Celebrado no dia 13 de julho, o Dia Mundial de Conscientização do Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) chama atenção para um tema que vem se destacando entre famílias, educadores e profissionais de saúde. Nos últimos anos, o aumento do número de diagnósticos levantou um questionamento frequente: há mais pessoas com TDAH ou o transtorno está sendo identificado com maior precisão?
Segundo a pedagoga e psicopedagoga clínica e institucional Juliana Santos, pós-graduanda em Dependências Digitais e especialista em desenvolvimento infantil, o crescimento dos diagnósticos está relacionado principalmente ao avanço das pesquisas científicas e ao maior acesso a profissionais capacitados para identificar o transtorno.
“O aumento das pesquisas e do número de especialistas preparados para atender e diagnosticar pessoas com TDAH é o principal fator para o crescimento dos diagnósticos. Hoje também existe uma compreensão mais ampla sobre os diferentes perfis do transtorno”, afirma.
O que é o TDAH?
O TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento que interfere na capacidade de manter a atenção, controlar impulsos, organizar tarefas e regular o comportamento.
Em ambiente escolar, isso pode comprometer diretamente a aprendizagem e as relações sociais.
De forma geral, o transtorno é dividido em três apresentações clínicas:
Predominantemente desatenta: dificuldade para manter o foco, organizar atividades e concluir tarefas.
Predominantemente hiperativa/impulsiva: inquietação constante, impulsividade e dificuldade para esperar a própria vez.
Combinada: reúne sintomas de desatenção e hiperatividade, frequentemente associados a dificuldades na regulação emocional.
De acordo com a especialista, pesquisas em neurociência também têm identificado diferentes padrões de funcionamento cerebral relacionados a esses perfis, contribuindo para um entendimento mais aprofundado do transtorno.
Excesso de telas pode agravar sintomas
O uso intenso de celulares, tablets, videogames e redes sociais é outro tema que preocupa especialistas.
Juliana explica que as tecnologias não são necessariamente prejudiciais, mas o consumo excessivo e sem mediação pode intensificar dificuldades já presentes em crianças e adolescentes com TDAH.
“No perfil desatento, o excesso de notificações e vídeos curtos dificulta ainda mais a manutenção da atenção em uma única atividade e reduz a tolerância para leituras e tarefas mais longas”, explica.
Segundo ela, nos casos de hiperatividade e impulsividade, jogos eletrônicos e redes sociais baseados em recompensas rápidas podem aumentar comportamentos impulsivos e favorecer conflitos e exposição a conteúdos inadequados.
Já nos quadros combinados, o uso intenso das redes sociais pode contribuir para ansiedade, irritabilidade, comparações constantes e baixa autoestima.
Tecnologia também pode ser uma aliada
Apesar dos riscos, especialistas ressaltam que as telas não devem ser tratadas como vilãs.
Quando utilizadas com objetivos pedagógicos e acompanhamento dos professores, elas podem favorecer a inclusão e melhorar o processo de aprendizagem.
Entre os recursos apontados por Juliana estão:
- Agendas digitais para organização da rotina;
- Mapas mentais e infográficos;
- Plataformas de acompanhamento do aprendizado;
- Atividades gamificadas com objetivos educacionais;
- Podcasts e vídeos produzidos pelos próprios estudantes;
- Ferramentas de inteligência artificial voltadas para educação.
A pedagoga destaca ainda plataformas como o NotebookLM, que permitem transformar conteúdos em mapas mentais, flashcards, áudios e outros materiais didáticos que tornam as aulas mais dinâmicas.
Para ela, investir na formação de professores sobre inteligência artificial generativa também representa uma oportunidade para melhorar a qualidade do ensino.
Como diferenciar excesso de telas de sinais de TDAH?
Alguns comportamentos provocados pelo uso exagerado de telas podem ser semelhantes aos sintomas do TDAH.
Entre eles estão:
- Dificuldade de concentração;
- Queda no rendimento escolar;
- Desinteresse pelos estudos;
- Alterações no sono;
- Dificuldade para manter a atenção em atividades pouco estimulantes.
A especialista orienta que a primeira medida seja reduzir significativamente o tempo de exposição às telas e reorganizar a rotina da criança, incluindo atividades ao ar livre, brincadeiras, leitura e convivência familiar.
Caso os sintomas persistam por vários meses, mesmo após essas mudanças, é recomendável buscar avaliação de profissionais especializados.
Qual é o papel da família?
Para Juliana, o equilíbrio está na organização da rotina.
Ela lembra que boa parte do dia da criança já é ocupada por sono, escola e deslocamentos. O tempo restante deve contemplar atividades fundamentais para o desenvolvimento, como leitura, brincadeiras, esportes, convivência familiar, momentos de descanso e estudo.
“Quando existe uma rotina equilibrada, sobra naturalmente menos tempo para o uso excessivo das telas”, afirma.
A especialista também reforça que infância e adolescência são etapas essenciais para o desenvolvimento da autonomia, da responsabilidade e das habilidades sociais.
Escola tem papel fundamental
Além da família, a escola exerce papel decisivo na construção de hábitos saudáveis de uso da tecnologia.
Segundo Juliana, o desafio não está em proibir completamente os dispositivos digitais, mas em ensinar crianças e adolescentes a utilizá-los de forma consciente, crítica e produtiva.
“O ponto decisivo não é discutir se as telas são boas ou ruins, mas como, quando e para que elas são utilizadas dentro da escola e na rotina dos estudantes”, conclui.










