Nas últimas semanas temos ouvido muitas notícias sobre as bets e as consequências das apostas esportivas para as famílias brasileiras: “Beneficiários do Bolsa Família gastaram R$ 3 bi com bets em agosto”, “Entre julho de 2023 e julho de 2024 brasileiros gastaram R$ 68,2 bilhões em apostas on-line”, “Estudo da CNC aponta que bets causam prejuízo anual de R$ 117 bilhões ao comércio brasileiro”, “Jovem de 27 anos vai parar nas ruas após perder tudo em bets”.
As bets são um problema que envolve várias áreas: não dizem respeito somente às finanças das famílias (dívidas com jogos), mas a questões de saúde mental (geram vícios e compulsões) e de justiça (são usadas para lavagem de dinheiro).
Hoje, fazer apostas está ao alcance de nossas mãos. Não há mais barreiras físicas, como antigamente, quando as pessoas tinham que sair de casa – muitas vezes escondidas – ir a uma casa de apostas, por exemplo. A compulsão e o vício estão a apenas um toque no celular de distância.
Peculiarmente, para nós, brasileiros, existe um agravante: com as bets, o vício em apostar pode estar associado ao prazer de assistir uma partida de futebol, a paixão nacional, o que pode criar uma retroalimentação de poder duplamente destrutivo.
Então o perigo é maior e muito mais latente do que se imagina.
O que a Bíblia diz sobre apostas ou “bets”?
A Bíblia não aborda diretamente a questão das apostas ou jogos de azar. Mas segundo a palavra de Deus, devemos agir com prudência e evitar procurar meios de ganhar dinheiro fácil. Todo dinheiro obtido de forma desonesta desagrada a Deus. Jogos de azar, além de destruir famílias por consequência do vício, induzem as pessoas a superstições.
Superstição é o oposto da fé bíblica.
A superstição é uma crença ou noção sem base na razão ou no conhecimento, que leva a criar falsas obrigações, a temer coisas inócuas, a depositar confiança em coisas absurdas.
A fé bíblica é a convicção na Palavra e nas promessas do único Deus verdadeiro e a experiência disso em nossa vida: “A fé é o firme fundamento (certeza) das coisas que se esperam; e a prova das coisas que não se veem” (Hb 11.1). “Sem fé é impossível agradar a Deus. Pois quem se aproxima de Deus precisa crer que Ele existe e que recompensa aqueles que o buscam” (Hb 11.6).
Enquanto a superstição nos leva a acreditar no acaso com base no achismo, em nada concreto, a fé bíblica nos leva a depositar nossa confiança no Deus verdadeiro, em Sua Palavra inerrante e infalível e em Suas promessas inquebráveis.
4 Princípios bíblicos que podem ser aplicados para apostas/jogos de azar
Primeiro precisamos ter em mente o modo de existência dos jogos de azar e das apostas.
Apostas ou jogos de azar, o próprio nome diz: é feito para a grande maioria ter azar. Ou seja: o azar é a regra (isso, embora na Bíblia você não encontrará tal coisa como azar ou sorte como fruto do acaso, já que tudo está rigorosamente sob o controle e a condução de Deus. A história está nas mãos de Deus e Ele sabe todas as coisas, nada pega ele de surpresa. A Bíblia nos chama à fé em Deus e não a confiar em ‘obra no acaso’).

No caso de jogos de azar, então, podemos considerar que a lógica é o “azar”. Em outras palavras: a lógica é que você irá perder, porque perder é a regra. E é assim que esse tipo de jogo se mantém: 99,9% das pessoas é iludida com uma promessa de vitória, porque sempre vai perder. É o dinheiro dos perdedores que sustenta o jogo. Esses jogos só existem por causa disso.
Então o próprio nome já denuncia o motivo perverso do jogo: o “azar”, ele é feito para você perder.
1º princípio bíblico: a prudência
Diante disso, um 1º princípio bíblico para ser aplicado neste caso está em 1 Tessalonicenses 5.22: “Abstenham-se da aparência do mal”, segundo o apóstolo Paulo.
Provérbios 22.3 vai dizer: “O prudente percebe o perigo e busca refúgio; o inexperiente segue adiante e sofre as consequências”.
A Bíblia nos chama sempre à prudência: na Bíblia, ser prudente significa ser sábio, cuidadoso e responsável em nossas decisões e ações. A prudência envolve pensar antes de agir, considerar as consequências e agir de forma justa e correta, conforme os ensinamentos de Deus.
Viu que o negócio é mal, que “vai dar ruim”, que é feito para você perder: fuja! Tome uma decisão prudente e sábia!
2º princípio bíblico: o contentamento
O mandamento bíblico é que ganhemos o nosso sustento (ou o nosso dinheiro) “do suor do nosso rosto”: “No suor do teu rosto, comerás o teu pão” (Gn 3.19). O apóstolo Paulo vai exortar a igreja: “Se alguém não quer trabalhar, também não coma” (1 Ts 3.10).
Nosso sustento vem do nosso trabalho. É bíblico que trabalhemos de forma digna, honesta e diligente para a glória de Deus e para o sustento de nossos lares.
Provérbios 13.11 vai dizer: “A riqueza obtida com facilidade, essa diminui, mas quem a ajunta pelo trabalho, esse a vê aumentar”. Essa é uma promessa para aqueles que estão em Deus e sabem que devem utilizar seu dinheiro com prudência.
Hebreus 13:5 vai nos chamar a nos contentarmos a uma vida de alegre submissão a Deus, que está conosco e tem planos de bem para nós (Jr 20.11). E também vai alertar sobre a avareza: “a vida de vocês seja isenta de avareza. Contentem-se com as coisas que vocês têm, porque Deus disse: “De maneira alguma deixarei você, nunca jamais o abandonarei.”
Contente-se, portanto, em levar uma vida piedosa, de alegre submissão a Deus, sendo grato por tudo o que Ele te deu – sobretudo sendo grato e louvando-o diariamente pela salvação que Cristo Jesus conquistou para todo aquele que crê, na cruz do Calvário. Quem tem a Deus, já tem tudo, nada falta (Sl 23.1).
3º princípio bíblico: o perigo da cobiça ao dinheiro
“Os que querem ficar ricos caem em tentação, em armadilhas e em muitos desejos descontrolados e nocivos, que levam os homens a mergulharem na ruína e na destruição, pois o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males. Algumas pessoas, por cobiçarem o dinheiro, desviaram-se da fé e se atormentaram com muitos sofrimentos” (1 Timóteo 6:9-10)
A passagem é autoexplicativa. A falta de contentamento, a cobiça, a vontade de enriquecer e o amor ao dinheiro denotam a falta de domínio próprio, característica do fruto do Espírito Santo. Trata-se de um desejo descontrolado e nocivo, que traz ruína e destruição à própria pessoa, à sua família e às pessoas ao seu redor, afastando-a de Deus e causando muito sofrimento.
Quantas famílias você não conhece ou, ao menos ouviu falar, que perderam tudo ou estão em uma situação muito difícil por causa do vício em jogos, apostas ou bets? Portanto, cuidado com a cobiça ao dinheiro. “Quem ama o dinheiro jamais terá o suficiente; quem ama as riquezas jamais ficará satisfeito com os seus rendimentos” (Eclesiastes 5.10).
Ao invés de cobiçar e servir o senhor dinheiro, escolha amar e servir ao Senhor Jesus, Filho do Deus vivo: “Ninguém pode servir a dois senhores; pois odiará um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro” (Mateus 6:24). Escolha Jesus.
4º princípio: a boa mordomia bíblica
Levando em conta que tudo é de Deus, criado por Deus e feito para a glória de Deus (Sl 24.1-3; Rm 11.36), e que somos chamados a sermos servos bons e fiéis de tudo aquilo que Deus nos confiou (Mt 25.21), precisamos levar em conta o princípio da mordomia bíblica.
Mordomia bíblica é cuidar bem, administrar bem aquilo que Deus nos deu. Tudo é de Deus e somos apenas administradores – da nossa saúde, do nosso tempo, da nossa família, dos nossos recursos e bens -, cuidando de tudo isso para o louvor da glória de Deus.
Passo, portanto, a compartilhar uma sentença de R.C. Sproul sobre o assunto:
“Creio que a questão real a respeito de apostas e loterias estaduais, do ponto de vista bíblico, se centraliza no princípio bíblico da mordomia. Deus nos dá certos recursos, benefícios, talentos e habilidades, e somos responsáveis por usá-los com sabedoria. Deus não é favorável ao desperdício de dinheiro, à falta de cuidado com os bens que ele nos dá. O grande problema com o jogo/apostas é a má mordomia. Numa corrida de cavalos, ou de cachorros ou numa loteria estadual as desvantagens são tão grandes contra você, especialmente em agência de aposta, que todos representam um mau uso de seu capital de investimento. Nessa altura, eu diria que os cristãos não devem apoiar este tipo de empreendimento”¹.
Pegar o nosso suado dinheiro, que deve suprir as nossas necessidades, sustentar os nossos, ser usado para lazeres lícitos e investido na obra de Deus, e usá-lo em serviço à nossa cobiça em algo cuja probabilidade de perdê-lo é enorme, é imprudência e má mordomia.
Conclusão
Portanto, ao nos depararmos com bets, apostas, jogos de azar e afins precisamos ponderar: é prudente que eu tome a decisão de jogar, a partir dos princípios pelos quais a Palavra de Deus instrui a minha vida e a minha relação com o dinheiro? Essa é a principal pergunta que deve ser feita. E creio que conseguimos dar alguns caminhos para a resposta no decorrer deste texto.
Precisamos cuidar do dinheiro que Deus provê à nossa vida de forma responsável, cuidadosa, prudente e santa, utilizando-o para a glória de Deus e não para satisfazer as nossas cobiças.
Levando em conta os quatro princípios elencados é apaziguado afirmar que as bets são amplamente desaconselhadas de acordo com o entendimento bíblico. Além de não trazerem glória ao nome de Deus, ainda destroem aquilo que Ele nos deu de mais precioso: nossas vidas e nossas famílias.
Que o Senhor nos dê entendimento e discernimento para fazer as melhores escolhas para o louvor da glória de Seu Nome. Amém.
¹ Boa Pergunta, R.C. Sproul, p. 290, Editora Cultura Cristã – compartilhado do site Monergismo.










