Apontado como um dos criminosos mais procurados do Espírito Santo, Gilbert Wagner Antunes Lopes, conhecido como “Waguinho Batman”, foi preso pela Polícia Civil nesta terça-feira (14), em Itaguaí, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Acusado de ser o mandante do assassinato do ex-vereador de Presidente Kennedy, Marcos Augusto Costalonga, o Marquinhos da Cooperativa, em 2020, o suspeito vinha conseguindo escapar de sucessivas operações policiais. A prisão trouxe alívio, mas também um estado de alerta para autoridades do Sul do Estado, especialmente em Itapemirim e Marataízes, áreas onde o acusado mantinha forte influência.
O procurador-geral de Itapemirim, Rodrigo Lisboa — que vinha sofrendo ameaças de morte por parte do acusado mesmo durante o período em que este esteve foragido —, declarou receber a notícia com preocupação quanto ao local onde o réu permanecerá custodiado.
“Sinto um alívio, mas, ao mesmo tempo, apreensão também. Sinto que é um momento que corro risco ainda, principalmente se ele ficar preso no Rio. A gente sabe que os criminosos do Rio têm muito acesso a aparelhos eletrônicos e ele pode continuar me ameaçando ou tendo contato com quem possa agir contra mim. Minha torcida é que ele seja transferido para uma cadeia no Espírito Santo”, afirmou o procurador Rodrigo Lisboa.
Em agosto do ano passado o fugitivo teria sido visto circulando entre o Rio de Janeiro, Vitória e Marataízes. A Polícia Federal, que entrou na caça ao miliciano – identificou em um carro modelo Hillux SW4, placas SRS 4I47.
Suspeito estava “sempre um passo à frente” e usava disfarces para despistar a polícia
De acordo com o delegado-geral adjunto da Polícia Civil do Espírito Santo (PCES), Fabrício Dutra, a captura de Gilbert Wagner foi complexa devido à capacidade de mobilidade e adaptação do foragido. Na última sexta-feira (10), ele quase foi detido em Mangaratiba (RJ), mas conseguiu escapar ao se misturar em meio a um evento público.
Para transitar entre o Rio de Janeiro e o Espírito Santo sem ser detectado, o acusado alterou drasticamente sua aparência física:
Cabelo: Deixou crescer significativamente, de forma diferente das fotos de divulgação oficial.
Barba: Adotou uma barba muito mais longa e volumosa do que nos últimos registros policiais — na lista de procurados da Secretaria de Segurança Pública (Sesp), ele aparecia completamente barbeado.
Físico: Apresentava-se visivelmente mais forte.
“Já tínhamos tentado localizá-lo diversas vezes, mas ele conseguia escapar dos caminhos que buscávamos. Sempre estava um passo à frente”, explicou o delegado Fabrício Dutra.
No momento da abordagem em Itaguaí, que ocorreu sem resistência, o comportamento do acusado surpreendeu os agentes. De acordo com os policiais, ele manteve uma postura extremamente calma, de fala mansa e tranquila, chegando a aparentar uma personalidade dócil para evitar suspeitas imediatas sobre seu histórico de extrema periculosidade.
O acusado de fato desafiou as autoridades de forma ostensiva:
Fuga ativa, mas sem se esconder: Ele não estava apenas enterrado em um esconderijo isolado. Ele continuou circulando, mudando de cidades, usando identidades falsas e buscando abrigo de forma estratégica com milícias no Rio de Janeiro (como em Chaperó).
Desafio ao Judiciário e uso da tecnologia: Mesmo foragido, ele chegou a participar de audiência de seu processo por videoconferência em fevereiro de 2025. Ele não estava presencialmente para ser preso, mas utilizou o próprio sistema para marcar presença ativa no processo.
Ameaças contínuas e sensação de impunidade: O fato de Waguinho Batman enviar áudios ameaçadores diretamente ao procurador de Itapemirim, Rodrigo Lisboa, com tom de intimidação (“eu sei por onde você andou falando meu nome… eu sei resolver da maneira que eu sei”) demonstrava que, para ele, o fato de estar foragido não o impedia de monitorar e coagir autoridades no Espírito Santo.
Trânsito livre: Ele entrava e saía do território capixaba com facilidade e, na única vez em que a polícia esteve prestes a capturá-lo antes (em Mangaratiba), ele simplesmente caminhou para o meio de uma multidão em um evento e sumiu.
Reconhecimento facial com alta precisão confirmou identidade de foragido
Diante das mudanças de fisionomia e do uso de documentos falsos por parte do acusado, a tecnologia de biometria foi indispensável para o sucesso da operação policial. Segundo o delegado-geral da PCES, Jordano Bruno, a troca rápida de informações entre os setores de inteligência capixaba e fluminense viabilizou a checagem eletrônica.
O sistema de reconhecimento facial apontou mais de 96% de probabilidade de compatibilidade técnica com o cadastro original de Gilbert Wagner, fornecendo o lastro de segurança jurídica necessário para que a Polícia Civil do Rio de Janeiro efetuasse o cumprimento do mandado de prisão preventiva.
Durante o tempo em que esteve foragido, a defesa de Wagner tentou mais de uma vez o benefício do Habeas Corpus. Todos negados pela Justiça do Espírito Santo.
Dívida motivou assassinato de vereador em Presidente Kennedy

As investigações conduzidas pela Delegacia de Polícia de Presidente Kennedy e pelo Centro de Inteligência e Análise Telemática (Ciat) Sul detalham que o homicídio de Marquinhos da Cooperativa, em 2020, foi motivado por vingança decorrente de desacordo comercial.
Gilbert Wagner, que possuía contratos de prestação de serviços com prefeituras do Sul do estado, comprou mourões de cerca com o então vereador para a realização de uma obra particular, mas não realizou o pagamento. Diante das cobranças recorrentes da vítima, que ameaçou formalizar um pedido de bloqueio de créditos judiciais junto à administração municipal contra as empresas do acusado, Wagner ordenou a execução do parlamentar.
Durante as investigações do assassinato, o delegado responsável pelo caso guardou a placa do carro que identificou o criminoso.
Atuação miliciana e falsificação de documentos na Força Aérea Brasileira
O histórico de Gilbert Wagner na região Sul do Espírito Santo remonta aos anos 2010. Conforme os registros da PCES, o acusado começou a estruturar ações delituosas com características de milícia privada nos municípios de Itapemirim e Marataízes, envolvendo crimes de extorsão, homicídios consumados e tentativas de assassinato com elevado nível de violência.
Após cumprir período de reclusão anterior, o réu utilizou certidões e comprovantes profissionais falsificados para ingressar como terceiro-sargento temporário na Força Aérea Brasileira (FAB). A fraude foi descoberta pela própria instituição militar ao constatar que o tempo de experiência profissional apresentado por ele coincidia exatamente com o período em que ele esteve atrás das grades em solo capixaba, resultando em sua exclusão imediata das Forças Armadas.










