Estudantes querem usar IA para aprender melhor, mas falta orientação, aponta levantamento

Celebrado nesta terça-feira (11), o Dia do Estudante encontra uma geração que já adotou a inteligência artificial à rotina de estudos. Um levantamento inédito da Opera, empresa norueguesa de navegadores e agentes de IA, aponta que essa transformação acontece, geralmente, sem orientação das escolas e universidades, quando os próprios alunos reconhecem que o impacto da tecnologia depende da forma como ela é utilizada.

Realizado com mais de 2.400 estudantes brasileiros, distribuídos entre as faixas etárias de até 14 anos, 15 a 17 anos, 18 a 24 anos, 25 a 34 anos e 35 anos ou mais, o levantamento mostra que 71% dos entrevistados afirmam que a IA ajuda na compreensão dos conteúdos ou que seus efeitos variam conforme a maneira como é utilizada.
Ao mesmo tempo, apenas 5% dizem ter recebido orientação formal de suas instituições sobre como utilizar a ferramenta, enquanto 40% afirmam nunca ter recebido qualquer orientação.

Em vez de ser usada apenas como um atalho para concluir tarefas, os entrevistados no levantamento demonstram preocupação com a qualidade das respostas e interesse em compreender como elas são construídas. Para especialistas, isso indica que o desafio atual deixou de ser a presença da IA nas salas de aulas e passou a ser ensinar como utilizar a ferramenta de forma crítica.

“A inteligência artificial pode apoiar o processo de aprendizagem, mas isso depende de como ela é usada. Quando bem orientada, ela pode ajudar o estudante a desenvolver autonomia, revisar conteúdos e identificar lacunas de compreensão. O ponto central não é substituir o esforço do aluno, mas potencializar o aprendizado”, afirma Juliana Psaros, diretora regional da Opera no Brasil.

Segundo Psaros, os resultados mostram que os próprios estudantes reconhecem essa diferença e apontam a necessidade de orientação mais clara.

Na avaliação da diretora, há uma oportunidade para que professores e instituições incorporem a ferramenta ao processo de aprendizagem, ensinando maneiras para revisar conteúdos, identificar lacunas e aprofundar conhecimentos, em vez de apenas gerar respostas prontas.

Informações confiáveis
De acordo com 52% dos entrevistados, o aspecto a ser melhorado nas ferramentas é a confiabilidade das informações. Entre os entrevistados de 15 a 17 anos, essa preocupação é ainda maior.
Nesse grupo, 60% apontam a necessidade de informações mais confiáveis e verificadas, e 55% dizem que gostariam de receber explicações melhores e passo a passo, os maiores percentuais entre as faixas etárias pesquisadas.

A professora Mônica Garbin, pedagoga e doutora em educação da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), explica que a diferença entre um uso produtivo e outro prejudicial está na forma de interação com a tecnologia.
Segundo ela, recorrer à IA para esclarecer dúvidas depois da leitura de um texto pode ampliar a aprendizagem, por exemplo. O problema acontece quando o estudante entrega à ferramenta atividades que deveriam desenvolver a própria capacidade de leitura, escrita e reflexão.

Garbin afirma que esse cenário torna importante o desenvolvimento do pensamento crítico, principalmente entre estudantes que ainda estão construindo essas habilidades. “Com isso, o estudante não consegue desenvolver aspectos que se repetem, um uso ético dessas ferramentas, um uso crítico dessas ferramentas. Mas, ao mesmo tempo, os professores hoje em dia, nos cursos de formação de professores, pouco têm conteúdos que se remetem à ideia das tecnologias na educação.”

O professor Ademar Celedônio, diretor de ensino e inovações educacionais da Arco Educação, afirma que as respostas produzidas por IA podem transmitir segurança mesmo quando contêm erros.

“Mais importante do que descobrir se um trabalho foi produzido com IA é garantir que o estudante demonstre que entendeu o conteúdo e consiga explicar o raciocínio por trás das respostas”, afirma Celedônio.

O diretor de ensino afirma que esse movimento deve mudar o foco da avaliação das escolas, que tende a deixar de priorizar a verificação de resultados para valorizar a capacidade de argumentação e compreensão.

O levantamento da Opera também mostra que 17% dos entrevistados afirmam recorrer frequentemente à IA para produzir a maior parte de um trabalho, enquanto 31% dizem que a usam apenas como ponto de partida, fazendo adaptações antes da entrega. Por outro lado, 22% afirmam produzir seus trabalhos sem usar esse tipo de ferramenta.
Apenas 20% afirmam que suas escolas ou universidades têm políticas claras para o uso de IA. Outros 32% recebem orientações informais de professores, enquanto 9% estudam em instituições que proíbem as ferramentas.

Embora parte das instituições ainda escolha restringir ou até proibir o uso da inteligência artificial, os especialistas avaliam que esse debate tende a perder espaço para preparar estudantes e professores para conviver com uma tecnologia que já faz parte do dia a dia.

São Paulo, FolhaPress – Lucas Leite

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