O som de um ronco vindo do quarto dos pais é uma cena comum no cotidiano de muitas famílias, mas quando o ruído parte do berço ou da cama infantil, os responsáveis devem acender o sinal de alerta. Ao contrário da crença popular de que o ronco na infância indica um sono pesado ou relaxante, o sintoma costuma ser a primeira evidência de que a passagem do ar está comprometida durante a noite.
Na maioria dos casos atendidos em consultórios, a causa primária dessa dificuldade respiratória está associada ao crescimento desproporcional das amígdalas e da adenoide — estrutura popularmente chamada de “carne no nariz”. Quando essas formações aumentam de tamanho além do esperado para a faixa etária, elas passam a bloquear a via aérea superior. O resultado é o surgimento da respiração bucal e, em situações mais severas, o desenvolvimento da Síndrome da Apneia Obstrutiva do Sono (SAOS).
Conforme explica a médica Loyane Bronzon, otorrinolaringologista especialista em atendimento infantil e distúrbios do sono, muitos pais chegam ao consultório acreditando que o ronco do filho é algo comum ou consequência de um dia cansativo.
Esforço além do comum
A especialista ressalta que a criança que respira pela boca e ronca realiza um esforço físico contínuo para conseguir puxar o ar durante a noite. Esse trabalho respiratório fragmenta o descanso e impede que o corpo alcance os estágios mais profundos do sono, cruciais para a liberação adequada do hormônio do crescimento.
As repercussões de uma rotina de noites mal dormidas não ficam restritas ao período noturno e costumam se manifestar de forma clara ao longo do dia. É frequente que crianças afetadas pela apneia ou por bloqueios respiratórios apresentem quadros de irritabilidade, hiperatividade, déficit de atenção, sonolência diurna excessiva e prejuízos no desempenho escolar. A longo prazo, a respiração bucal crônica também pode causar alterações na musculatura e no formato do rosto, desalinhamento dos dentes e complicações na mastigação e na dicção.
Diagnóstico e tratamento
O diagnóstico feito nos primeiros sinais de alteração respiratória é fundamental para preservar o desenvolvimento cognitivo e físico da criança. A partir do exame clínico especializado, o médico identifica a localização exata e a gravidade da obstrução das vias aéreas.
O tratamento não envolve obrigatoriamente intervenção cirúrgica. Dependendo da severidade do caso, a recuperação da qualidade respiratória pode ser alcançada com o uso de medicações específicas, técnicas adequadas de lavagem nasal diária e o suporte de uma equipe multidisciplinar com fonoaudiólogos e ortodontistas. Nos cenários em que a remoção cirúrgica das amígdalas e da adenoide é necessária, o procedimento é considerado simples, possui recuperação célere e restabelece a qualidade de vida do paciente e da família.
Familiares e cuidadores devem monitorar o comportamento das crianças e observar sinais recorrentes como ronco contínuo, pausas respiratórias perceptíveis durante o sono, agitação na cama, episódios de enurese (xixi na cama) após a etapa de desfralde e o hábito de permanecer com a boca aberta ao longo do dia. Diante da presença desses sintomas, a orientação médica é agendar uma avaliação otorrinolaringológica.










