Os casos de demência no Brasil podem triplicar até 2050. No Espírito Santo, embora a doença de Alzheimer não seja de notificação compulsória e não existam dados específicos sobre novos diagnósticos que representem com fidelidade a realidade estadual, informações sobre internações e acesso a medicamentos ajudam a dimensionar a importância da assistência pública à doença.
Nos dois primeiros meses de 2026, o Estado registrou cinco internações por doença de Alzheimer ou por complicações associadas, segundo dados da Secretaria de Estado da Saúde (Sesa). Em 2025, houve o registro de 20 internações. Em relação ao acesso a medicamentos, de janeiro a março de 2026, 3.922 pacientes realizaram a retirada de fármacos para o tratamento da doença nas Farmácias Cidadãs Estaduais. Ao longo de 2025, de janeiro a dezembro, esse número foi de 4.711 pacientes.
No cenário nacional, dados do Ministério da Saúde indicam que, em 2025, o SUS (Sistema Único de Saúde) registrou 56,2 milhões de atendimentos ambulatoriais relacionados ao Alzheimer no Brasil. Os números correspondem a registros de atendimentos e internações, e não ao total de pessoas atendidas, já que um mesmo paciente pode utilizar o serviço mais de uma vez. Informações preliminares também apontam cerca de 30,4 mil óbitos associados à doença no país.
Com o envelhecimento acelerado da população, especialistas destacam a importância do planejamento antecipado de cuidados para preservar a autonomia de pessoas com Alzheimer e outras demências.
“O avanço das demências, especialmente da doença de Alzheimer, tornou-se um dos principais desafios de saúde pública no Brasil e no mundo. Em um país onde o número de pessoas idosas cresce em razão do aumento da expectativa de vida e da redução das taxas de natalidade, intensifica também a preocupação com a capacidade dos sistemas de saúde e das próprias famílias de responder às complexas demandas de cuidado impostas por essas doenças”, comenta a doutoranda em Bioética e Direitos Humanos pela Universidade de Brasília, Nelma Melgaço.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 3 bilhões de pessoas convivem com algum tipo de condição neurológica no mundo — o equivalente a mais de uma em cada três pessoas no planeta.
Apesar da dimensão do problema, menos de um terço dos países possui políticas nacionais estruturadas para enfrentar as doenças neurológicas. Estima-se que mais de 11 milhões de mortes registradas anualmente estejam relacionadas a essas condições. Atualmente, a demência é considerada a sétima principal causa de morte no mundo.
Assistência
A Sesa destaca que as pessoas com Alzheimer são atendidas, prioritariamente, na Atenção Primária à Saúde, diretamente nas Unidades Básicas de Saúde. Quando necessário, os pacientes são encaminhados a especialistas por meio da Central de Regulação Estadual.
A documentação necessária para a abertura de processos de solicitação de medicamentos do Componente Especializado, destinados ao tratamento da doença de Alzheimer, pode ser consultada no link da Farmácia Cidadã.
O SUS oferece assistência gratuita e integral às pessoas com Alzheimer, com foco na estabilização do declínio cognitivo, na melhora da qualidade de vida e no acompanhamento contínuo de pacientes e cuidadores. O tratamento inclui medicamentos, além de terapias complementares, como estimulação cognitiva, fisioterapia, terapia ocupacional, fonoaudiologia e suporte psicossocial.
Envelhecimento acelera crescimento dos casos
O crescimento das demências está diretamente relacionado à transição demográfica. No mundo, o número de pessoas com 65 anos ou mais deve mais que dobrar, passando de 761 milhões em 2021 para cerca de 1,6 bilhão em 2050.
No Brasil, estimativas do Ministério da Saúde indicam que cerca de 8,5% da população com 60 anos ou mais convivem com demência, o que representa aproximadamente 1,8 milhão de pessoas. As projeções indicam que esse número poderá chegar a 5,7 milhões de casos até 2050, impulsionado principalmente pelo envelhecimento populacional. Atualmente, estima-se que existam mais de 1,2 milhão de pessoas com demência no país, com prevalência aproximada de 12% nessa faixa etária, variando conforme a região.
Além dos impactos clínicos, a demência traz desafios importantes relacionados à autonomia e à tomada de decisões nos cuidados em saúde. Por se tratar de uma doença neurodegenerativa progressiva, afeta diversas funções do cérebro, incluindo comportamento, linguagem e habilidades motoras.
Nos estágios iniciais da doença, muitas pessoas ainda conseguem participar ativamente das escolhas relacionadas ao próprio tratamento e à organização da vida cotidiana. Com o avanço do quadro, no entanto, essas decisões passam a depender cada vez mais do apoio de familiares e cuidadores.
“Por este motivo, é importante discutirmos sobre cuidados e as preferências pessoais o mais cedo possível, enquanto o paciente ainda possui capacidade de expressar seus valores e desejos”, alerta a especialista.
Uma das estratégias recomendadas é a elaboração do chamado “Plano Avançado de Cuidado” (PAC), no qual o paciente tem a oportunidade de registrar previamente suas preferências sobre tratamento e cuidados futuros.
“A proposta é garantir que, mesmo quando a doença comprometer a capacidade de decisão, as escolhas e os valores do paciente continuem sendo respeitados”, pontua a profissional.
Segundo a especialista, também existe preocupação em relação ao envolvimento da família na tomada de decisões médicas, já que familiares podem ter valores e prioridades divergentes dos pacientes.
“Quando o paciente perde totalmente a capacidade de decidir, outra pessoa passa a assumir esse papel. Isso pode ser extremamente problemático em casos de sintomas cognitivos flutuantes, em que a pessoa pode ser considerada autônoma para algumas decisões, mas não para outras”, explica.









