Crise no STF: o poder à luz do Reino de Deus

Crise no STF: o poder à luz do Reino de DeusA crise no STF envolvendo os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça expõe algo maior do que uma divergência jurídica. Quando integrantes da mais alta Corte do país trocam acusações e discutem procedimentos que podem alcançar seus próprios interesses, não está em jogo apenas a reputação individual de cada ministro. Está em jogo a confiança da sociedade na instituição responsável por guardar a Constituição.

A sessão realizada pelo Supremo Tribunal Federal na terça-feira (15) terminou sem uma decisão definitiva sobre os procedimentos relacionados aos dois ministros no caso Banco Master. O mérito das suspeitas não foi examinado. O pedido de vista apresentado por Flávio Dino interrompeu a discussão sobre a forma de análise dos casos. Posteriormente, outras sessões foram suspensas, mantendo o impasse dentro da Corte.

Por isso, é indispensável afirmar duas verdades simultaneamente: ninguém está acima da lei, mas ninguém deve ser considerado culpado antes de uma apuração justa. Suspeitas envolvendo Moraes, Mendonça ou qualquer outra autoridade precisam ser esclarecidas com rigor, direito de defesa e absoluta imparcialidade.

Entretanto, o episódio também oferece uma oportunidade para refletir sobre algo que o Evangelho conhece profundamente: a sedução do poder.

Quando quem julga é julgado

Divergências jurídicas são naturais em uma corte constitucional. Ministros podem discordar sobre a interpretação da lei, o rito processual e a competência para analisar determinado caso. O problema começa quando as divergências deixam de ser apresentadas com serenidade e parecem se transformar em confrontos pessoais.

O Supremo possui autoridade para julgar questões decisivas para o Brasil, mas também é julgado pela confiança da população. Essa confiança não pode ser exigida por decreto nem preservada pela força das palavras. Ela nasce da coerência dos atos, da transparência dos procedimentos e da percepção de que as mesmas regras alcançam todas as pessoas.

Impedimento e suspeição não representam condenação nem confissão de culpa. São mecanismos destinados a proteger a imparcialidade do julgamento. Em situações excepcionais, não basta que uma decisão seja tecnicamente válida. É necessário que ela seja reconhecida pela sociedade como independente e justa.

Prestar contas não enfraquece uma autoridade. Ao contrário: a recusa em prestar contas é que destrói sua legitimidade.

Crise no STF: Estátua da Justiça diante do prédio do Supremo Tribunal Federal, em Brasília
A autoridade do Supremo depende da percepção de que suas decisões são imparciais, transparentes e submetidas à Constituição (Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil)

A sedução de um poder sem limites

A crise no STF não deve ser analisada apenas como um problema de determinados ministros. Ela revela uma tentação comum a todo ser humano: utilizar a posição recebida para proteger a si mesmo, controlar os outros e afastar qualquer questionamento.

Jesus conhecia perfeitamente o funcionamento dos poderes deste mundo. Em Marcos 10, ele disse aos discípulos:

“Vocês sabem que os que são considerados governadores dos povos os dominam, e os seus maiorais exercem autoridade sobre eles. Mas entre vocês não será assim” (Marcos 10.42-43, NAA).

Cristo não condena a existência de toda autoridade. O próprio Deus estabeleceu autoridades para promover a justiça, conter o mal e preservar a ordem. O que Jesus confronta é a transformação da autoridade em domínio, privilégio e instrumento de autopreservação.

O poder deixa de cumprir sua vocação quando passa a servir àquele que o exerce, e não à justiça. Isso pode acontecer em um tribunal, em um governo, em uma empresa, em uma família e até mesmo dentro de uma igreja.

“Entre vocês não será assim”

A resposta de Jesus à sede humana por poder não foi apenas uma recomendação de moderação. Ele apresentou outra forma de viver:

“Quem quiser tornar-se grande entre vocês, que se coloque a serviço dos outros; e quem quiser ser o primeiro entre vocês, que seja servo de todos” (Marcos 10.43-44, NAA).

O Reino de Deus é contracultural porque redefine completamente a grandeza. Nos reinos deste mundo, grande é aquele que consegue impor sua vontade. No Reino de Cristo, grande é aquele que serve. Neste mundo, o poder é frequentemente usado para evitar questionamentos. No Reino, a autoridade se dispõe a prestar contas. Neste mundo, admitir um erro pode ser interpretado como fraqueza. No Reino, confessar o pecado é o começo da restauração.

O maior exemplo é o próprio Cristo. Embora possuísse toda a autoridade, ele não usou seu poder para preservar a si mesmo. Conforme Filipenses 2.5-8, Jesus assumiu a forma de servo, humilhou-se e foi obediente até a morte de cruz.

Os homens procuram o poder para não serem julgados. Cristo, sendo o justo Juiz, submeteu-se ao julgamento dos homens para salvar pecadores.

Pintura de Tintoretto representando Jesus lavando os pés dos discípulos
Ao lavar os pés dos discípulos, Jesus revelou uma autoridade marcada pela humildade e pelo serviço (Tintoretto/Museu Nacional do Prado)

A Igreja também será julgada

Seria confortável limitar essa reflexão aos ministros do Supremo. Entretanto, as palavras de Jesus se dirigem primeiro aos seus próprios discípulos: “Entre vocês não será assim.”

A Igreja perde sua credibilidade quando denuncia nos palácios aquilo que tolera nos púlpitos. Comunidades cristãs também podem reproduzir a sede por poder, o culto à personalidade, a transformação de adversários em inimigos, a manipulação da verdade e a resistência de líderes à prestação de contas.

Em reflexão recente, o reverendo Pedro Muniz reconheceu que a Igreja nem sempre oferece um bom testemunho. Em vez de se apresentar como uma alternativa à lógica deste mundo, muitas vezes ela reproduz seus vícios. Ainda assim, ele aponta para a igreja local — formada por pessoas comuns que aprendem a perdoar, repartir, servir e permanecer — como um sinal de que outra maneira de viver é possível.

Essa é uma distinção importante. A Igreja não anuncia o Reino apenas pelo conteúdo de sua pregação, mas também pela forma como vive. Quando confessa seus pecados, corrige seus líderes, protege os vulneráveis, reparte a mesa e aprende a discordar sem destruir o outro, ela torna visível a realidade do governo de Cristo.

Um Reino diferente deste mundo

Jesus declarou diante de Pilatos: “O meu Reino não é deste mundo” (João 18.36, NAA). Isso não significa que seu Reino seja indiferente ao que acontece no mundo. Significa que ele não nasce das mesmas fontes nem utiliza os mesmos métodos dos poderes humanos.

A Igreja não existe para conquistar o centro do poder reproduzindo os seus vícios. Ela foi chamada para formar comunidades que antecipem, ainda que de maneira imperfeita, a justiça, a comunhão e a paz do Reino que virá.

Isso não exige que os cristãos abandonem a política ou deixem de cobrar transparência das instituições. Pelo contrário. A fé cristã nos impede de oferecer lealdade incondicional a ministros, presidentes, partidos, pastores ou ideologias. Toda autoridade humana é limitada, provisória e responsável diante de Deus.

A crise no STF exige uma resposta institucional clara: apuração rigorosa, devido processo legal, direito de defesa, transparência e imparcialidade. Justiça seletiva, usada tanto para proteger quanto para perseguir, deixa de ser justiça.

Mas essa crise também deve levar a Igreja a examinar a si mesma. Não podemos exigir autocontenção do Supremo e cultivar líderes religiosos sem limites. Não podemos cobrar transparência dos ministros e esconder pecados em nossas comunidades. Não podemos denunciar a sede de poder em Brasília enquanto disputamos influência, prestígio e controle dentro da Igreja.

Cristãos reunidos em momento de comunhão em pequeno grupo
A Igreja anuncia o Reino de Deus também pela comunhão, pelo serviço e pelo cuidado concreto entre seus membros

O poder pertence ao Cordeiro

Nossa esperança não está em encontrar homens suficientemente poderosos para salvar todas as instituições. Também não está na destruição das autoridades ou no aprofundamento do descrédito público. O cristão deve desejar instituições justas, responsáveis e submetidas a limites.

Nossa esperança definitiva está em Jesus Cristo, o Rei que não usou sua autoridade para proteger a si mesmo, mas entregou a própria vida para salvar aqueles que estavam condenados.

Diante dele, ministros, governantes, pastores e cidadãos serão chamados a prestar contas. Nenhuma toga, mandato, título religioso ou posição social permanecerá acima de seu julgamento.

Os reinos deste mundo passam. O Reino de Cristo permanece. E somente sob o governo daquele que morreu e ressuscitou podemos aprender uma forma verdadeiramente nova de viver: não pela sede de dominar, mas pela liberdade de servir.

Gustavo Gouvêa
Gustavo Gouvêahttps://eshoje.com.br/author/gustavo-gouvea/
Jornalista graduado pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) em 2009; atuou nos principais veículos de comunicação do ES; tem mestrado em Ciências Sociais pela Ufes (2019), é teólogo formado pelo Cetebes (Centro Teológico Batista do ES) em 2023 e é músico.

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