Quase mil pessoas em situação de rua (PSR) estão pela Grande Vitória, atualmente. Os números, que cresceram, foram enviadas pelas Secretaria de Assistência Social (Semas) dos municípios, que apontam 320 moradores na capital, 220 em Vila Velha e 445 na Serra. Esse número, no entanto, é flutuante, pois essas pessoas migram de um município para outro.
O coordenador da Pastoral do Povo da Rua da Arquidiocese de Vitória, Julio Cesar Pagotto, confirma o aumento da população em situação de rua e denuncia politicas de “higienização social”. De acordo com ele, agentes de segurança pública já coagiram voluntários da pastoral durante ações de distribuição de alimentos.
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A política de higienização social tem o objetivo de excluir setores sociais que são considerados indesejados, ou seja, os não consumidores, caso das pessoas em situação de rua.
O coordenador explica que em Vitória a prática consiste na recolha de pertences e expulsão das pessoas nessa situação de locais públicos. Isso aconteceu, por exemplo, em agosto de 2021, quando a Polícia Militar foi acusada de recolher cobertores e expulsar a população em situação de rua na Grande Vitória. “Se a população em situação de rua está incomodando, não piore ainda mais a vida dessas pessoas, crie uma política pública”, afirmou.
Pobreza e falta de políticas sociais
Com o crescimento do desemprego, que chegou a marca de 13 milhões de pessoas em 2021, houve um aumento da população em situação de rua. “Essa situação o resultado da soma entre o aumento da pobreza e a diminuição das políticas públicas sociais”, pontua Pagotto.
Uma pessoa em situação de rua, que preferiu não se identificar, contou que passou a infância num orfanato e encontrou dificuldades para viver em sociedade. “Eu faço parte do tráfico já há alguns anos, fiquei preso por sete anos, e até hoje não consegui me ressocializar, voltar a sociedade enquanto uma pessoa normal. Não consigo emprego, por mais que eu tenha todos o documentos. Não consigo vaga, todos os lugares que eu coloco currículo nunca me chamam”.
A pessoa contou ter encontrado no tráfico de drogas um meio para se manter e ganhar dinheiro. “Mesmo não achando certo, pelo contrário, acho muito errado, mas é a forma que eu tenho para sobreviver, entende?”.
Quando questionada sobre os programas de acolhimento social, que buscam dar um lugar para dormir à noite, duras críticas foram feitas. “Lá é muita doideira, muita miséria. Você chega lá e é gente com faca, com todo o tipo de coisa, não dá pra confiar. Na favela eu vejo fuzil, mas já é uma coisa normal. Lá sinto segurança”.
Ainda sobre as políticas públicas, a pessoa também critica os métodos utilizados pelo governo e locais de apoio. “Eu não preciso de uma marmita e de água todo dia, preciso de emprego, preparação. Você não tira a pessoa da rua assim, tem que mostrar o caminho das pedras. Isso também leva a gente para a favela. A gente não se sente a vontade ganhando uma marmita todo dia e sendo abordado por policiais que não querem nem saber de você”.
Um novo fenômeno notado nas ruas é o de pessoas que não dormem na rua, mas por não terem comida em casa, saem às ruas para pedir. “Vemos famílias inteiras nas ruas, o que a gente não via até pouco tempo, tipo mães com crianças. Ontem fui à casa lotérica e havia uma mulher higienizada, que aparentemente não está em situação de rua constantemente. Estava com um bebê no carrinho, mendigando. Isso ilustra o problema social gravíssimo que a gente está vivendo com o crescimento da fome”, destaca o coordenador arquidiocesano.
Pastoral
A Arquidiocese de Vitória organiza desde 2015 a Pastoral do Povo da Rua. O trabalho consiste na aproximação, convivência e evangelização das PSR, tendo sempre a solidariedade em tentar atender as necessidades básicas dessas pessoas.
“Nosso principal objetivo é no auxílio dessas pessoas, distribuindo alimentos, roupas, itens de higiene. Nosso trabalho também tem outra função muito importante, que é denunciar e cobrar do poder público políticas públicas para essa população. Isto é, saúde, educação e ações emergenciais de combate à fome”, destaca o coordenador da Arquidiocese de Vitória.
Prefeituras
Por nota, a Prefeitura de Vitória (PMV) disse que o atendimento inicial a pessoas em situação de rua é feito pelo Serviço Especializado de Abordagem Social (Seas), com equipes de abordagem compostas por assistentes sociais, psicólogos e educadores sociais para atender as pessoas em situação de rua. Entretanto, “o serviço não realiza a retirada compulsória de pessoas em situação de rua dos espaços”.
A PMV afirma que, durante as abordagens, são realizadas intervenções no que diz respeito ao acolhimento nos equipamentos da Semas: Centro-Pop, Abrigo, Hospedagem Noturna, Casa Lar para pessoas com transtorno mental, Albergue para Migrantes, além do Serviço de Acolhimento Emergencial Transitório.
A PMV também disse que presta atendimentos na área da Saúde com o projeto Consultório na Rua, que atende aos cuidados básicos de saúde as PSR. O atendimento é feito nos locais de permanência deles, por equipes itinerantes. Também são realizadas ações políticas sociais, entre elas documentação, cidadania, alimentação, higienização, habitação e emprego/renda.
A Prefeitura de Vila Velha disse que oferta atendimento psicossocial e supre a necessidade básica de uma pessoa com alimentação e higienização no Centro Pop, localizado no bairro Divino Espírito Santo, onde são ofertadas quatro refeições diárias: café da manhã, almoço, lanche da tarde e jantar. No local, também é possível realizar a higiene pessoal, seguindo todos os protocolos sanitários de prevenção a Covid-19.
FOTO DESTAQUE: © José Cruz/Agência Brasil









