Rejeição, abandono, piadas preconceituosas nos encontros familiares que podem evoluir para agressões físicas, psicológicas e verbais, tudo isso dentro de um contexto familiar que deveria ser de acolhimento e segurança. Infelizmente, esta é a realidade vivenciada pela maioria das pessoas LGBTQIAPN+. Toda forma de violência dói, mas aquela praticada dentro de casa pode ser avassaladora.
Em entrevista, o psicólogo da Diretoria de Ações Afirmativas e Diversidade da Pró-reitoria de Políticas Afirmativas e Assistência Estudantil da UFES, Gabriel Monteiro, ressaltou a importância de se debater a temática sobre o preconceito que vem de dentro do seio familiar, dado o forte papel que a família exerce na orientação de um indivíduo para a vida.
Segundo ele, a família é a responsável por provocar um reconhecimento, um espelhamento que permite a organização da própria imagem da pessoa. Ao longo do desenvolvimento subjetivo, ela pode prejudicar ou auxiliar na percepção dos sujeitos sobre si mesmo.
Para Gabriel, uma família que invisibiliza um de seus membros por conta da orientação sexual ou diversidade de gênero, pode contribuir com uma descontinuidade da construção saudável da identidade, trazendo não apenas um sentimento de abandono e de desmerecimento, mas de desconhecimento.
“Os indivíduos que são hostilizados em sua família precisarão encontrar outros suportes, outras pessoas ou grupos que os ajudem a forjar seu próprio entendimento sobre si, sobre seu corpo, sobre seu lugar no mundo”, frisou.
O especialista faz um alerta: a homofobia e a transfobia matam, elas são formas de violência que desencadeiam suicídio, depressões, desigualdades e desequilíbrio social. “Se queremos preservar um futuro, devemos combater essas violências como todas as demais violências que enfrentamos (como um crime). Os índices de suicídio entre os jovens, o aumento do número de casos de depressão entre os adolescentes apontam de certa forma para a emergência do fato”, contou.
De acordo com o Boletim Epidemiológico da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente, em 2021 o Sistema de Informações de Agravos de Notificação (Sinan) registrou 114.159 casos de violência autoprovocada no Brasil. No Espírito Santo, de 2010 a 2021, os casos subiram 36,9%. Vale destacar que esses dados podem estar subestimados, já que muitos episódios dessa natureza são subnotificados.
O Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) aponta o suicídio como a segunda principal causa de mortes de adolescentes entre 15 e 19 anos, e a quarta entre jovens de 20 e 29 anos. No recorte para orientação sexual e identidade de gênero, o documento revelou que pessoas LGBT apresentaram percentuais de autolesão por meio de objetos cortantes aproximadamente 50% maiores que pessoas não LGBT.
“Estamos oferecendo poucos lugares de escuta e muitas cobranças que já não dialogam com a realidade de nossos jovens. A sociedade precisa reconhecer as mudanças e oferecer condições para que as pessoas possam existir livres de estereótipos e retrocessos”, frisou o psicólogo.
De acordo com Gabriel, a sociedade precisa acompanhar e oferecer garantias para que todos tenham condições de se reconhecerem no mundo e ocuparem os espaços que desejam e precisam ocupar, caso contrário não há perspectiva de futuro.
“Viveremos apenas com a ideologia e memória de um passado, um retrocesso que já não faz mais sentido num mundo que tem atravessado tantas transformações sociais”, pontuou.
Quando o lugar de segurança se torna um lugar de dor

Costuma-se dizer que família é a base de tudo e que em situações de perigo é nela que se encontra refúgio. No entanto, nem sempre é assim que acontece, especialmente quando se tem uma pessoa da comunidade LGBTQIAPN+ presente no meio de parentes intolerantes.
Um jovem de 19 anos que preferiu não se indentificar contou em entrevista que foi obrigado a falar abertamente com a sua família sobre a sua orientação sexual aos 16 anos. “Ocorreu uma situação na minha casa que levou os meus pais a vasculharem o meu telefone, invadindo a minha privacidade. Foi aí que me senti obrigado a falar sobre a minha sexualidade”, contou.
Questionado sobre a reação dos seus pais ao descobrirem que ele era homossexual, o jovem contou que não houve conversa, eles simplesmente não aceitaram e fim da história. “Já tive telefone quebrado, itens pessoais jogados fora, não tinha liberdade dentro da própria casa, um verdadeiro terror”.
Segundo o relato, quando tudo ocorreu ele ainda era muito novo e isso causou uma enorme confusão na sua cabeça, pois ele não conseguia entender o porque a sua família, que até então era o seu porto seguro, e a sua casa, lugar onde ele deveria se sentir seguro, estava o deixando mal.
“Quando completei 19 anos tomei a iniciativa de me mudar de casa, já estava trabalhando como clt e fui viver a minha vida, infelizmente acabei sujando meu nome com dívidas e como não tinha nenhum apoio voltei para a casa dos meus pais.Ter voltado foi ainda pior, as ofensas só pioraram, mas eu não tive escolha”, contou.
Estudante de pedagogia, o jovem sonha em conquistar a independência financeira para conseguir sair da casa dos pais e viver livre de julgamentos. “Nunca espere nada de ninguém, realmente muitos podem te ajudar mas se você não fazer o seu corre você não sai de lugar nenhum. Sempre pense dois passos antes, você tem que estar preparado para as diversas situações que podem ocorrer”.
Ele ainda falou sobre a dificuldade de encontrar uma rede de apoio, o jovem afirmou em entrevista que todos os seus familiares sabem o que ele passa e mesmo assim ninguém o ajuda. “Infelizmente sou uma pessoa de baixa renda, como muitos são, e a informação é muito importante para quem esta passando por isso. Na época eu não sabia sobre psicólogos que atendem em Unidade de Saúde e faculdades com consulta grátis e acabei me virando sozinho”, finalizou.
Da descoberta a superação
Outra história marcante é a da Analista de Recursos Humanos Larissa Pinheiro. Ela contou que diferente da grande maioria que se descobre na adolescência, ela só foi se descobrir como uma mulher lésbica aos 23 anos de idade. “Claro que esse período é de muitos questionamentos, perguntas, dúvidas e um pouco de cobrança interna. Quando fiz 24 anos aceitei que estava amando uma mulher”, relatou.
Segundo ela, a princípio, a ideia não era compartilhar com seus familiares naquele momento, mas como reside em uma cidade pequena, sua mãe acabou descobrindo por terceiros. “Meu maior medo era a minha avó, mas ela me surpreendeu positivamente. Ela me acolheu e me abraçou muito. Ao contrário da minha mãe, que me disse coisas sobre preferir ter uma filha drogada ou prostituta a uma filha sapatão”, relembrou.
Larissa revelou em entrevista que ficou por quase 8 meses sem conversar com sua mãe e quase 2 anos com a relação estremecida. “A rejeição faz subir um sentimento de estar perdido no mundo. Uma sensação de ter perdido a identidade, principalmente quando vem da sua família. Que é o maior porto seguro que somos ensinados a ter”, frisou.
Ela contou que estava passando por uma depressão muito forte nesse período que acabou piorando após os episódios. “Eu saí de casa e iniciei minha vida sozinha. Busquei ajuda psiquiátrica e terapia. Apoio muito forte de amigos e da minha namorada que está comigo até hoje. Inclusive, gostaria de reforçar o quanto o CVV foi importante na minha jornada de cura”, contou.
Questionada sobre qual conselho daria para outras pessoas que sofrem ou tem medo sofrer tudo o que vivenciou, ela afirmou sobre a importância de se viver um dia de cada vez, pois ela acredita ser muito difícil uma pessoa sair do casulo que é ensinado a vida inteira a ficar.
“Romper a porta do armário é doloroso, mas viver sendo quem se é, é impagável. É inexplicavelmente libertador amar e ser amado. Sem medo”.
Ela contou que hoje a relação de sua família com a sua namorada é bastante harmônica e, apesar de ter sido um processo longo e doloroso, o final tem sido recompensador. “Minha família me aceita, aceita meu relacionamento e a maior vitória da minha vida é poder sentar no domingo com a minha família e minha namorada e almoçarmos juntos. Bem como comercial de margarina”, completou.
Como lidar com a homofobia dentro de casa?
Especialista em Gênero e Sexualidade e mestre em Saúde Coletiva, na área de sexualidade, Gabriel contou que no caso das pessoas vivendo a LGBTQIAPN+, quando o assunto é como lidar com a homofobia dentro de casa, elas precisam entender que esse desejo de reconhecimento pode não vir no momento que precisam.
“Não adianta ficar esperando essa transformação das pessoas porque cada um tem seu tempo e suas próprias barreiras para lidar. Elas precisam procurar primeiro em si, o que de fato lhe faz se sentir completa e satisfeita consigo mesma e em seguida procurar pessoas que auxiliem nesse encontro consigo mesmas”, explicou.
Segundo o psicólogo é importante se ter em mente de que família são aquelas pessoas que auxiliam o individuo em sua jornada de autoconhecimento e que não necessariamente precisam compartilhar da mesma genética. “Para as famílias e demais interessados em auxiliar, eu diria que o importante é entender que cada um precisa dar conta de sua própria verdade e não adianta tentar comparar a sua sexualidade com a sexualidade dos outros”, destacou.
Ainda de acordo com o especialista, é um importante frisar que nem um pai ou uma mãe podem moldar ou forjar a sexualidade de um filho porque somente o próprio sujeito é capaz de dizer o que de fato lhe faz se sentir satisfeito.
“Não adianta tentar entender o que o outro sente quando come uma maçã, por exemplo, só eu sei o que eu sinto nessa condição. Precisamos criar canais de escuta sem julgamento, porque só assim podemos verdadeiramente auxiliar a todos a se reconhecerem melhor”, explicou.
O psicólogo completou ainda, que uma forma de acolher essas pessoas é sempre buscando oferecer um espaço seguro para que cada um reflita por si mesmo sobre sua própria condição e entenda o que é saudável ou não quando visa alcançar seu próprio desejo.
“A família é, sem dúvidas, um dos mais importantes canais de escuta e suporte, pode ser um território seguro para os sujeitos que se orientem em torno do próprio desejo, mas só cumpre esse papel quando não são excludentes”, finalizou.
Já ouviu falar sobre o Centro de Valorização da Vida?

O Centro de Valorização da Vida (CVV) é uma entidade nacional fundada em 1962, financeira e ideologicamente independente. Sem viés religioso, político-partidário ou empresarial. Uma associação civil sem fins lucrativos, filantrópica, reconhecida como de Utilidade Pública Federal desde 1973.
A instituição é associada ao Befrienders Worldwide, que congrega entidades congêneres de todo o mundo, e participou da força-tarefa que elaborou a Política Nacional de Prevenção do Suicídio, do Ministério da Saúde, com quem mantém, desde 2015, um acordo de cooperação que permitiu a implantação da linha telefônica 188, linha nacional gratuita de prevenção do suicídio. Formada exclusivamente por voluntários, o CVV tem como objetivo oferecer apoio emocional e prevenção do suicídio gratuitamente, garantindo o sigilo e anonimato.
De acordo com o voluntário do CVV, Alan Teixeira Lima, quem procura o projeto normalmente está se sentindo solitário ou precisa conversar sem julgamentos, críticas ou comparações. “A demanda daqueles que sofrem homofobia é uma das diversas demandas que atendemos. Acolhemos as pessoas que nos procuram de forma a deixar que elas expressem aquilo que estão sentindo naquele momento, seja através de choros, silêncios, palavras numa conversa em que ela possa desabafar e se sentir acolhida e compreendida”, explicou.
Cabe destacar que o centro oferece atendimento pelo telefone 188 (24 horas e sem custo de ligação), por chat, e-mail [email protected], carta e pessoalmente, tanto nos postos quanto em atividades na comunidade, como palestras, rodas de conversas e grupos de apoio aos sobreviventes do suicídio.
Ainda segundo o voluntário, por meio desses canais são realizados mais de 3 milhões de atendimentos anuais, por aproximadamente 3.500 voluntários, presentes em 20 estados, além do Distrito Federal. “Caso queira ser voluntário, é preciso ter mais de 18 anos, participar de um curso de capacitação e seleção de novos voluntários, assim como ter disponibilidade para plantões semanais, reuniões mensais e cursos de atualização e aperfeiçoamento. As inscrições podem ser feitas pelo link: cvv.org.br/seja-voluntario”, finalizou.










