável em nome de uma ideia distorcida de submissão cristã. Em alguns ambientes religiosos, a cruz deixou de simbolizar esperança e passou a ser confundida com permanência obrigatória na dor.

Suportar violência não é virtude

Mas o Evangelho nunca tratou a violência como virtude espiritual.

Jesus Cristo jamais usou autoridade para esmagar feridos. Pelo contrário: aproximou-se dos vulneráveis, confrontou hipócritas religiosos e denunciou estruturas que colocavam pesos sobre pessoas já cansadas.

Em Evangelho de Mateus 23:4 (NAA), ao denunciar líderes religiosos de sua época, Jesus declarou: “Atam fardos pesados e difíceis de carregar e os põem sobre os ombros dos outros”.

A fala de Helena Raquel provoca justamente porque toca nesse ponto sensível: quantas mulheres receberam da igreja mais peso quando precisavam de socorro?

E talvez essa seja a pergunta que o evangelicalismo brasileiro precise enfrentar com honestidade.

A denúncia da pastora Helena Raquel, o silêncio das igrejas e o espetáculo

O verdadeiro escândalo

Não basta templos lotados, transmissões milionárias, pregadores famosos e discursos emocionantes se mulheres continuam sangrando em silêncio dentro de casa enquanto a igreja lhes oferece apenas frases espirituais para suportar o abuso.

Uma igreja pode crescer em audiência e ainda fracassar no amor. Pode viralizar sermões e ainda falhar no cuidado. Pode produzir celebridades religiosas e, ao mesmo tempo, abandonar gente ferida nos bancos.

O verdadeiro escândalo não é uma mulher subir ao púlpito para denunciar violência doméstica.

O verdadeiro escândalo é que isso ainda precise ser dito com tanta urgência em tantas igrejas.

Gustavo Gouvêa
Gustavo Gouvêahttps://eshoje.com.br/author/gustavo-gouvea/
Jornalista graduado pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) em 2009; atuou nos principais veículos de comunicação do ES; tem mestrado em Ciências Sociais pela Ufes (2019), é teólogo formado pelo Cetebes (Centro Teológico Batista do ES) em 2023 e é músico.

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