O assassinato da soldado Gisele Alves pelo próprio marido, o tenente-coronel Geraldo Neto, não é apenas mais um caso de violência doméstica. É a expressão brutal de uma lógica distorcida de poder dentro de um relacionamento que deveria ser marcado por cuidado, proteção e amor.
Segundo relatos, havia indícios de controle psicológico, financeiro e sexual — sinais que, infelizmente, não são incomuns em relações abusivas. O casamento, que deveria ser espaço de segurança, tornou-se cenário de opressão.
Antes do crime, uma fala do agressor chama atenção não apenas pela frieza, mas pelo que revela:
“Casamento é uma via de mão dupla. Eu contribuo com o dinheiro, sou o provedor. Você contribui com carinho, atenção, amor e sexo (…) Eu te trato como todo homem macho alfa trata sua esposa”
Mais do que uma justificativa pessoal, essa declaração expõe uma visão equivocada — e perigosa — sobre o que significa ser homem, marido e líder dentro do casamento.
A mentira do “macho alfa”
A ideia de “macho alfa” tem ganhado espaço em discursos populares, especialmente nas redes sociais. Nessa lógica, o homem é visto como dominante, provedor absoluto e autoridade incontestável, enquanto a mulher ocupa um papel secundário, submisso e funcional.
O relacionamento, nesse modelo, deixa de ser uma aliança e passa a ser uma espécie de contrato: o homem oferece sustento financeiro; a mulher, em troca, deve oferecer afeto, atenção e até o próprio corpo.
Mas isso não é liderança — é distorção.
Essa visão não nasce das Escrituras, mas de construções culturais contemporâneas que misturam insegurança, controle e uma ideia equivocada de masculinidade. O resultado é um modelo que reduz o casamento a troca e poder, não a compromisso e amor.
Quando distorções ganham linguagem religiosa
O problema se agrava quando esse tipo de pensamento tenta se vestir de linguagem bíblica. Termos como “liderança masculina” e “submissão da mulher” são frequentemente usados fora de contexto para justificar comportamentos que a própria Bíblia condena.
A Escritura não legitima autoritarismo. Ela não apoia controle, manipulação ou violência — em nenhuma de suas formas.
Pelo contrário. O padrão bíblico para o homem no casamento é radicalmente diferente:
“Maridos, amem suas mulheres, assim como Cristo amou a igreja e entregou-se por ela” (Efésios 5:25 – NVI)
O modelo não é o dominador. É Cristo. E Cristo não oprime. Ele se entrega.
O reformador João Calvino, ao comentar esse texto, afirma que o amor do marido deve ser sacrificial, voltado ao bem da esposa, e jamais opressivo. Ou seja: qualquer forma de autoridade que fira, diminua ou controle não vem de Deus — vem da distorção do coração humano.

O que NÃO é o homem bíblico
Diante disso, é necessário deixar claro: o homem bíblico não se parece com o “macho alfa” vendido por muitos discursos atuais.
Ele não é:
controlador
violento — nem fisicamente, nem emocionalmente
manipulador
alguém que exige submissão como imposição
alguém que trata amor e sexo como dívida conjugal
A Bíblia orienta o oposto:
“Maridos, sejam sábios no convívio com suas mulheres e tratem-nas com honra…” (1 Pedro 3:7 – NVI)
Honra não combina com opressão. Respeito não combina com controle. E amor não combina com violência.
O que é o homem bíblico no casamento
Se o “macho alfa” distorce, o Evangelho reconstrói. O homem bíblico é aquele que molda sua vida não pela cultura, mas por Cristo.
Ama de forma sacrificial
O padrão é claro: amar como Cristo amou. Isso significa abrir mão de si mesmo em favor da esposa, e não exigir que ela se molde às suas vontades.
Como destaca o teólogo John Stott, o marido é chamado a amar, não a exercer poder tirânico. O amor cristão não domina — ele se doa.
Lidera servindo, não dominando
O próprio Jesus redefine liderança:
“Pois nem mesmo o Filho do Homem veio para ser servido, mas para servir…” (Marcos 10:45 – NVI)
Se Cristo lidera servindo, qualquer modelo de liderança baseado em imposição está em desacordo com o Evangelho.
Liderar, à luz da Bíblia, não é mandar. É assumir responsabilidade, cuidar e guiar com humildade.

Protege, honra e reconhece dignidade
A Escritura vai além ao afirmar que a mulher não é inferior, mas participante da mesma graça:
“…como coerdeiras do dom da graça da vida…” (1 Pedro 3:7 – NVI)
Isso destrói completamente a ideia de hierarquia de valor. Não existe “beta”. Existe dignidade compartilhada diante de Deus.
O teólogo Herman Bavinck reforça que o casamento cristão reflete ordem e amor, nunca opressão. Onde há abuso, há ruptura desse princípio.
O Evangelho não legitima violência; ele a confronta
É preciso dizer com todas as letras: nenhum discurso religioso pode ser usado para justificar violência. Nem física. Nem psicológica. Muito menos sexual.
O Evangelho confronta o pecado, expõe o abuso e chama à transformação. Ele não protege estruturas de opressão — ele as derruba.
Qualquer tentativa de usar a Bíblia para sustentar controle ou dominação é, na prática, uma distorção grave da fé cristã.

O que esse caso nos obriga a rever
Casos como esse não são apenas tragédias isoladas. Eles revelam ideias que ainda circulam — muitas vezes sem serem questionadas.
Para os homens, fica o alerta: liderança não é poder, é responsabilidade. Amor não é troca, é entrega.
Para a igreja, o desafio é claro: ensinar com fidelidade, corrigindo distorções e não romantizando comportamentos abusivos como se fossem “papéis bíblicos”.
E para a sociedade, a reflexão é necessária: nem toda linguagem tradicional é, de fato, cristã.
Entre o domínio e a cruz
No fim, o contraste é inevitável.
De um lado, o “macho alfa” que domina, controla e exige. Do outro, Cristo, que ama, serve e se entrega.
“Vivam em amor, como também Cristo nos amou e se entregou por nós…” (Efésios 5:2 – NVI)
O homem bíblico não é aquele que impõe sua vontade dentro de casa. É aquele que, à semelhança de Cristo, aprende a amar com sacrifício, responsabilidade e verdade.










