As principais candidaturas ao governo do Estado, representadas pelo polo do governador Ricardo Ferraço (MDB) e pelo ex-prefeito de Vitória Lorenzo Pazolini (Republicanos), vêm travando uma ferrenha batalha em torno do protagonismo na segurança pública do Espírito Santo.
Como bem observou o colega Vitor Vogas, de A Gazeta, nessa quinta-feira (17), números e estatísticas podem alimentar as narrativas de cada um dos lados. E é justamente essa disputa pela paternidade dos resultados que vem provocando incômodo, como demonstrou o ex-governador Renato Casagrande (PSB).
De forma sucinta e com endereço político evidente, avisou: “Tem gente apresentando resultado coletivo como conquista própria”.
Foi além e classificou a postura como “desonestidade”. Depois, sustentou seu argumento: “Tem fatos que precisam ser esclarecidos. A queda dos homicídios no Espírito Santo é fruto de mais de 10 anos de trabalho, com policiais militares, civis, bombeiros, guardas municipais, todos os dias, em todas as cidades. É um trabalho de Estado, não de prefeitura. Respeite quem trabalhou por esse resultado. E respeite a inteligência de quem o acompanha”.
A leitura da segurança pública, especialmente quando feita a partir de números, permite diferentes recortes. Quando Pazolini aponta um déficit de servidores na Polícia Civil, instituição da qual é oriundo, deixa de mencionar que há concurso público em andamento justamente com o objetivo de reforçar os quadros da segurança pública.
Por outro lado, quando Ricardo e Casagrande destacam a evolução do Espírito Santo na área, principalmente a partir da redução dos homicídios, também precisam considerar que determinadas regiões ainda convivem com problemas graves de criminalidade. Há municípios, sobretudo no Norte e Noroeste, nos quais a violência associada ao tráfico e à atuação de grupos criminosos continua sendo um desafio.
A recente condenação de integrantes da Tropa do Urso, em Colatina, é um retrato dessa realidade. O episódio mostra que os problemas não estão restritos à Região Metropolitana e que o interior também enfrenta estruturas criminosas organizadas, evidentemente respeitadas as diferenças de escala e de contexto.
O ponto que eleitor e políticos precisam ter em mente é que segurança pública não tem receita mágica. É necessária a integração não apenas das forças policiais, mas também de áreas que atuem de forma transversal, capazes de criar alternativas para impedir que pessoas, especialmente adolescentes e jovens, sejam atraídas para atividades criminosas.
Mais do que apresentar números, as gestões também precisam transmitir sensação de segurança à população. O caso emblemático do sequestro em Jardim da Penha expõe justamente os dois polos que disputam essa narrativa no Espírito Santo.
Se uma pessoa é sequestrada em Vitória, surgem questionamentos sobre a capacidade do município de contribuir para a proteção de seus cidadãos. Ao mesmo tempo, o episódio também alcança a atuação estadual, já que a presença e o policiamento ostensivo são atribuições da Polícia Militar. Um crime dessa natureza mostra, portanto, como é difícil estabelecer fronteiras políticas quando o assunto é segurança pública.
Como os diferentes lados possuem relação direta com o tema, todos buscarão associar seus nomes às notícias positivas e afastá-los das negativas. É da política.
Mas talvez uma lição do ex-secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro José Mariano Beltrame ajude a colocar essa disputa em perspectiva: “Todo dia é segunda-feira”.
Na segurança pública, afinal, resultado de ontem não garante tranquilidade amanhã. O cidadão precisa menos de uma disputa para saber quem resolveu isso ou aquilo e mais de gestores que entendam que o trabalho recomeça todos os dias.










