A redução do apetite é um dos efeitos esperados dos medicamentos utilizados no tratamento da obesidade, especialmente os chamados agonistas do receptor de GLP-1 e outras medicações que atuam sobre mecanismos relacionados à saciedade. Embora a diminuição da fome possa contribuir para a perda de peso, um novo consenso internacional publicado no The Lancet chama a atenção para um ponto que merece cuidado: comer menos não significa necessariamente comer melhor.
Produzido por três importantes entidades internacionais das áreas de obesidade e nutrição, o documento reúne recomendações práticas baseadas em evidências para orientar a alimentação de pessoas que utilizam esses medicamentos. Entre os principais pontos estão a atenção ao consumo adequado de proteínas, fibras e líquidos, além de estratégias para lidar com efeitos gastrointestinais comuns, como náuseas, refluxo e constipação.
Para a endocrinologista e metabologista Gisele Lorenzoni, o consenso reforça uma preocupação observada frequentemente na prática clínica: a redução excessiva da ingestão alimentar pode comprometer a qualidade nutricional da dieta.
“Quando a medicação reduz muito a fome, existe o risco de o paciente simplesmente parar de comer ou passar a consumir quantidades muito pequenas de alimentos, sem conseguir atingir as necessidades nutricionais do organismo. A perda de peso pode ser um objetivo do tratamento, mas precisamos garantir que essa perda aconteça com preservação da massa muscular e com uma alimentação nutricionalmente adequada”, explica a médica.
Entre as recomendações destacadas pelo consenso está a atenção especial ao consumo de proteínas. A orientação apresentada no documento é de uma ingestão na faixa de 1 a 1,5 grama de proteína por quilo de peso corporal ao dia, com pelo menos 60 gramas distribuídas ao longo das refeições, priorizando fontes como ovos, frango, peixes, iogurte grego, feijão e lentilha.
A proteína tem papel fundamental na manutenção da massa muscular, especialmente durante processos de perda de peso. Segundo Gisele, esse cuidado se torna ainda mais importante quando o paciente está utilizando medicamentos que reduzem significativamente o apetite.
“A proteína precisa ganhar protagonismo na alimentação desses pacientes. Quando a pessoa come pouco, cada refeição precisa ser aproveitada do ponto de vista nutricional. Fontes proteicas como ovos, peixes, frango, laticínios e leguminosas podem ajudar a preservar a massa muscular e garantir uma melhor qualidade nutricional durante o processo de emagrecimento”, afirma.
A especialista ressalta, no entanto, que as necessidades individuais podem variar de acordo com peso, idade, composição corporal, função renal, nível de atividade física e outras condições de saúde. Por isso, as metas de ingestão devem ser individualizadas por profissionais de saúde.
Fibras e hidratação também entram no planejamento
O consenso também destaca a importância das fibras, com uma recomendação de pelo menos 25 gramas por dia, priorizando frutas, verduras, legumes e cereais integrais.
Além de contribuírem para a saúde intestinal, as fibras podem auxiliar na qualidade da alimentação e na saciedade. Entretanto, quando há redução importante da ingestão de alimentos ou sintomas gastrointestinais relacionados ao tratamento, atingir a quantidade adequada pode ser um desafio.
A hidratação é outro ponto fundamental. A recomendação apresentada no documento é de aproximadamente 2 a 2,5 litros de água por dia, considerando que a necessidade pode variar de acordo com características individuais e condições clínicas.
“A combinação de fibras e líquidos é especialmente importante para o funcionamento intestinal. Não adianta aumentar muito a quantidade de fibras se a pessoa não está ingerindo líquido suficiente. Além disso, a atividade física e o movimento também contribuem para a saúde intestinal. É um conjunto de hábitos que precisa ser trabalhado durante o tratamento”, orienta a endocrinologista.
Alimentação pode ajudar a controlar os efeitos colaterais
Náuseas, sensação de estômago cheio, refluxo e constipação estão entre as queixas que podem aparecer durante o uso de medicamentos que reduzem o apetite e alteram o funcionamento do sistema gastrointestinal.
Nesses casos, algumas adaptações na alimentação podem ajudar. Para pacientes com enjoo, por exemplo, refeições menores e menos gordurosas podem ser melhor toleradas. Já quem apresenta refluxo pode se beneficiar de evitar refeições muito volumosas, especialmente no período noturno.
Para a constipação, a estratégia deve envolver uma combinação adequada de fibras, hidratação e movimento. “A alimentação pode ser uma grande aliada para melhorar a tolerância ao tratamento. Em vez de fazer refeições grandes, que podem piorar a náusea ou o desconforto, o paciente pode fracionar melhor a alimentação e escolher preparações mais leves. Para o refluxo, também é importante observar o volume e o horário das refeições. Já no intestino preso, precisamos olhar para fibras, hidratação e atividade física de forma conjunta”, explica a endocrinologista.
Outro alerta importante é para o risco de restrições alimentares excessivas. Com a redução do apetite provocada pelos medicamentos, alguns pacientes podem acabar eliminando grupos alimentares inteiros, especialmente os carboidratos, na tentativa de acelerar o emagrecimento.
Para a médica, essa estratégia pode ser prejudicial e contribuir para sintomas como fadiga e fraqueza.”Não é necessário demonizar ou excluir completamente os carboidratos. Eles fazem parte de uma alimentação equilibrada e podem fornecer energia para as atividades do dia a dia e para a prática de exercícios. O problema está no excesso e na baixa qualidade da escolha alimentar, não no carboidrato como grupo. Uma restrição exagerada, especialmente em um paciente que já está comendo pouco por causa da medicação, pode contribuir para cansaço e dificuldade de manter uma rotina ativa”,alerta Gisele.
A recomendação, segundo a médica, é priorizar carboidratos de melhor qualidade nutricional, como frutas, legumes, verduras e cereais integrais, respeitando as necessidades e características de cada paciente.
A especialista explica que a medicação reduz a quantidade, porém é a alimentação que protege a qualidade. “O objetivo não é simplesmente comer o mínimo possível, mas fazer com que aquilo que o paciente consegue consumir tenha qualidade nutricional suficiente para preservar músculos, fornecer energia e manter a saúde durante todo o processo de emagrecimento”,conclui a endocrinologista e metabologista Gisele Lorenzoni.










