Fabricante de brinquedos Estrela entra em recuperação judicial em meio a juros altos e mudança digital

A tradicional fabricante de brinquedos Estrela entrou com pedido de recuperação judicial, nesta quarta-feira (20), alegando necessidade de reestruturação do passivo do grupo, em meio à combinação de juros elevados, crédito mais restrito e mudanças no consumo infantil, cada vez mais pressionado por plataformas digitais e jogos online.

Em fato relevante divulgado ao mercado, a empresa afirmou que manterá as operações industriais, comerciais e administrativas durante o processo.

Por volta das 12h40, as ações da companhia estavam em leilão — mecanismo em que as operações com um ativo são temporariamente suspensas devido à alta volatilidade — na Bolsa. Na mínima do pregão, os papéis chegaram a R$ 3,01 (queda de 33,3%). 

Fundada em 1937, a Estrela atravessou décadas como uma das marcas mais conhecidas da indústria nacional de brinquedos e ajudou a moldar o imaginário infantil de diferentes gerações de brasileiros.

A empresa começou como uma pequena fábrica de bonecas de pano e carrinhos de madeira e se transformou, ao longo do século 20, em um dos maiores símbolos do setor no país. Foi também uma das primeiras companhias brasileiras a abrir capital, em 1944.

Ao longo de sua trajetória, a Estrela lançou produtos que se tornaram praticamente sinônimos de categorias inteiras no mercado brasileiro, como o Banco Imobiliário, criado nos anos 1940, o Autorama, nos anos 1960, e o Genius, apresentado nos anos 1980 como o primeiro brinquedo eletrônico do país.

A companhia também marcou época com brinquedos como Falcon, Comandos em Ação, Susi, Topo Gigio, Aquaplay, Fofolete, Ferrorama, Super Massa e bonecas como Gui Gui, Mãezinha e Moranguinho. Em diferentes momentos, a fabricante apostou em licenças de personagens de TV, cultura pop e até influenciadores digitais para tentar acompanhar mudanças de comportamento das crianças.

Nos anos 2000 e 2010, a buscou modernizar clássicos, incorporando tecnologia a jogos tradicionais e ampliando a atuação em brinquedos colecionáveis e licenciados. Ainda assim, a companhia enfrentou dificuldades para competir com produtos importados baratos e, mais recentemente, com o avanço dos jogos digitais, redes sociais e plataformas de entretenimento online.

Hoje, a Estrela mantém escritório central em São Paulo e fábricas no interior paulista, em Minas Gerais e Sergipe.

O pedido de recuperação judicial da Estrela se soma a uma lista crescente de empresas brasileiras que recorreram ao mecanismo nos últimos anos.

Entre os casos recentes está o Grupo Toky, controlador da Tok&Stok e da Mobly, que enfrenta dificuldades financeiras em meio à crise prolongada do varejo de móveis e decoração.

O Grupo CVLB Brasil, dono das varejistas Casa & Video e Le Biscuit, também buscou proteção judicial pressionado pelo aumento do custo financeiro e pela piora do ambiente de consumo.

No futebol, a SAF Botafogo também recorreu à Justiça em meio a disputas financeiras e reestruturações societárias.

A recuperação judicial não significa falência. O mecanismo foi criado justamente para tentar evitar o encerramento das atividades, preservar empregos e permitir a renegociação das dívidas. O plano costuma envolver alongamento de prazos, descontos para credores, venda de ativos e busca de novos financiamentos.

Se o pedido for aceito pela Justiça, a companhia passa a ter proteção contra cobranças e execuções judiciais por 180 dias, período conhecido como “stay period”. Nesse intervalo, a empresa ganha fôlego para negociar um plano de pagamento com credores enquanto mantém as operações em funcionamento.

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – ANA PAULA BRANCO 

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