A morte de um homem em situação de rua acendeu o alerta para o debate sobre o que leva pessoas a fazerem “justiça pelas próprias mãos”. Marcos Vinícius Lopes Rodrigues, de 35 anos, foi sequestrado na Praia do Suá, em Vitória, e levado para a Serra. O crime aconteceu na madrugada de 17 de março deste ano e foi cometido por um grupo de oito seguranças de uma empresa privada.
Na ocasião, o delegado responsável pelo caso, titular da Delegacia Especializada de Pessoas Desaparecidas (DEPD), Tarcísio Otoni, afirmou que o crime se trata de uma “limpeza social”.
Pessoas em situação de rua muitas vezes passam despercebidas, são ignoradas ou até mesmo responsabilizadas por delitos — tenham ou não envolvimento. Marcos Vinícius era uma dessas pessoas. A diferença, neste caso, é que alguém sentiu sua falta.
Com passagem pela polícia por crimes de furto, Marcos havia sido agredido uma semana antes do crime. De acordo com o delegado, os suspeitos chegaram a tentar arrancar um dente da vítima com um alicate, mas ele conseguiu escapar. Dias depois, porém, foi cercado, sem chance de fuga. Torturado, Marcos foi morto e enterrado em uma área de mangue, na Serra.
Análise psicológica do comportamento “justiceiro”
Para aprofundar o debate, a equipe do ES HOJE ouviu o psicólogo e assistente social Roberto Oliveira, que atua há cerca de cinco anos na política de assistência social com a população em situação de rua. Ele falou de forma geral, sem analisar casos específicos, explicando os fatores que podem levar indivíduos a agir como “justiceiros”.
Uma das principais questões levantadas é: o que pode levar pessoas comuns, como seguranças privados, a cometer atos extremos como tortura e homicídio?
Segundo o especialista, esse tipo de comportamento não surge de um único fator individual. Ele pode resultar da combinação entre percepção de ameaça, sensação de impunidade, preconceito, desumanização da vítima e até mesmo uma cultura institucional permissiva.
“Quando uma pessoa passa a ver outra como ‘problema’ e não como sujeito de direitos, a violência pode ser percebida, de forma distorcida, como solução.”
Ainda de acordo com Oliveira, o comportamento em grupo pode favorecer decisões violentas e reduzir a responsabilidade individual.
“Há um efeito de diluição da responsabilidade: ‘eu não fiz sozinho’, ‘todos concordaram’, ‘só acompanhei’. Além disso, o grupo pode reforçar atitudes agressivas e reduzir freios morais que talvez surgissem se a pessoa estivesse sozinha.”
“Limpeza social” e desumanização
O especialista alerta que a ideia de “limpeza social” é extremamente perigosa, pois transforma pessoas vulneráveis em algo a ser removido do espaço público.
“Psicologicamente, isso envolve desumanização, preconceito e uma lógica de exclusão. A pessoa deixa de ser vista como alguém com história e direitos e passa a ser tratada como incômodo ou ameaça.”
Oliveira acrescenta que a redução do indivíduo a rótulos — como “morador de rua”, “usuário de drogas” ou “perigoso” — contribui para esse processo.
“Esse rótulo apaga a complexidade da pessoa. A partir daí, alguns passam a justificar a violência como defesa ou proteção da comunidade.”
Ele reforça ainda que nenhum histórico criminal justifica atos de violência.
“Nenhum histórico autoriza tortura ou morte. Em uma sociedade democrática, suspeitas devem ser tratadas pelo sistema de justiça, com o devido processo legal.”
O especialista também destaca que esse tipo de crime envolve tanto fatores individuais — como agressividade e baixa empatia — quanto fatores sociais, como desigualdade, medo, insegurança e tolerância à violência contra grupos vulneráveis.

Segurança pública e sensação de impunidade
O pesquisador em segurança pública Rusley Medeiros avalia que a sensação de impunidade é um dos principais fatores por trás desse tipo de prática.
“Uma parcela da população anseia por segurança e, diante da percepção de que crimes não são devidamente punidos, alguns passam a acreditar que agir por conta própria pode tornar a comunidade mais segura.”
Segundo ele, esse comportamento é mais comum em contextos de vulnerabilidade e violência recorrente.
“Indivíduos que atuam em áreas ligadas à proteção, como segurança privada, podem se sentir mais propensos a agir como ‘justiceiros’.”
Medeiros destaca ainda que a segurança pública envolve diversas instituições, não apenas as polícias.
“Não há aumento da sensação de segurança sem confiança nas instituições. É preciso atuação eficaz, democrática e justa das forças de segurança e do sistema de justiça.”
Ele ressalta que, apesar do aumento das prisões, há uma percepção social de impunidade, reforçada por altos índices de reincidência e baixa resolução de crimes.
“Mais de 60% dos homicídios no Brasil não são esclarecidos. Nos crimes patrimoniais, esse índice ultrapassa 80%. Isso contribui para a sensação de impunidade, que não é apenas percepção, mas uma preocupação real.”
Riscos e caminhos possíveis
Para o pesquisador, a prática de “justiça pelas próprias mãos” representa um risco direto à democracia.
“Uma sociedade democrática depende de instituições fortes e respeito à legalidade. Quando isso é ignorado, a estabilidade social fica ameaçada.”
Ele aponta três caminhos principais para enfrentar o problema:
- fortalecimento da atuação preventiva das forças policiais;
- maior eficácia do Judiciário;
- melhoria na investigação criminal.
“A população precisa confiar que, ao denunciar, o Estado irá investigar e responsabilizar os envolvidos.”
Medeiros defende ainda o aumento de investimentos em segurança pública, com foco tanto na prevenção quanto na repressão, além da implementação de políticas públicas contínuas e independentes de governos.
Por fim, ele destaca a importância da aproximação entre polícia e comunidade.
“Uma sociedade que não confia em suas instituições e resolve conflitos fora da lei está mais próxima de um colapso democrático.”









