No dia 18 de maio, é celebrado no Brasil o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. A data, instituída oficialmente pela Lei nº 9.970/2000, remete a um crime brutal que comoveu o país em 1973: o assassinato de Araceli Cabrera Sánchez Crespo, uma menina de apenas 8 anos, em Vitória (ES), vítima de sequestro, estupro e homicídio. Apesar da gravidade, o crime seguiu impune. Desde então, o dia 18 de maio passou a representar um marco na luta por justiça, memória e proteção da infância.
Para além de uma efeméride civil, esta é uma causa profundamente relevante para os cristãos, que são chamados pelas Escrituras a proteger os vulneráveis, denunciar o mal e promover a justiça. A Igreja de Cristo não pode se omitir diante de uma realidade tão dolorosa e, infelizmente, ainda comum em nosso contexto social.

A dignidade da criança aos olhos de Deus
Na tradição cristã, a criança não é vista apenas como um ser em formação, mas como um indivíduo cheio de dignidade, amado por Deus e digno de respeito. Jesus, em sua própria convivência com os pequenos, mostrou isso com clareza:
“Deixem vir a mim as crianças, não as impeçam; pois o Reino dos céus pertence aos que são semelhantes a elas” (Mateus 19:14)
Essa declaração não é apenas um gesto de carinho, mas uma afirmação teológica: as crianças são cidadãs do Reino de Deus. Negar-lhes proteção e cuidado é contrariar os valores do evangelho. Abusá-las, explorá-las ou silenciar-se diante dessas violências é profanar aquilo que o Senhor santificou.
O compromisso da Igreja com os vulneráveis
A defesa dos que sofrem e não têm voz é um tema recorrente nas Escrituras. Deus se revela como Pai dos oprimidos, juiz das causas injustiçadas e protetor dos fracos. O profeta Isaías conclama:
“Aprendam a fazer o bem! Busquem a justiça, acabem com a opressão. Lutem pelos direitos dos órfãos e defendam as causas das viúvas” (Isaías 1:17)
Nesse contexto, o abuso sexual infantil é uma das expressões mais cruéis da opressão moderna. A indiferença diante disso é pecado de omissão. A igreja é chamada a ser resposta: acolhendo as vítimas, oferecendo apoio emocional e espiritual, e atuando na prevenção com educação e vigilância.

Denunciar o mal é parte do testemunho cristão
Em Provérbios, encontramos um chamado claro à atuação ativa em favor dos que não conseguem se defender:
“Erga a voz em favor dos que não podem defender-se, seja o defensor de todos os desamparados” (Provérbios 31:8)
Esse versículo nos lembra que não basta não praticar o mal; é preciso combatê-lo. A fé cristã é, por natureza, pública e profética. A igreja deve usar sua influência para sensibilizar, informar e mobilizar sua comunidade para identificar sinais de abuso, apoiar famílias, cobrar políticas públicas eficazes e criar espaços seguros para crianças e adolescentes.
A Igreja como lugar de cura e restauração
Cristo veio para restaurar o que foi quebrado. Muitos sobreviventes de abuso carregam marcas profundas, e a igreja pode (e deve) ser um lugar de acolhimento, escuta e recomeço. Em Lucas 4:18, Jesus declara:
“O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para pregar boas-novas aos pobres. Ele me enviou para proclamar liberdade aos presos e recuperação da vista aos cegos, para libertar os oprimidos (…)”
A missão de Cristo inclui libertar os oprimidos – e essa missão continua através de Seu corpo, a igreja. Ser comunidade de Cristo significa ser refúgio para os que sofrem.
18 de maio: um chamado urgente para os nossos dias
O abuso e a exploração sexual de menores continuam a ser uma chaga em nossa sociedade. O avanço da internet, a exposição precoce (inclusive à sexualidade) e a negligência familiar têm aumentado o risco para milhões de crianças. A igreja não pode se calar. É preciso ensinar sobre o tema nas escolas dominicais, treinar líderes para identificar sinais de abuso, denunciar agressores e oferecer apoio a quem precisa.
Assim como Jesus se colocou ao lado dos pequenos, a igreja deve se levantar em sua defesa. O 18 de maio não é apenas uma data para lembrança, mas um dia para renovar nosso compromisso com o Evangelho, com a justiça e com a dignidade humana.
Que a Igreja de Cristo seja voz profética, mão estendida e coração acolhedor para toda criança que clama, mesmo em silêncio, por proteção e amor.










