Investigação não aponta destino de R$ 6 mi recebidos por entidade ligada à produtora de ‘Dark Horse’

A associação chamada Academia Nacional de Cultura (ANC) recebeu cerca de R$ 6,2 milhões em uma suposta triangulação de recursos públicos que chegaram à produtora Go Up Entertainment, do filme “Dark Horse”. A ANC é presidida por Karina Ferreira Gama, dona da produtora.

A Polícia Federal ainda não esclareceu que destino a ANC deu a essa verba, conforme aponta o ministro Flávio Dino, do STF (Supremo Tribunal Federal), na decisão que autorizou a operação que mirou o esquema de financiamento do filme a respeito de Jair Bolsonaro (PL), realizada na quinta-feira (10).

O financiamento de “Dark Horse” passou a ser investigado depois que o candidato a presidente Flávio Bolsonaro (PL) admitiu ter pedido verba a Daniel Vorcaro, do Banco Master, para bancar a obra sobre seu pai. Dos cerca de R$ 130 milhões prometidos pelo ex-banqueiro, R$ 60 milhões teriam sido pagos.

A Polícia Federal apura se houve também desvio de verbas públicas para a produção de “Dark Horse”.

A investigação revelou um esquema que teria recebido tanto dinheiro público federal, viabilizado por meio de emendas parlamentares do deputado federal Mario Frias (PL-SP), quanto municipal, da Prefeitura de São Paulo.

O beneficiário de R$ 1 milhão em emendas de Mario Frias e de R$ 108 milhões em um contrato da prefeitura para instalação de pontos de wifi foi a organização ICB (Instituto Conhecer Brasil), que também pertence a Karina Gama. A partir daí, os recursos foram repassados a uma série de empresas, algumas também ligadas a Karina.

Segundo a PF, há suspeita de que haja um circuito financeiro fechado para fazer com que a verba paga ao ICB retornasse à rede gerida por Karina, que inclui a ANC e a produtora Go Up. A Folha de S.Paulo mostrou que a Polícia Civil de São Paulo, que também investiga o caso, apura se o ICB usou faturas e notas fiscais descritas como frias para justificar despesas custeadas pela prefeitura.

A decisão de Dino aponta que a ANC recebeu quase R$ 6,2 milhões entre julho de 2024 e dezembro de 2025 de quatro empresas que, por sua vez, receberam verba do ICB no mesmo período. A informação se baseia em RIFs (Relatórios de Inteligência Financeira) dessas empresas produzidos pelo Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras).

O RIF relativo à própria ANC, no entanto, mostra apenas uma movimentação de R$ 1,1 milhão entre maio de 2025 e maio de 2026, sendo R$ 565 mil em créditos e R$ 525 mil em débitos. A hipótese da PF é de que a entidade tenha outras contas bancárias não comunicadas ao Coaf.

“Chama a atenção o fato de ser essa a única comunicação de titularidade da ANC, pois ela aparece por diversas vezes como destinatária de recursos em comunicações de terceiros, recebendo valores bastante superiores aos mencionados nesta comunicação, o que leva a crer que ela possui outra conta bancária, que não foi comunicada”, diz a investigação.

A decisão de Dino diz ainda que “constata-se registros do envio de um total de R$ 6.175.273,64 para a ANC, o que, novamente, torna curioso o não recebimento de comunicações simétricas referentes às contas da mencionada organização da sociedade civil, notadamente considerando que ela não tem fins lucrativos”.

A Folha de S.Paulo já mostrou que a ANC também foi beneficiada com emendas de deputados. Uma série da ANC sobre heróis nacionais teve R$ 2,6 milhões de emendas destinadas pelos deputados Marcos Pollon (PL-MS) e Bia Kicis (PL- DF), além de Carla Zambelli, então deputada pelo PL de São Paulo, e Alexandre Ramagem, que exercia o mandato pelo PL do Rio de Janeiro.

Conforme revelado pelo UOL, o dinheiro foi repassado em 2024, por emenda Pix, para o estado de São Paulo e tinha como destino a ANC. A investigação da PF diz que as emendas de Bia Kicis e Marcos Pollon, no entanto, não chegaram a ser transmitidas pelo governo paulista à ANC “em razão de óbices normativos e técnicos na celebração do respectivo termo de parceria”.

Em 2025, o deputado estadual de São Paulo Gil Diniz (PL) também usou uma emenda de R$ 200 mil para financiar a série documental “Heróis Nacionais – filhos do Brasil que não se rende”. O dinheiro foi pago em agosto daquele ano.

Além da suspeita de uso de verba pública na produção de “Dark Horse”, outra linha de investigação da PF apura se parte do dinheiro pago por Vorcaro foi enviado aos Estados Unidos para custear despesas do ex-deputado Eduardo Bolsonaro, que busca o apoio do governo de Donald Trump contra a eleição de Lula (PT).

A defesa de Karina Gama afirmou, no dia da operação, que a empresária está “contribuindo espontânea e voluntariamente” com as investigações, tanto que atendeu a um pedido da PF e “entregou mais de 20 mil laudas de documentos, o que prova sua boa-fé e lealdade processual”.

Neste domingo (13), a defesa de Karina disse considerar positiva a decisão de Dino de levantar o sigilo da investigação da Polícia Civil de São Paulo sobre o filme.

“Desde o primeiro momento, a ara. Karina Gama tem sustentado, de maneira firme e inequívoca, que não praticou qualquer ilícito. […] A defesa confia que a plena exposição dos fatos demonstrará que a ara. Karina Gama não pode ser transformada em culpada pela intensa efervescência da vida nacional, em um momento de extraordinária agitação e movimentação política”, afirmou em nota.

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) – CAROLINA LINHARES

Você por dentro

Receba nossas últimas notícias em primeira mão.

Escolha onde deseja receber nossas notícias em primeira mão e fique por dentro de tudo que está acontecendo!

Comentários

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Mais Lidas

Notícias Relacionadas