Fim da escala 6×1 reposiciona RH em empresas capixabas

Em uma rede de supermercados da Grande Vitória, o debate já começou antes mesmo de qualquer mudança oficial na legislação: como manter o mesmo nível de atendimento ao cliente com menos horas disponíveis por funcionário? A pergunta, aparentemente operacional, revela uma transformação mais profunda em curso no mercado de trabalho e coloca o setor de Recursos Humanos no centro das decisões estratégicas das empresas.

O avanço das discussões sobre o fim da escala 6×1 — modelo em que o trabalhador atua seis dias para descansar um — sinaliza uma possível reconfiguração da jornada de trabalho no país. A proposta de redução da carga horária semanal sem diminuição salarial rompe com uma lógica histórica baseada na permanência prolongada no trabalho e exige das empresas um novo olhar sobre produtividade, eficiência e gestão de pessoas.

No Espírito Santo, onde os setores de comércio e serviços têm forte peso na economia, a mudança tende a impactar diretamente a organização das equipes e a dinâmica das operações. Para o coordenador da Câmara de Recursos Humanos do CRA-ES, Admº Kleber Alves, o momento representa uma mudança de papel para o RH.

“O RH deixa de atuar apenas de forma operacional e passa a ocupar uma posição estratégica dentro das empresas. Não se trata somente de reorganizar escalas, mas de redesenhar a forma como o trabalho é estruturado”, afirma.

Na prática, a possível redução da jornada exigirá revisão de turnos, contratos e distribuição de equipes. Em alguns casos, também poderá demandar novas contratações. Ao mesmo tempo, cresce a pressão para manter (ou até ampliar) a produtividade com menos horas trabalhadas.

Esse cenário amplia a necessidade de um RH mais analítico e integrado às demais áreas da empresa. Ferramentas de gestão de dados ganham protagonismo para prever demandas, ajustar equipes e orientar decisões com maior precisão. A negociação com sindicatos e a construção de acordos coletivos também tendem a ganhar mais relevância durante a transição.

 

Mudança de lógica

Mais do que adaptar processos, as empresas precisarão rever a própria lógica de gestão. A produtividade deixa de estar ligada apenas ao tempo de permanência e passa a ser medida pelos resultados entregues. Isso exige modelos mais orientados a desempenho, planejamento e qualidade de vida no ambiente de trabalho.

“Empresas que enxergarem essa mudança como oportunidade podem ganhar em retenção de talentos, clima organizacional e redução de afastamentos. Mas isso depende de gestão qualificada”, destaca Kleber Alves.

Para os profissionais de Recursos Humanos, especialmente nos segmentos de comércio e serviços, o cenário também representa ampliação de responsabilidades. Além da gestão de pessoas, será necessário dominar ferramentas de análise, interpretar indicadores e atuar de forma mais estratégica junto aos setores financeiro e operacional.

No fim, o debate sobre o possível fim da escala 6×1 vai além da carga horária. A discussão reposiciona o RH dentro das empresas e pressiona organizações capixabas a adotarem modelos mais eficientes, sustentáveis e alinhados às novas demandas do mercado de trabalho.

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