A retirada de até 10 toneladas mensais de cascas de sururu do meio ambiente está reduzindo impactos nos manguezais e fortalecendo a economia azul em Cariacica. Antes descartado de forma irregular, o material agora é reaproveitado como insumo agrícola, evitando poluição e contribuindo para a sustentabilidade ambiental.
A chegada do Projeto Sururu à região de Mangue Seco marcou uma mudança direta no cenário ambiental da comunidade. Segundo o presidente do Instituto Goiamum, Iberê Sassi, a iniciativa impede que grandes volumes de resíduos retornem ao ecossistema.
“Atualmente, nossa capacidade produtiva retira até dez toneladas por mês de cascas de sururu, que, de outra forma, retornariam para a margem do mangue, para a maré ou para aterros sanitários”, afirmou.
O primeiro impacto percebido foi a diminuição do acúmulo de cascas nas áreas próximas às residências. “Essa é, sem dúvida, a principal mudança — embora muitas vezes invisível para quem não vive na região”, destacou. O outro foi diretamente a vida de mulheres como Carla Moraes, marisqueira há mais de 20 anos. Criada na atividade, Carla acompanhava a mãe na coleta do sururu e hoje vê a profissão com novos olhos: “Comecei cedo e segui na profissão. Hoje vejo esse trabalho de outra forma.”
Substituição do calcário e redução da degradação ambiental

Além da questão ambiental, o descarte inadequado também afetava diretamente a qualidade de vida da população local. De acordo com Iberê Sassi, as cascas eram frequentemente destinadas de forma irregular, inclusive para aterros sanitários. “Entendemos, portanto, que o Projeto Sururu atua como parceiro das prefeituras na transformação social e ambiental dessas comunidades”, frisou.
A iniciativa, segundo ele, depende do apoio do poder público para ampliar seu alcance e consolidar seus benefícios.
Outro impacto ambiental relevante está na substituição do calcário tradicional, extraído de rochas em pedreiras. O pó produzido a partir das cascas de sururu passa a ocupar esse espaço no mercado agrícola. “Um insumo que, para existir, exige a exploração e degradação da natureza. É muito diferente do que estamos construindo”, afirmou Sassi.
O produto já passou por análises laboratoriais e está em uso por agricultores no Espírito Santo, além de estar em processo de certificação estadual. Do ponto de vista científico, o doutorando em Oceanografia pela UFES, Vitor L. A. Rodrigues, explica que o descarte em grande volume altera o equilíbrio natural do manguezal.
“O manguezal é um ecossistema costeiro […] entretanto, o descarte de origem antrópica em grande volume difere da ocorrência natural”, explicou.
“Se houver um descarte excessivo […] o aumento do pH pode gerar estresse em plantas, animais e micro-organismos”, alertou.
O oceanógrafo também aponta que o material pode favorecer a proliferação de bactérias patogênicas e liberar metais pesados — embora ressalte que esses impactos são menores quando comparados a problemas como desmatamento e esgoto irregular.

Segundo ele, esse acúmulo pode trazer riscos ambientais importantes:
- Introdução de metais pesados
- Presença de patógenos
- Alterações químicas no ambiente
Benefícios ambientais do uso na agricultura
Os insumos derivados de conchas podem substituir parcialmente o calcário convencional, com vantagens como maior solubilidade e liberação gradual de cálcio. O uso das cascas de sururu na agricultura apresenta vantagens ambientais importantes:
- Correção da acidez do solo (rico em carbonato de cálcio)
- Liberação gradual de nutrientes
- Redução de variações bruscas de pH
- Aumento da matéria orgânica
- Maior disponibilidade de fósforo
- Estímulo a microrganismos benéficos
Outro benefício destacado é a capacidade de imobilizar metais pesados, reduzindo sua biodisponibilidade no solo.









