Entre altares e túmulos: a história dos cemitérios de Vitória

Muito antes de os cemitérios de Santo Antônio e Maruípe receberem as homenagens do Dia de Finados, os mortos de Vitória eram sepultados dentro de igrejas, em pátios religiosos e nos terrenos ao redor dos templos. No Centro da capital, esses espaços guardam parte de uma história marcada pela fé, mas também pelas desigualdades sociais e raciais.

Documentos preservados no Arquivo Público Municipal, como leis, títulos de posse, projetos e fotografias, ajudam a reconstruir as mudanças nas formas de sepultamento desde o período colonial.

A proximidade com altares e imagens religiosas era associada à salvação espiritual. O lugar destinado a cada pessoa, porém, também dependia de sua posição social, dos vínculos com as irmandades e das doações feitas à Igreja.

Sepultamentos na antiga Matriz e no atual Palácio Anchieta

Com a transferência da sede da Capitania de Vila Velha para a ilha, em 1551, a Igreja Matriz, no local onde hoje fica a Catedral Metropolitana, tornou-se um dos principais espaços de sepultamento da então Vila de Nossa Senhora da Vitória. Os enterros ocorriam no subsolo e nos arredores do templo.

A Igreja e o Colégio de São Tiago, que deram origem ao atual Palácio Anchieta, também receberam sepultamentos de religiosos, colonos e indígenas convertidos ao catolicismo.

Foi diante do altar-mor da Igreja de São Tiago que o padre José de Anchieta foi sepultado, em 1597. Seus restos mortais foram posteriormente distribuídos entre diferentes destinos. Atualmente, a cripta do palácio preserva um relicário com um fragmento de seu fêmur.

Doações garantiam espaço no Convento do Carmo

Fundado em 1682, o complexo do Carmo abrigava sepulturas de religiosos, fazendeiros e benfeitores. Como a construção dependia de doações, espaços nas catacumbas eram cedidos a integrantes da elite que contribuíam com a ordem.

Um dos casos foi o do capitão Manuel Torres de Sá, morto em 1701. Ele deixou fazendas, engenhos de cana-de-açúcar e pessoas escravizadas para a Igreja, em troca de missas por sua alma e do direito de ser sepultado no convento.

As mudanças de uso do prédio e as reformas posteriores removeram a maior parte dos túmulos coloniais, embora ainda existam vestígios arquitetônicos desse período.

Rosário guarda memória da população negra

Construída a partir de 1765 por pessoas escravizadas e libertas, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos mantém um importante registro da história dos sepultamentos da população negra no Espírito Santo.

Em uma sociedade que restringia o acesso de pessoas negras a espaços religiosos e funerários, a irmandade assegurava o sepultamento de escravizados e alforriados no terreno ao lado do templo. Muitas dessas sepulturas não possuem identificação.

Em 1912, com as restrições sanitárias aos enterros em áreas urbanas, as ossadas do pátio foram transferidas para um terreno adquirido pela irmandade no Morro do Pinto, próximo a Santo Antônio. As sepulturas no interior da igreja foram preservadas.

Convento de São Francisco também abrigou cemitério

Inaugurado em 1596, o Convento de São Francisco possuía jazigos no pátio e nas paredes internas, destinados a religiosos e pessoas de maior poder aquisitivo, como comerciantes e autoridades.

Em 1925, o prefeito Octávio Índio determinou o fechamento definitivo das antigas sepulturas. No pátio interno, onde hoje funciona a Arquidiocese de Vitória, foi erguido um monumento com a imagem de Nossa Senhora da Imaculada Conceição. Sob ele estão reunidas ossadas do antigo cemitério franciscano.

Os registros desses espaços mostram como a história dos sepultamentos acompanha a própria transformação de Vitória: dos enterros próximos aos altares à transferência dos cemitérios para áreas afastadas do núcleo urbano da época.

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