Antes de qualquer coisa é preciso dizer que este que vos escreve é um cristão protestante, e tem profundo amor por Cristo e sua Igreja. “É preciso obedecer antes a Deus do que aos homens” (Atos 5:29).
Dito isso, vamos aos fatos.
Jesus nunca prometeu popularidade aos seus discípulos. Pelo contrário. Em um mundo marcado pelo pecado, pela idolatria e pela injustiça, o Evangelho inevitavelmente confrontaria estruturas humanas e despertaria oposição. “Se o mundo os odeia, tenham em mente que antes me odiou” (João 15:18, NVI).
Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus. Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem, e vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vós. Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós (Mateus 5.10-12 ARA)
A perseguição aos cristãos é uma realidade histórica e bíblica, mas essa passagem bíblica e outras que dizem respeito ao tema têm sido usadas de forma inadequada por grande parte dos evangélicos no Brasil de hoje.
Existe uma pergunta urgente que a igreja brasileira precisa voltar a fazer, especialmente em tempos eleitorais: toda rejeição sofrida por alguém que se diz cristão é, de fato, perseguição por causa de Cristo e sua justiça revelada no Evangelho?
Ou, em muitos casos, trata-se apenas da consequência inevitável de um antitestemunho público?
Essa distinção é essencial. E ignorá-la tem custado caro ao testemunho da igreja evangélica brasileira.
Nem todo sofrimento é martírio
O apóstolo Pedro faz uma advertência extremamente importante aos cristãos:
“Pois, se vocês fazem o mal e são castigados, qual é o merecimento de suportarem com paciência o castigo? Mas, se vocês sofrem por terem feito o bem e suportam esse sofrimento com paciência, Deus os abençoará por causa disso, pois foi para isso que ele os chamou. O próprio Cristo sofreu por vocês e deixou o exemplo, para que sigam os seus passos” (1 Pedro 2:20-21, Ntlh).
O texto deixa implícita uma verdade frequentemente esquecida: existe sofrimento causado pela fidelidade ao Evangelho — e existe sofrimento provocado pelos próprios erros, pecados e atitudes arrogantes de quem se diz cristão.
A Bíblia jamais glorificou grosseria, deboche, arrogância ou agressividade verbal como sinais de coragem espiritual. Pelo contrário. O padrão neotestamentário para o testemunho cristão sempre foi marcado pela verdade acompanhada de mansidão.
Pedro escreve:
“Estejam sempre preparados para responder a qualquer pessoa que lhes pedir a razão da esperança que há em vocês. Contudo, façam isso com mansidão e respeito” (1 Pedro 3:15, NVI).
Mansidão e respeito. Não escárnio. Não humilhação pública. Não brutalidade verbal. Não idolatria política travestida de zelo espiritual.
Ainda assim, parte significativa do evangelicalismo brasileiro passou a tratar comportamentos incompatíveis com o fruto do Espírito como se fossem expressão legítima de coragem cristã.

Quando a política substitui o caráter
Nos últimos anos, o Brasil assistiu ao crescimento de um fenômeno perigoso: a transformação de líderes políticos em símbolos quase messiânicos dentro de determinados setores da igreja evangélica.
Nesse ambiente, muitos cristãos passaram a relativizar pecados públicos em nome de um suposto “bem maior”. Deboches em plenário, falas agressivas, desumanização de adversários, ausência de humildade, incapacidade de reconhecer erros e comportamentos incompatíveis com a ética cristã passaram a ser tratados não como escândalo, mas como demonstração de força.
O problema é que Cristo nunca chamou sua igreja para vencer guerras culturais através da arrogância.
O apóstolo Paulo descreve o fruto do Espírito em termos completamente opostos:
“Mas o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio” (Gálatas 5:22-23, NVI).
É impossível ignorar o abismo existente entre esse padrão bíblico e a forma como muitos agentes políticos ligados ao universo evangélico têm se comportado publicamente.
Isso não significa que cristãos devam abandonar a política. Muito pelo contrário. A tradição reformada sempre compreendeu que a fé possui implicações públicas e sociais. O problema surge quando o poder político deixa de ser instrumento de serviço ao próximo e passa a funcionar como objeto de idolatria.
O teólogo reformado holandês Abraham Kuyper defendia que Cristo é Senhor sobre todas as áreas da existência humana, inclusive a política. Mas isso nunca significou licença para transformar líderes terrenos em representantes incontestáveis de Deus.
A idolatria política acontece quando cristãos passam a pecar contra os princípios do Evangelho para proteger seus “ungidos” ideológicos. E isso tem acontecido com frequência assustadora.
O nome de Deus blasfemado por causa da igreja
O apóstolo Paulo faz uma denúncia severa em Romanos:
“Como está escrito: ‘O nome de Deus é blasfemado entre os gentios por causa de vocês’” (Romanos 2:24, NVI).
Talvez esse seja um dos textos mais atuais para a igreja brasileira contemporânea.
Porque uma parcela crescente da sociedade já não rejeita apenas determinadas posições políticas defendidas por evangélicos. Muitas pessoas passaram a associar o próprio cristianismo à intolerância, agressividade, fanatismo e desumanização do próximo.
E aqui existe uma diferença importante: rejeitar caricaturas religiosas não é o mesmo que rejeitar Cristo.

Quando figuras públicas manifestam repulsa ao comportamento de certos grupos evangélicos, muitos cristãos interpretam automaticamente isso como perseguição ao Evangelho. Mas talvez a pergunta mais honesta seja outra: a rejeição é ao Jesus revelado nas Escrituras ou ao comportamento de pessoas que falam em nome dEle enquanto negam Seu caráter?
Jesus acolhia pecadores sem negociar a verdade. Confrontava injustiças sem perder a dignidade. Denunciava o pecado sem transformar pessoas em espetáculo de humilhação pública.
Há uma diferença profunda entre firmeza moral e brutalidade moral.
Líderes também discipulam culturalmente
Toda liderança pública possui poder pedagógico.
Políticos, pastores, comunicadores e influenciadores moldam imaginários coletivos. Seus comportamentos legitimam práticas sociais. Quando uma liderança transforma o desprezo em linguagem política, parte de seus seguidores aprenderá a desprezar. Quando o orgulho se torna virtude pública, a humildade passa a ser vista como fraqueza.
Nesse sentido, a crise atual não é apenas política. É espiritual e formativa.
A normalização da agressividade dentro do discurso religioso produziu uma geração de cristãos mais treinada para vencer discussões do que para amar pessoas.
A filósofa e cientista política Hannah Arendt alertava que ambientes polarizados tendem a destruir a capacidade humana de enxergar o outro como semelhante moral. Embora Arendt analisasse contextos políticos mais amplos, sua percepção ajuda a compreender o risco espiritual da idolatria ideológica: quando a identidade política se torna absoluta, o próximo deixa de ser alguém a ser amado e passa a ser tratado como inimigo a ser eliminado.
Isso contradiz frontalmente o Evangelho.
A igreja não precisa de salvadores políticos
A esperança cristã jamais esteve depositada em partidos, governos ou líderes carismáticos. O Reino de Deus não será estabelecido através de projetos eleitorais.
Quando cristãos passam a defender políticos com fervor quase religioso — relativizando pecados, justificando injustiças e atacando irmãos na fé que pensam diferente — algo profundamente perigoso acontece: a política ocupa o lugar que pertence apenas a Cristo.
E toda idolatria cobra um preço.
O teólogo reformado João Calvino dizia que o coração humano é uma “fábrica de ídolos”. Em tempos de polarização, muitos desses ídolos usam terno, discursam em plenários e possuem milhões de seguidores nas redes sociais.
Enquanto isso, o testemunho público da igreja segue sendo corroído. Não pela fidelidade ao Evangelho. Mas pelo abandono dele.

O chamado urgente ao arrependimento
A igreja brasileira não precisa de menos Evangelho na política. Precisa de mais Evangelho dentro dos próprios cristãos que fazem política.
Precisa de líderes capazes de pedir perdão. De reconhecer excessos. De tratar adversários com dignidade humana. De defender convicções sem abandonar a mansidão. De compreender que coragem cristã não é sinônimo de brutalidade.
O mundo jamais deixará de se opor à verdade do Evangelho. Mas a igreja precisa ter honestidade para discernir quando está sendo rejeitada por causa de Cristo — e quando está apenas colhendo as consequências de seu próprio antitestemunho.
Porque existe uma diferença enorme entre carregar a cruz de Jesus e sofrer pelos próprios pecados enquanto se usa o nome dEle como escudo político.
E talvez uma das formas mais urgentes de fidelidade cristã hoje seja justamente esta: abandonar os falsos messias e voltar ao Verdadeiro, santificando-O em nosso coração como verdadeiro Senhor.
Que Deus te abençoe.
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