A inteligência artificial já está presente nas salas de aula e no mercado de trabalho. No entanto, enquanto o uso acelera, cresce também a distância entre o que o ensino superior oferece e o que o mundo corporativo exige.
É o que revela uma pesquisa da Pearson e da AWS (Amazon Web Services), que aponta que, apesar do avanço da IA, muitos estudantes ainda deixam a universidade sem experiência prática e sem o pensamento crítico exigido para tal uso.
O levantamento ouviu 2.711 pessoas, entre professores, gestores, empregadores e estudantes, em seis países (Brasil, Estados Unidos, Reino Unido, Arábia Saudita, Malásia e Vietnã).
Os resultados mostram um descompasso entre universidades e empresas. Enquanto 78% dos gestores e educadores do ensino superior ouvidos acreditam atender às expectativas do mercado, 53% dos empregadores afirmam que a dificuldade é encontrar graduados com as habilidades necessárias.
Para Cinthia Nespoli, CEO da Pearson no Brasil, o descompasso mostra que o meio acadêmico e o mercado operam em frequências diferentes. “A universidade mede sucesso por aprovação e titulação, enquanto o mercado mede por prontidão desde o primeiro dia. Com as mudanças rápidas, o diálogo gerou “duas percepções distintas sobre o que significa estar ‘preparado'”.
O estudo mostra que 42% dos alunos ouvidos no Brasil afirmam não receber diretrizes claras sobre o uso de ferramentas de IA na rotina acadêmica. Além disso, 30% mantêm o uso em total segredo de seus professores, alimentando o “shadow AI” (IA clandestina ou paralela).
A CEO ressalta que dados mostram mais um problema de orientação do que de comportamento. “Quando 42% dizem não receber diretrizes e 30% escondem o uso, o que vemos não é ‘clandestinidade’, mas um vácuo institucional. A IA já faz parte da rotina dos alunos. Ignorar isso ou tentar proibir tende a ser ineficaz”.
“O caminho mais produtivo é trazer esse uso para o centro da aprendizagem, com regras claras, transparência e intencionalidade pedagógica”, afirma Nespoli. “É preciso evoluir de modelos baseados apenas em reprodução de conteúdo para avaliações que valorizem processo, pensamento crítico e aplicação prática, competências que não podem ser terceirizadas para a tecnologia”.
Como a Folha de S.Paulo mostrou, três das principais universidades do país (USP, Unicamp e Unesp) estão criando protocolos para o uso da IA. No âmbito nacional, o CNE (Conselho Nacional de Educação) discute regras para serem aplicadas desde a educação básica até o ensino superior.
A pesquisa também aborda a qualidade da formação. Os empregadores classificam a capacidade dos formandos de avaliar criticamente resultados gerados por IA como a competência mais fraca, priorizando comunicação, colaboração e adaptabilidade.
Isso significa que os estudantes dominam o acesso às ferramentas, mas falham na aplicação prática real. Segundo a pesquisa, isso acontece porque apenas 13% dos gestores avaliam o conhecimento de seus professores em IA como “muito forte”.
“O uso autodidata desenvolve fluência operacional, mas não garante pensamento crítico. O mercado não busca quem apenas opere uma ferramenta, mas profissionais capazes de formular perguntas, interpretar resultados e tomar decisões. É a diferença entre ter calculadora e saber engenharia”, explica Nespoli.
Assim, o maior perigo não é a eficiência, mas a capacidade crítica. Nespoli aponta que o risco de formar profissionais dependentes da ferramenta e, portanto, substituíveis. “O papel da educação superior é justamente o oposto, é desenvolver autonomia intelectual”.
“A tecnologia deve ampliar a capacidade de pensar, não substituir o processo de pensamento. No fim, o diferencial competitivo não será quem usa IA, mas quem sabe pensar com IA”, afirma a CEO.
Estudantes e empregadores dizem concordar que a experiência prática com a IA é uma mudança urgente. Segundo o estudo, o acesso à tecnologia não basta sem um ambiente de aplicação real e estruturado. Quando a universidade falha, as empresas assumem os custos do treinamento básico.
De acordo com Nespoli, o diploma tradicional arrisca perder relevância caso as universidades não acompanhem as transformações do mercado e da tecnologia.
“Mais do que nunca, é preciso transformar essa relação em uma via de mão dupla. Quando academia e empresas constroem juntas, o resultado é um aluno que chega mais preparado e um diploma que mantém sua relevância”, afirma a CEO da Pearson.
São Paulo, FolhaPress – Lucas Leite









