Motoristas encontram propósito e apoio em cooperativas de transporte. No Espírito Santo, profissionais que percorrem as estradas diariamente enxergam no cooperativismo uma forma mais justa e vantajosa de trabalhar e impactar vidas.
Ser motorista profissional é mais do que conduzir um veículo — é conectar pessoas e lugares, carregando nos ombros a responsabilidade de garantir uma viagem segura. Esse é o propósito de mais de 8 mil motoristas que atuam em 26 cooperativas de transporte no Espírito Santo, de acordo com dados do Anuário do Cooperativismo Capixaba 2024.
Foi no cooperativismo que eles encontraram uma nova forma de oferecer os seus serviços, já que o modelo de negócio proporciona uma remuneração justa e oferece suporte para os cooperados, como são chamados os membros associados.
Uma cooperativa é criada quando pessoas com um mesmo objetivo se unem para trabalhar e evoluir juntas. Quando motoristas de uma região decidem se juntar e atuar em colaboração em vez de competirem e disputarem o mercado entre si, os benefícios se multiplicam.
Esse é o caso da Cooperativa de Transporte da Região Sudoeste Serrana (Cooptac), fundada em 2003, no município de Afonso Cláudio. Hoje ela reúne 200 cooperados ativos e atende 40 escolas, transportando cerca de 3 mil alunos por dia. A coop ainda oferece serviços de turismo e fretamento.
Valnice Ferreira, de 43 anos, é uma das motoristas cooperadas da Cooptac. Ela entrou na cooperativa em 2013, como monitora, ou seja, a pessoa responsável por cuidar da segurança e bem-estar dos alunos durante as viagens. Mais tarde, ela decidiu ser motorista, pois se identificava com a profissão e viu que era algo que se ajustava à sua rotina.

“Sempre gostei de dirigir e, como mãe, percebi que poderia unir isso ao cuidado com as crianças, trabalhando com o transporte escolar. Eu queria um trabalho mais flexível e que me permitisse estar perto da minha família. Por esse motivo, optei por ser motorista” explica.
Valnice acorda cedo, por volta das 5h30, para se preparar para o trabalho. Ela percorre duas rotas: uma pela manhã e outra à tarde. Entre os turnos, aproveita para organizar o carro, cuidar da casa ou até mesmo descansar. No fim do dia, leva as crianças para casa, garantindo que cada uma chegue ao seu destino com segurança.
“É uma rotina puxada, mas muito gratificante”, reconhece. Ela diz que se sente acolhida e segura, pois a cooperativa oferece suporte, orientações, treinamentos e representa os motoristas diante das famílias e das escolas. “Não me sinto sozinha jamais. Além disso, temos acesso a descontos, combustíveis e há uma rede de apoio entre os motoristas, o que faz muita diferença, principalmente para nós, mulheres”, completa.
Se optasse por fazer o transporte escolar de forma autônoma, Valnice teria uma sobrecarga de preocupações, como burocracias e imprevistos, e ainda precisaria conquistar a confiança das famílias sozinha. “Trabalhar de forma independente é bem mais difícil. Na cooperativa temos respaldo, organização e mais visibilidade. Isso transmite confiança e profissionalismo. Nos dá mais tranquilidade para trabalhar”, garante.
O agricultor Marcos Antonio Breda também é motorista cooperado da Cooptac. Ele atua na coop desde 2019, na localidade em que mora, transportando crianças para a escola de manhã, ao meio-dia e à tarde. Nos horários em que não dirige, trabalha na roça.
“Cuido da terra, planto, colho e faço tudo o que precisa ser feito dependendo da época do ano. A rotina é puxada, mas gosto do que faço e fico feliz em ajudar tanto na educação das crianças quanto na produção de alimentos”, afirma.
Foi justamente essa flexibilidade que atraiu Marcos para o cooperativismo. Ter liberdade para organizar seus horários de trabalho, ser dono do próprio negócio e não precisar se preocupar com a parte burocrática são vantagens destacadas por ele.
“Me tornei cooperado porque vi no serviço uma forma de ter mais liberdade no meu trabalho, fazer meus horários e ganhar meu dinheiro de forma honesta, além de ser dono do meu próprio negócio como motorista e agricultor. Assim, consigo conciliar as duas atividades”, enfatiza.
Trabalho que transforma realidades
Com sede em Cachoeiro de Itapemirim, a Cooperativa de Transporte Sul Serrana Capixaba (Serranacoop) é um mais um exemplo de sucesso. Sua história começou em 2002, no segmento do transporte escolar. Hoje, seu portfólio também contempla o transporte de cargas e serviços de infraestrutura, como escavações e terraplanagem de terrenos.
A cooperativa reúne mais de 680 cooperados ativos e mantém contratos de transporte escolar com nove municípios da região. Isso garante que mais de 16 mil alunos distribuídos em 103 escolas tenham acesso diário à educação.
Embora a Serranacoop tenha crescido e diversificado suas atividades, a história dela ainda está profundamente conectada ao transporte escolar. Deive Manço é um dos cooperados que contribui para a continuidade desse serviço.
Seu trabalho na área começou em 2015, à época trabalhando para um outro cooperado, dono da linha – trajeto pelo qual cada motorista é responsável – e da kombi que Deive utilizada. Em 2018, o proprietário decidiu vender o veículo, que Deive comprou, pois deter a posse ou propriedade do veículo utilizado é um dos requisitos para se tornar cooperado.
Além de participar de capacitações anualmente, o motorista enxerga um propósito nobre em seu trabalho, pois facilita o acesso de crianças do interior do estado à educação. “A minha maior felicidade e motivação é ver o desenvolvimento dos alunos que transporto. Geralmente eles começam a vir comigo com sete anos e permanecem até o ensino médio. Isso é gratificante”, ressalta.
Com humildade e empatia, Deive entende a importância do seu trabalho para as pessoas ao seu redor. “Tem muitas famílias que são carentes, que não tem um carro ou uma moto para levar e buscar seus filhos na escola. Eu fico bem satisfeito e alegre por poder disponibilizar o meu trabalho, que faço com carinho e amor há bastante tempo. Fico feliz em ajudar essas famílias”, expressa.
Esses e outros relatos foram compilados na websérie SomosCoop na Estrada, protagonizada pela jornalista Glenda Kozlowski. Ela conheceu de perto a atuação da Serranacoop e conversou com diversas pessoas impactadas pela atuação da cooperativa. Assista a seguir:








