Com uma rica história no esporte que começou a ser contada em 29 de julho de 1902, o Clube de Regatas Saldanha da Gama, que acaba de completar 120 anos, ganhou espaço nobre 30 anos depois. O Forte São João foi construído, no início do século XVIII, para ser uma fortaleza e proteger a ilha de Vitória de invasões estrangeiras. Em 1931, foi oficialmente comprado pelo Clube de Regatas Saldanha da Gama e passou a ser espaço aberto à prática de esportes, festas e solenidades. Hoje, o Saldanha da Gama é a única construção com características de fortificação existente na Capital.
O surgimento em 1902 do “Clube de Regatas Álvares Cabral” – grande rival do “Saldanha da Gama” – teve grande repercussão na cidade de Vitória. Um grupo de amigos, inspirados pela ideia, se reuniu na casa do alemão Franz Jognell para a criação de um novo clube. Em 29 de julho do mesmo ano ele é oficialmente inaugurado, recebendo o nome do almirante Luiz Felipe Saldanha.
Segundo informações do livro “Clube de Regatas Saldanha da Gama: lutas e glórias, 105 anos de vitória”, o Saldanha foi a agremiação capixaba que mais títulos conquistou no setor amadorista, com atletas reconhecidos em âmbito nacional e internacional. “Primeiramente no remo e no atletismo, depois na natação e no polo aquático, passando pelo basquete, vôlei, futebol de salão, handebol até chegar ao tênis e tiro ao alvo, o Saldanha revolucionou a prática desportiva no Estado”.
Clube social e esportivo
Inicialmente voltado à prática esportiva, a necessidade de atrair um maior número de sócios, fez com que o Saldanha diversificasse a sua atuação. Com festas realizadas na própria sede ou no Teatro Carlos Gomes, além dos famosos concursos para escolha dos nomes dos barcos, o clube começou a mostrar para a sociedade que poderia proporcionar, além da diversão das disputas esportivas, muita animação nos seus grandiosos salões. A primeira delas, anunciada com salvas de dinamite, foi pela comemoração dos 25 anos de fundação. O carnaval também era um período de muita movimentação, em que ocorriam três matinês e o “Grande Baile”. Ocasião em que as rivalidades eram ligeiramente esquecidas e os sócios frequentavam as festas dos dois clubes.
A partir de 1969, com a inauguração do “Bar Boteko” no porão do “Forte São João”, era comum a presença de artistas da Música Popular Brasileira, como Caetano Veloso, Gal Costa e Maria Bethânia. Muita gente de Vitória ainda sente saudades daqueles tempos. Músicos consagrados da cena capixaba deram lá os seus primeiros passos. Outros se aprimoraram. O Bar Boteko funcionou até 1973, mas até hoje vive na lembrança de muitos saldanhistas.
O esporte náutico capixaba, que se confunde com o Saldanha da Gama, tem origem nas regatas do dia de Santa Catarina, que ocorriam em um único páreo, em longas canoas tripuladas por pescadores. O ponto de partida era a Pedra dos Ovos, próxima ao Penedo e a chegada, na atual Vila Rubim. O Espírito Santo, por muitos anos, foi referência nessa modalidade, principalmente nas décadas de 1920 e 1930. Diversos atletas se destacaram, como por exemplo, Catarina Czartoryska, que em 1936 foi integrante da primeira geração do remo feminino no Estado e pioneira em remar um “skiff”. Pode-se citar também, Elizio Ribeiro de Oliveira, revelação da década de 1950 e considerado na época o remador mais completo do Brasil.
Estrutura
Em meio as dificuldades enfrentadas para manter em funcionamento a estrutura do clube, o presidente do Marcos Hilário Perini comemora a iniciativa do Governo do Estado do ES, que vai proporcionar uma nova estrutura para o Saldanha da Gama. Para ele, a compra das instalações pela Prefeitura de Vitória e a posterior permuta com a o governo estadual vai dar ao clube, equipamentos que vão, a médio prazo, proporcionar mais conforto e gerar atrativos para o grupo de sócios atual e incentivar a chegada de novos associados. Hilário acredita no fortalecimento do clube, com a implantação de projetos com a participação do Poder Público. ”O Saldanha hoje é um clube totalmente regularizado do ponto de vista fiscal o que facilita a participação e o apoio dos vários níveis de governo”, ressalta
Para o presidente a negociação vai ser saudável para o clube. “O Saldanha vendeu a sede para a PMV. Há um ano a prefeitura permutou a estrutura com o estado, em troca de áreas em Bento Ferreira. A primeira inciativa foi a instalação da Secretaria de Turismo no local. No complemento do projeto virão restaurante, área cultural, além de melhorias nos acessos ao clube”, disse.
Marcos Hilário (foto) fala do potencial esportivo do Saldanha da Gama que perdeu muito com o passar do tempo, principalmente no remo, que já foi a sua principal modalidade. “O basquete é hoje a principal atividade esportiva do clube. Neste esporte, que tem o comando do diretor João Elias, temos todas as categorias em funcionamento. Outro esporte que temos forte no clube é o futsal. “Eu lamento o enfraquecimento do remo, que se deu em todo o Brasil e no Espírito santo não foi diferente. A falta de estrutura nacional refletiu na atividade no Espírito Santo”.
Perfil
Jornalista e ex-presidente do Clube Saldanha da Gama, Fernando Zamboun, afirma que as dificuldades enfrentadas pelo clube foram proporcionadas, principalmente pela mudança de hábitos e consequentemente do perfil da população, que com o passar do tempo, foi diminuindo a participação das comunidades na vida do clube. Nos seis mandatos em que dirigiu a instituição, entre 1981 e 2014, Zamboun afirma que presenciou uma diminuição do potencial do clube, não só do ponto de vista social, como também esportivo.
Ele fala que a única fonte de arrecadação era a parte social, que foi enfraquecendo com o passar do tempo, em função da implementação da vida social nos condomínios. “Chegou o momento em que o esporte foi se profissionalizando e, sem arrecadação, ficou difícil conseguir manter uma equipe adulta de futebol de salão, ou de basquetebol, que eram umas das referências do clube, até porque em outros estados o esporte estava sendo profissionalizado”, disse.
Não só nas suas atividades na gestão do clube, mas como parte da comunidade saldanhista, Fernando Zamboun, ressalta que presenciou a participação do clube na formação dos atletas, sócios e familiares. “É inegável que o Saldanha da Gama teve uma participação muito forte na visa dos capixabas e são inúmeras as pessoas que tem uma história pra contra ligada ao Saldanha da Gama”, afirmou Zamboun.
Na opinião do ex-presidente, o projeto de melhorias que será capitaneado pelo governo do estado na estrutura do Saldanha da Gama será benéfico para o futuro do clube. “Falta apenas alguns detalhes para que os projetos possam ser efetivados. No local vai ter restaurante, artesanato, espaço pra cultura, enfim, uma infraestrutura que vai funcionar como atrativo para a comunidade e consequentemente, para atrair novos sócios para o clube”, finalizou.
Com informações do arquivo Público do Espirito Santo.









