O evangelista Mateus era autista? Quando Deus usa mentes “fora do padrão”

O evangelista Mateus era autista? Quando Deus usa mentes “fora do padrão”“O evangelista Mateus era autista?”. A dúvida se espalhou nas redes e rodas de conversa após a série The Chosen apresentar Mateus com traços associados ao Transtorno do Espectro Autista: comportamento mais literal, dificuldade social, sensibilidade e um foco impressionante em detalhes.

Não é por acaso que trazemos esse assunto ao artigo de hoje. Começa neste 1º de abril o Abril Azul, mês de conscientização sobre o autismo — um convite para enxergarmos com mais empatia e graça aqueles que percebem e interagem com o mundo de maneira diferente, como supostamente era o caso de Mateus.

Por que The Chosen retrata Mateus assim?

O ponto de partida dessa discussão está na decisão criativa do diretor de The Chosen, Dallas Jenkins. Ele já explicou em algumas ocasiões o motivo da abordagem, argumentando que, embora o termo “autismo” não existisse na época, o Evangelho escrito por Mateus fornece pistas sobre sua neurodivergência.

“Eu vi três coisas que se destacaram: Primeiro, ele era um cara de números… Segundo, ele era um cara de fatos; todo o seu primeiro capítulo é uma genealogia em três seções iguais de 14 nomes (…) Observando o Evangelho de Mateus, percebi que o discípulo é mais detalhista do que os outros, quase chegando à meticulosidade (…) As características observadas em Mateus se assemelhavam a traços do autismo, tornando essa interpretação plausível”.

O evangelista Mateus era autista? Quando Deus usa mentes “fora do padrão”
Dallas Jenkins, diretor do The Chosen, não afirma que Mateus é autista, mas diz que as características observadas em nele se assemelham a traços do autismo como hoje conhecemos

Dallas deixa claro que, embora as características do evangelista revelem traços semelhantes ao de pessoas portadoras de TEA, nunca afirmou categoricamente que Mateus era autista.

“O que quisemos foi mostrar alguém que vê o mundo de maneira diferente — e como Jesus o encontra exatamente assim, sem exigir que ele mude para ser chamado”

Essa fala é central. A série não tenta reescrever a Bíblia, mas dar forma visual a uma verdade bíblica profunda: Jesus chama pessoas reais, com suas particularidades.

Uma leitura possível, e responsável

Essa percepção também aparece em reflexões contemporâneas dentro da própria igreja brasileira. O pastor presbiteriano Marcos Botelho comenta:

“Mateus é um ‘nerd’… ele é hiperfocado. Não é à toa que The Chosen coloca ele no espectro autista. Porque tem alguns tipos de autismos têm o hiperfoco como característica. É muito interessante essa liberdade poética que a série usou com Mateus ali, porque a característica do texto é que é um texto muito bem construído, e foi construído para dizer que toda a Bíblia hebraica se cumpre em Jesus…”

A fala ajuda a iluminar algo importante: o Evangelho de Mateus carrega marcas claras de organização, repetição e estrutura lógica. Não por acaso, ele enfatiza diversas vezes o cumprimento das profecias.

O evangelista Mateus era autista? Quando Deus usa mentes “fora do padrão”
O pastor Marcos Botelho encontra plausibilidade no retrato que The Chosen faz de Mateus, como alguém que apresenta traços de autismo

Aparece 11 vezes a frase ‘para que se cumpra as Escrituras’, ‘para que se cumpram os profetas’… Por isso, também, Mateus foi escolhido para ocupar a transição entre Bíblia hebraica e o Novo Testamento“, completa o pastor.

E aqui é preciso equilíbrio.

O que a Bíblia realmente nos mostra

O Mateus bíblico não é apresentado com um diagnóstico — e isso nunca foi o ponto. Ele era um cobrador de impostos, alguém rejeitado por sua própria gente. Ainda assim, foi chamado por Jesus:

“Seguindo adiante, Jesus viu um homem chamado Mateus, sentado na coletoria, e lhe disse: ‘Siga-me’. Mateus levantou-se e o seguiu” (Mateus 9:9, NVI)

Simples, direto e transformador.

O que vemos a partir daí é alguém que escreve de forma cuidadosa, organizada e profundamente intencional. Seu Evangelho não é caótico — é estruturado com excelência para mostrar que Jesus é o cumprimento das Escrituras.

Mas, afinal, Mateus era autista?

A resposta honesta é: não sabemos — e não podemos afirmar.

O conceito moderno de autismo não existia no primeiro século. Não há qualquer evidência histórica ou bíblica que permita um diagnóstico retrospectivo. Qualquer afirmação nesse sentido seria especulação.

Mas isso não encerra a reflexão. Pelo contrário, ela começa aqui.

Porque, independentemente de rótulos, uma verdade permanece: Deus usou a mente singular de Mateus de forma extraordinária.

O que a teologia nos ensina

A tradição reformada oferece uma lente segura para essa discussão. João Calvino destaca que nada em nós é acidental diante da soberania de Deus. Já Herman Bavinck afirma que a graça não destrói a natureza — ela a redime e a utiliza.

A própria Escritura reforça:

“Mas Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios…” (1 Coríntios 1:27, NVI)

“Eu te louvo porque me fizeste de modo especial e admirável…” (Salmo 139:14, NVI)

Deus não trabalha com um molde único. Ele trabalha com pessoas.

Abril Azul: o que isso muda na prática?

Aqui está o ponto que não pode ser ignorado: Se Jesus chamou alguém como Mateus — alguém visto como inadequado, deslocado, fora do padrão — então seus seguidores são chamados a fazer o mesmo.

Isso significa, na prática que:

  • Devemos trocar julgamentos e preconceitos por escuta graciosa;
  • Devemos substituir quaisquer tipos de rótulos por relacionamentos verdadeiros;
  • Devemos valorizar, e não corrigir à força, aquilo que é singular;
  • Devemos criar espaços reais de inclusão na igreja e na sociedade.

O mundo tende a afastar o que não entende. Mas Cristo faz o oposto: Ele se aproxima.

O evangelista Mateus era autista? Quando Deus usa mentes “fora do padrão”
Muitos adultos descobriram que são portadores de autismo após o conhecimento do transtorno ser divulgado na grande mídia

A beleza do Evangelho para todos

Talvez, no fim das contas, a pergunta “Mateus era autista?” não seja a mais importante. A pergunta que devemos nos fazer agora é: como nós tratamos aqueles que são diferentes?

E isso o Evangelho responde com clareza.

Jesus não exige que alguém se encaixe para então amar. Ele ama, chama e transforma — acolhendo a pessoa exatamente como ela é.

E é isso que torna o Evangelho tão poderoso. Ele alcança o rejeitado. Dá propósito ao improvável.

E revela que, nas mãos de Deus, até aquilo que o mundo considera “fora do padrão” pode se tornar instrumento de algo grandioso e de valor eterno.

Gustavo Gouvêa
Gustavo Gouvêahttps://eshoje.com.br/author/gustavo-gouvea/
Jornalista graduado pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) em 2009; atuou nos principais veículos de comunicação do ES; tem mestrado em Ciências Sociais pela Ufes (2019), é teólogo formado pelo Cetebes (Centro Teológico Batista do ES) em 2023 e é músico.

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