O presidente do Sindicato dos Pescadores e Marisqueiros do Espírito Santo (Sindpesmes), João Carlos Gomes, conhecido como Lambisgoia, morreu nessa quinta-feira (9), em decorrência de um câncer. À frente da entidade há cerca de dez anos, ele se tornou uma das principais lideranças na defesa dos pescadores, marisqueiras e ribeirinhos afetados pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), em 2015.
A última agenda pública de Lambisgoia foi no dia 18 de junho, na Assembleia Legislativa do Espírito Santo (Ales), durante uma reunião da Comissão Interestadual Parlamentar de Estudos para o Desenvolvimento Sustentável da Bacia do Rio Doce (Cipe Rio Doce). Na ocasião, ele participou de uma diligência conjunta entre parlamentares capixabas e mineiros para cobrar mais transparência na repactuação do acordo de reparação dos danos causados pelo desastre ambiental.
Segundo a deputada estadual Janete de Sá (PSB), vice-presidente da Cipe Rio Doce, foi durante exames viabilizados por meio de seu gabinete que o líder sindical descobriu a doença.
Última mobilização foi pela saúde dos pescadores
Janete de Sá lamentou a morte do dirigente e destacou que, mesmo enfrentando problemas de saúde, Lambisgoia permaneceu atuando em defesa da categoria.
“Perdemos não apenas um grande líder, mas um guerreiro que dedicou seus últimos dias para dar voz aos invisíveis. A última imagem que guardaremos dele é lutando para que a saúde dos pescadores e ribeirinhos fosse tratada como prioridade. Ele sempre nos lembrava que esse debate não é apenas sobre dinheiro, mas sobre vidas humanas.”
A parlamentar também criticou a demora na assistência aos atingidos.
“Após uma década do maior desastre ambiental do país, essas famílias ainda não receberam sequer um exame médico completo para monitorar os efeitos da contaminação. O maior tributo que podemos prestar ao Lambisgoia é manter viva essa luta.”
Dez anos após a tragédia, impactos permanecem
O rompimento da Barragem de Fundão, em Mariana (MG), em novembro de 2015, lançou cerca de 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração na Bacia do Rio Doce. A lama percorreu centenas de quilômetros até chegar à foz do rio, em Linhares, no dia 21 de novembro daquele ano, atingindo o litoral capixaba.
Uma década depois, pescadores, marisqueiras e ribeirinhos afirmam que ainda enfrentam dificuldades para serem reconhecidos como atingidos, acessar programas de indenização e obter acompanhamento médico especializado.
Durante a reunião da Cipe Rio Doce, o presidente da comissão, deputado estadual mineiro Leleco Pimentel (PT), afirmou que os pescadores seguem excluídos do processo de reparação.
“Eles conhecem o rio, conhecem o pescado e são os verdadeiros agentes ambientais. Hoje não podem pescar para vender, não podem consumir o próprio peixe e continuam sem o amparo adequado.”
Recursos para a saúde
A reunião também discutiu a aplicação dos recursos destinados ao Programa Especial de Saúde do Rio Doce (PES Rio Doce).
O Ministério da Saúde autorizou o repasse de R$ 101,6 milhões para 11 municípios capixabas atingidos pelo desastre. Os recursos correspondem à segunda parcela do programa e serão destinados a Anchieta, Aracruz, Baixo Guandu, Colatina, Conceição da Barra, Fundão, Linhares, Marilândia, São Mateus, Serra e Sooretama.
Entre os maiores repasses estão Serra (R$ 21,9 milhões), São Mateus (R$ 18,6 milhões), Linhares (R$ 13,7 milhões) e Colatina (R$ 13,6 milhões).
Apesar dos investimentos previstos, representantes das comunidades afirmam que a principal reivindicação continua sendo a criação de um programa efetivo de monitoramento da saúde dos atingidos.
“Nossa principal pauta é a saúde”
Em uma de suas últimas manifestações públicas, Lambisgoia afirmou que a principal preocupação das comunidades nunca foi a indenização financeira, mas o acompanhamento médico dos pescadores.
“A nossa principal pauta é o reconhecimento de todos os pescadores do Estado e, acima de tudo, a saúde deles. Já se passaram dez anos desde a tragédia e, até hoje, não existe um mecanismo para monitorar como está a saúde dos pescadores e dos ribeirinhos.”
O dirigente também lembrou que parte da área de pesca continua interditada.
“Nossa área de pesca continua proibida. Não podemos trabalhar e muitos também não recebem assistência. Isso nos obriga a uma luta diária pela sobrevivência.”
Em outro momento, ele criticou o foco das negociações na questão financeira.
“Todo mundo fala de indenização, mas o primeiro passo deveria ter sido cuidar da nossa saúde. Vivemos do rio, sempre consumimos o peixe e, até hoje, não recebemos uma assistência médica específica.”
Cobrança por respostas
Leleco Pimentel afirmou que os recursos da repactuação precisam atender às necessidades imediatas das comunidades.
“O cronograma prevê ações para os próximos 20 anos, mas quem está sem renda e adoecido hoje não pode esperar. Nosso papel é fiscalizar para que esses recursos cumpram sua finalidade.”
Janete de Sá reforçou a necessidade de exames epidemiológicos específicos para os pescadores.
“Até hoje não foi realizado um estudo completo com esses trabalhadores, que vivem da pesca e consomem o pescado diariamente. Precisamos garantir transparência e assegurar que os verdadeiros atingidos sejam atendidos.”
A morte de Lambisgoia encerra a trajetória de uma das principais lideranças da pesca artesanal no Espírito Santo. Sua atuação ficou marcada pela defesa dos direitos dos pescadores atingidos pelo desastre do Rio Doce e pela cobrança por assistência à saúde e reparação às comunidades afetadas.










