99 cidades concentraram 50% dos homicídios em 2024; 4 capixabas

O Brasil teve 42.590 homicídios no ano de 2024, alcançando uma taxa de 20,1 casos por 100 mil habitantes, conforme a nova edição do Atlas da Violência, estudo realizado pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e publicado nesta terça-feira (26).

O número sobe para 49.673 (com taxa de 23,4 por 100 mil) diante de um cálculo feito pelos especialistas do Atlas para estimar quantas mortes violentas sem causa determinada foram, na verdade, homicídios não registrados (leia mais abaixo).

Os assassinatos ocorreram de maneira altamente desigual no país. Um conjunto de 99 municípios (1,8% do total de 5.570) concentrou metade dos homicídios nesse período. Esses municípios concentram 43,4% da população brasileira.

As regiões Nordeste e Norte sofreram com os maiores índices dessa violência. Amapá (com 47,1 casos por 100 mil habitantes), Ceará (43,7), Bahia (42,6), Alagoas (39,8) e Pernambuco (38,6) tiveram as maiores taxas de homicídio. Estados do Sul, do Sudeste e o Distrito Federal tiveram as menores taxas.

Segundo os pesquisadores do Atlas, há uma expansão de grupos criminosos pelo interior do país, exercendo controle armado sobre comunidades e envolvendo-se em disputas violentas por pontos de venda de drogas.

“Assistimos à expansão de áreas em que o controle territorial armado do crime foi a ponta de lança para a expropriação econômica e de outros direitos fundamentais”, diz o relatório da pesquisa. “A expansão desses grupos criminosos não foi apenas nas capitais, atingindo cidades menores e no interior do país.”

Cidades médias, com populações de 100 mil a 500 mil habitantes, tiveram uma taxa média de homicídios superior àquela das grandes cidades. Segundo o estudo, isso é indicativo de que a violência mais intensa “não se concentra necessariamente nas maiores metrópoles, mas frequentemente nos municípios de porte intermediário”.

Maranguape, na região metropolitana de Fortaleza (CE), foi a cidade com a maior taxa de homicídios entre os municípios com mais de 100 mil habitantes. Ela já havia figurado em primeiro lugar na lista de municípios mais violentos do país na última edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública.

Ali, bairros são divididos entre o domínio do CV (Comando Vermelho) e da facção local Guardiões do Estado.

Reportagem da Folha de S.Paulo mostrou, no ano passado, que moradores são monitorados quando entram e saem das comunidades e chefes do tráfico decidem quem pode morar em determinado local e quem deve ser expulso. Pichações nos muros da cidade trazem orientações a visitantes, que devem retirar capacetes e baixar os vidros dos carros ao passar em determinadas vias.

99 cidades concentraram 50% dos homicídios em 2024; 4 capixabas
Vila Velha – Foto: reprodução

99 CIDADES CONCENTRAM 50% DOS HOMICÍDIOS

  1. Ananindeua
  2. Coari
  3. Manaus
  4. Salvador
  5. Aparecida de Goiânia
  6. Cuiabá
  7. Marabá
  8. Santa Maria
  9. Aracaju
  10. Curitiba
  11. Maracanaú
  12. Santa Rita
  13. Arapiraca
  14. Distrito Federal
  15. Maringá
  16. Santana
  17. Barra Mansa
  18. Duque de Caxias
  19. Marituba
  20. Santo André
  21. Bayeux
  22. Feira de Santana
  23. Mossoró
  24. São Gonçalo
  25. Belém
  26. Fortaleza
  27. Natal
  28. São João de Meriti
  29. Belford Roxo
  30. Foz do Iguaçu
  31. Niterói
  32. São José dos Pinhais
  33. Belo Horizonte
  34. Goiânia
  35. Nossa Senhora do Socorro
  36. São Lourenço da Mata
  37. Betim
  38. Governador Valadares
  39. Nova Iguaçu
  40. São Luís
  41. Boa Vista
  42. Guarulhos
  43. Olinda
  44. São Paulo
  45. Cabo de Santo Agostinho
  46. Ilhéus
  47. Osasco
  48. Serra
  49. Cabo Frio
  50. Imperatriz
  51. Paranaguá
  52. Simões Filho
  53. Camaçari
  54. Itaboraí
  55. Parauapebas
  56. Sobral
  57. Camaragibe
  58. Itapipoca
  59. Passo Fundo
  60. Sorocaba
  61. Campinas
  62. Jaboatão dos Guararapes
  63. Paulista
  64. Sorriso
  65. Campo Grande
  66. Jequié
  67. Petrolina
  68. Teixeira de Freitas
  69. Campos dos Goytacazes
  70. João Pessoa
  71. Ponta Grossa
  72. Teresina
  73. Canoas
  74. Juazeiro
  75. Porto Alegre
  76. Timon
  77. Cariacica
  78. Juazeiro do Norte
  79. Porto Seguro
  80. Uberlândia
  81. Caruaru
  82. Lauro de Freitas
  83. Porto Velho
  84. Várzea Grande
  85. Cascavel
  86. Londrina
  87. Recife
  88. Vila Velha
  89. Caucaia
  90. Luziânia
  91. Ribeirão das Neves
  92. Vitória
  93. Caxias
  94. Macapá
  95. Rio Branco
  96. Vitória da Conquista
  97. Caxias do Sul
  98. Maceió
  99. Rio de Janeiro
99 cidades concentraram 50% dos homicídios em 2024; 4 capixabas
Cariacica – Foto: Divulgação

Dos dez municípios mais violentos com mais de 100 mil habitantes, quatro estão no Ceará e seis estão na Bahia. A segunda cidade da lista é Jequié (BA), a 370 km de Salvador, que em 2022 deixou o posto de cidade com maior proporção de mortes violentas do país e no ano seguinte se tornou o município brasileiro com a polícia que mais mata.

Salvador, na Bahia, foi a capital brasileira com maior índice de homicídios. Teve 52,7 homicídios estimados para cada 100 mil habitantes.

“A Bahia tem mais de 20 facções atuando permanentemente no território, pequenas facções formadas por jovens, que não têm um controle muito rígido [da violência] como aquelas facções que estão mais direcionadas para os negócios”, diz o pesquisador Daniel Cerqueira, um dos coordenadores do Atlas da Violência.

MAIS DE 300 MIL JOVENS MORTOS EM 11 ANOS

O perfil das vítimas de homicídio no Brasil permaneceu, em 2024, com grande predomínio de jovens, homens e negros. A faixa etária dos 15 aos 29 anos representou 46,5% das vítimas de homicídios no país.

No período de 2014 a 2024, foram 301.825 jovens nessa faixa etária assassinados — cerca de 75 por dia. O Atlas estima que a taxa de homicídio entre eles seja de 46,1 casos para cada 100 mil habitantes, enquanto para a população brasileira como um todo a taxa é de 23,4.

Em 2024, em média 54 jovens foram mortos de forma violenta por dia. Desses, 51 eram homens.

DIVERGÊNCIA COM ESTATÍSTICAS OFICIAIS

A estimativa do Atlas, feita a partir dos dados do SIM (Sistema de Informações sobre Mortalidade) do Ministério da Saúde, significa também uma discrepância com as estatísticas oficiais.

Segundo o estudo, o SIM registrou 42.590 homicídios — os dados coletados no Atlas levam em conta a soma dos óbitos causados por agressão, intervenção legal e operações de guerra, segundo a classificação do Ministério da Saúde.

O Ministério da Justiça, por sua vez, registrou 43.312 mortes violentas intencionais (soma de homicídios dolosos, latrocínios, lesão corporal seguida de mortes, mortes violentas de agentes de segurança e mortes por intervenção policial). A diferença dos números do Atlas em relação às estatísticas da Saúde e da Justiça é de mais de 14%.

Isso porque o estudo analisa registros cadastrados no sistema como mortes violentas por causa indeterminada (MVCI) — a princípio porque não era possível determinar se ocorreram por acidente, homicídio ou suicídio — e os reclassifica conforme o padrão estatístico da violência em cada localidade.

Para conseguir classificar cada caso, o Ipea compilou as características de todas as mortes violentas no país desde 1996, reunindo milhões de registros. Cada um deles contém dados sobre o local da ocorrência, instrumento usado na morte, idade da vítima, sexo, cor da pele, escolaridade e estado civil, por exemplo.

Com isso, o instituto conseguiu traçar os padrões de homicídios, suicídios e acidentes de cada região do país. Sexo masculino, adolescente ou jovem adulto, pele negra, baixa escolaridade, morto em via pública e com arma de fogo, por exemplo, são características que aumentam muito as chances de tratar-se de homicídio doloso. Aos casos que têm características de homicídio, mas que continuaram cadastrados como MVCI no sistema, o Ipea dá o nome de “homicídios ocultos”.

A soma dos homicídios registrados no SIM com os ocultos resulta nos homicídios estimados pelo Atlas.

O Atlas da Violência indica uma trajetória dos índices de violência no Brasil diferente daquela que consta nas estatísticas do governo. Em vez de uma redução de 7,4% nos homicídios registrados no SIM (ou de cerca de 5%, segundo os dados do Ministério da Justiça), haveria na verdade uma queda de apenas 0,3 nos assassinatos, algo próximo da estabilidade.

“Embora o país mantenha tendência de redução dos homicídios em comparação aos picos registrados na década passada, a piora da qualidade da informação pode estar criando um ‘ponto cego’ estatístico”, diz o estudo.

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – TULIO KRUSE

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