O deputado estadual João Coser (PT), candidato à presidência do diretório estadual do Partido dos Trabalhadores no Espírito Santo se lança com uma proposta de gestão compartilhada com a também deputada estadual Iriny Lopes. O modelo, segundo ele, já foi pactuado: dois anos para cada um à frente da direção do partido. Coser, que é pré-candidato à Câmara dos Deputados em 2026, garante que, caso eleito renunciará a presidência do PT-ES assim que assumir mandato em Brasília.
“Não quero repetir os mesmos erros da atual gestão. Não tem como ser deputado federal e presidir o partido ao mesmo tempo. Brasília exige demais. A atual presidente (Jack Rocha) tentou fazer isso e o resultado é que o partido está paralisado, sem vida, sem diálogo”, afirmou Coser, em crítica direta à deputada federal Jack Rocha, que busca a reeleição no diretório estadual.
A eleição interna do PT – PED (Processo de Eleições Diretas) – está marcada para 6 de julho. Os filiados votarão diretamente nas chapas para os diretórios municipais, estaduais e também para o comando nacional da legenda. No Espírito Santo, o partido conta hoje com 32.628 filiados, segundo dados atualizados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), sendo a segunda legenda com mais membros no estado, atrás apenas do MDB, com 36.112 filiados.
“O PT está sem brilho. Vamos recuperar isso”
Para Coser, a atual direção do PT estadual falhou em não manter a base mobilizada e perdeu a capacidade de articulação política. “Nós elegemos apenas 13 vereadores. É um número muito baixo para um partido com a tradição e a capilaridade do PT. O partido está sem brilho e nós queremos fazer diferente. Resgatar essa força que o PT sempre teve. Fazer um partido com vida, com reuniões, com debate, com formação, com militância de volta às ruas e às bases”, criticou.
O deputado estadual acredita que a atual presidência, concentrada na figura de Jack Rocha, não conversa com o partido, não articula com os diretórios municipais, não motiva as lideranças nem fomenta a formação política. Ele alega que o modelo atual enfraqueceu a legenda e gerou um efeito dominó de desmobilização. “A gestão da presidente é muito voltada nela mesma. O partido se tornou um apêndice do seu mandato em Brasília. E isso não pode acontecer”.
Reestruturação, diálogo e juventude
A proposta de Coser inclui também um plano amplo de reorganização da sigla no estado. Entre as principais metas está a reestruturação dos diretórios municipais, a formação de jovens quadros políticos e a retomada da democracia interna. “Vamos reconquistar o protagonismo político do PT na sociedade. Vamos formar jovens na nossa linha ideológica, preparar novos líderes, abrir o partido para o diálogo com os movimentos sociais, com o setor produtivo, com o setor médio da sociedade”.
Ele afirma que a “abertura total” do partido será a marca de sua gestão, caso eleito. “Não vamos repetir uma condução verticalizada. O dirigente tem que dar exemplo, tem que ouvir. A coordenação de campanha, por exemplo, tem que ser feita pelo diretório estadual, e hoje não é. Hoje não tem reunião, não tem vida política. Isso será diferente”.
PT e a disputa pelo futuro

Segundo o deputado, um dos grandes desafios é preparar o partido para 2026 e 2028, mirando na reeleição do presidente Lula, na continuidade do senador Fabiano Contarato e no fortalecimento da legenda nas próximas eleições municipais. “Nossa prioridade é clara: reeleger Lula, manter Contarato no Senado e depois pensar no cenário estadual. Mas isso só será possível com um PT forte, com musculatura e articulação nos municípios”, afirma.
Coser rejeita a ideia de que o Espírito Santo seja um terreno hostil ao petismo. “Essa tese de que o Espírito Santo é antipetista não se sustenta. Elegemos a prefeitura de Vitória três vezes, já tivemos sete prefeituras no estado quando fui presidente do partido. Tivemos uma onda bolsonarista, sim, mas elegemos vereadores, prefeitos, deputados. O partido não é fraco como querem fazer parecer. O problema é que falta liderança, falta direção”.
Ele reforça que o novo diretório terá compromisso com a unidade interna e com o fortalecimento da federação partidária. “Vamos fortalecer a federação e pensar coletivamente. A atual gestão se isolou, não construiu alianças. É por isso que estamos propondo algo novo, com outra lógica”.
“O partido ficou sem chão”
Em um dos trechos mais contundentes da entrevista ao ES HOJE, Coser narra como a ausência de uma coordenação real da direção estadual afetou as ações no interior. “A presidente não esteve presente. Não houve apoio aos diretórios municipais. Os presidentes locais, mesmo os ligados à atual direção, passaram a agir por conta própria. O partido ficou sem chão, sem representatividade”.
Ele também lamenta o desperdício de oportunidades geradas pelas ondas de filiações durante a prisão do presidente Lula e após sua eleição. “Tivemos um número expressivo de novas filiações, mas não houve diálogo com essas pessoas. Não houve formação, integração, nada. Foi uma chance desperdiçada de fortalecer o partido com novas energias”.
Rumo ao Palácio Anchieta?
Ao ser questionado sobre possíveis alianças para o governo do estado em 2026, Coser adota tom cauteloso. “Não posso falar sobre isso agora. Primeiro preciso ouvir o partido. Vamos fazer uma grande reunião, ouvir os diretórios, fazer uma análise de conjuntura e só então começar a projetar os próximos passos. Se houver consenso, nomes como Hélder Salomão, por exemplo, têm força para disputar o governo do estado. Mas tudo no seu tempo”.
A posição do PT na base do governador Renato Casagrande (PSB) também será discutida. Para Coser, o foco agora é reorganizar a casa e recolocar o partido no centro do debate estadual. “O PT precisa voltar a ser protagonista. Isso não se faz com uma gestão isolada em Brasília. Se faz com militância, com base, com escuta. Essa será a nossa proposta”.
O peso do PED 2024
A eleição do diretório estadual em 6 de julho não será apenas uma disputa interna. O pleito definirá o rumo do PT capixaba para os próximos quatro anos, um ciclo que incluirá a eleição municipal de 2024, a federal de 2026 e a construção de um novo projeto político no estado. Quem vencer, como lembra Coser, “vai comandar o partido no momento mais estratégico da política nacional”.
Com uma base expressiva de filiados, mais de 32 mil no Espírito Santo, segundo o TSE, o partido continua sendo uma das forças organizadas com maior presença no estado. Mas, para Coser, falta vontade política de transformar esse ativo em resultado: “Filiado não pode ser apenas um número no papel. Filiado tem que ser ouvido, envolvido, respeitado. Isso o atual diretório não fez. E por isso vamos mudar”, conclui.









