Alienação parental vai além da Justiça e preocupa especialistas em saúde

Afastar uma criança de um dos pais por meio de acusações constantes, desqualificações ou estímulo à rejeição pode gerar consequências que ultrapassam disputas familiares e chegam à saúde mental. Conhecida como alienação parental, a prática é reconhecida pela Lei nº 12.318/2010 como uma interferência na formação psicológica de crianças e adolescentes e pode resultar em medidas judiciais que vão de advertência à alteração da guarda.

Embora prevista na legislação brasileira há mais de uma década, a identificação da alienação parental continua sendo um desafio. Isso porque cada caso exige uma análise cuidadosa das relações familiares e, muitas vezes, acompanhamento especializado para diferenciar situações de manipulação emocional de conflitos decorrentes de outros fatores, como negligência ou violência.

Para a psicóloga Mariana Ramos, professora da Afya Centro Universitário Itaperuna, o fenômeno deve ser compreendido de forma ampla, considerando aspectos emocionais, jurídicos e sociais.

“Estamos lidando com um fenômeno que envolve dimensões emocionais, cognitivas, jurídicas e relacionais. Por isso, a atuação multiprofissional é fundamental”, afirma.

Segundo a especialista, crianças tendem a absorver discursos e comportamentos dos adultos responsáveis, o que pode impactar diretamente a construção da própria identidade.

“Difamar a imagem de um dos responsáveis não impacta apenas essa pessoa, mas também a construção do autoconceito da criança, o que pode acarretar danos significativos”, explica.

Nesse contexto, a atuação conjunta de psicólogos, assistentes sociais, profissionais do Direito e educadores é considerada essencial para garantir uma avaliação mais precisa e centrada no bem-estar da criança.

 

Impactos podem persistir até a vida adulta

Os efeitos da alienação parental podem se manifestar de diferentes formas, desde alterações comportamentais até transtornos psicológicos mais complexos.

De acordo com o psiquiatra Rodrigo Eustáquio, professor da pós-graduação em Psiquiatria da Afya Vitória, crianças submetidas à ruptura forçada de vínculos familiares apresentam maior risco de desenvolver ansiedade, especialmente ansiedade de separação, sintomas depressivos e dificuldades na construção de relações afetivas saudáveis.

“Você tem um prejuízo no desenvolvimento da confiança interpessoal da criança, com colegas, professores e até no contexto familiar”, destaca.

Segundo o especialista, os impactos podem acompanhar o indivíduo por muitos anos, influenciando a autoestima, a formação da identidade e a maneira como estabelece relações na vida adulta.

Apesar disso, ele ressalta que nem toda rejeição a um dos pais deve ser interpretada automaticamente como alienação parental.

“A gente tem que ter prudência no diagnóstico e enxergar as conclusões de forma responsável, com avaliação multidisciplinar e escuta qualificada”, afirma.

 

Terapia pode ajudar na reconstrução dos vínculos

O acompanhamento psicológico é uma das principais ferramentas para minimizar os danos emocionais causados pela alienação parental.

Segundo Mariana Ramos, a terapia oferece um ambiente seguro para que crianças e adolescentes possam compreender e expressar sentimentos muitas vezes reprimidos ou influenciados pelo conflito familiar.

“O terapeuta não atua como julgador, mas como mediador da compreensão emocional. Entre os objetivos estão fortalecer a autonomia emocional, trabalhar a regulação de sentimentos como culpa e ansiedade e, quando possível, auxiliar na reconstrução de vínculos familiares”, explica.

Para os especialistas, independentemente da disputa entre os adultos, a prioridade deve ser sempre a proteção da criança, garantindo relações saudáveis e intervenções baseadas em evidências técnicas.

 

Sinais que podem indicar alienação parental

Especialistas apontam alguns comportamentos que podem servir de alerta:

  • Rejeição intensa e sem justificativa clara em relação a um dos responsáveis;
  • Repetição de falas negativas ou acusações com linguagem típica de adultos;
  • Visão extremada, com um responsável visto como totalmente bom e o outro totalmente ruim;
  • Medo, culpa ou ansiedade ao demonstrar afeto por um dos responsáveis;
  • Rompimento repentino de um vínculo que antes era saudável;
  • Dificuldade para expressar sentimentos próprios sobre o conflito familiar;
  • Irritabilidade ou mudanças de comportamento;
  • Alterações no sono;
  • Queda no rendimento escolar.

A presença desses sinais não confirma, por si só, a existência de alienação parental, mas indica a necessidade de avaliação especializada para compreender o contexto e garantir o suporte adequado à criança ou adolescente.

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