O cenário político capixaba ganhou contornos altamente simbólicos nesta quarta-feira (15). O governador Ricardo Ferraço (MDB) realizou uma visita técnica às obras da nova megaloja da Havan em Vila Velha, orçada em R$ 120 milhões, ao lado do empresário (e bolsonarista) Luciano Hang.
O movimento, que à primeira vista parece uma agenda padrão de desenvolvimento econômico e atração de investimentos, carrega uma densa camada de estratégia política. Ele ocorre logo após o governador marcar presença no “Café com Pólvora” — tradicional ponto de encontro de agentes de segurança pública e entusiastas do tiro esportivo em Vila Velha.
O Fato: a nova Havan de Vila Velha
A vistoria conjunta consolidou os detalhes do segundo empreendimento da rede catarinense no Espírito Santo (o primeiro fica em Linhares).
Investimento: R$ 120 milhões.
Geração de empregos: Cerca de 200 postos de trabalho diretos na operação.
Estrutura: 20 mil metros quadrados de área construída em um terreno de 28 mil m² na Avenida Carlos Lindenberg (Nossa Senhora da Penha), ao lado do Assaí Atacadista e próximo à Rodovia Darly Santos.
Inauguração: Prevista para outubro de 2026.
“O Espírito Santo tem uma grande capacidade de investimento… Conheço o Ricardo há 12 anos e já avaliamos outras cidades capixabas para novos investimentos.” — Luciano Hang, proprietário da Havan.
O pragmatismo de Centro contra a “Direita Puro-Sangue”
A foto de Ricardo Ferraço ao lado de Luciano Hang e sua recente circulação em ambientes armamentistas não são meras coincidências de agenda. Trata-se de uma vacina geopolítica.
Para viabilizar seu projeto de reeleição, Ferraço lidera uma frente ampla que caminha da centro-esquerda ao centro-direita (contando com PSB, PDT, Podemos, União Brasil e Progressistas). No entanto, o calcanhar de Aquiles dessa coalizão é a vulnerabilidade ao discurso da “direita ideológica”, que tenta rotular qualquer aliança com partidos de esquerda como um “projeto esquerdista”.
O principal polo de concorrência a esse projeto é o ex-prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini (Republicanos), que costura uma aliança robusta com o PL (partido de Jair Bolsonaro) – e, por conseguinte, Novo. Ao ocupar fisicamente e discursivamente esses espaços, Ferraço adota uma tática clássica de neutralização:
1. A neutralização da pauta de costumes e segurança
Ao frequentar o “Café com Pólvora”, o governador faz um aceno direto e simpático às forças de segurança pública e aos CACs (Colecionadores, Atiradores e Caçadores) — bases historicamente alinhadas ao bolsonarismo. Ele sinaliza que seu governo dialoga e respeita esse segmento, esvaziando o discurso de que a segurança pública sob sua gestão estaria submetida a cartilhas progressistas.
2. O aval do empresariado bolsonarista
A Havan é um símbolo visual e comercial da direita empresarial brasileira. Caminhar de colete de obras ao lado de Luciano Hang e arrancar elogios públicos do empresário (“conheço o Ricardo há 12 anos”) confere a Ferraço um selo de “gestor business-friendly” que a oposição direitista terá extrema dificuldade de desconstruir. Hang endossa a segurança jurídica e a desburocratização do governo atual.
3. O isolamento do discurso extremista
Ao consolidar o apoio de partidos de centro-direita (como PP e União Brasil) e, simultaneamente, fazer gestos públicos à direita ideológica, Ferraço empurra a candidatura de Pazolini e do PL para uma posição de nicho. O recado é claro: é possível ser de direita, apoiar o livre mercado, defender a segurança pública e, ainda assim, governar em uma frente ampla pragmática e sem radicalismos.
Essa estratégia de “roubo de pautas” deve se intensificar à medida que as costuras para as próximas eleições se afunilam. A grande questão é se o eleitorado mais conservador do Espírito Santo comprará esses acenos pragmáticos de Ricardo Ferraço ou se manterá a fidelidade ideológica ao bloco PP/PL/Novo liderado por Pazolini. Por ora, o governador mostra que não pretende entregar nenhuma bandeira de mão beijada para a oposição.










