Pobreza menor, mas resistente nas ruas capixabas

Mesmo com queda nos índices oficiais, a pobreza ainda mostra seu rosto em vielas de barro, casas improvisadas e mesas vazias. Nos números, o Espírito Santo melhorou: a taxa de pobreza caiu de 26,4% em 2022 para 22,8% em 2023, e a extrema pobreza passou de 4,1% para 2,7%, segundo o Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN). Mas, na prática, o que mudou para quem vive na ponta?

Os dados revelam que o rendimento domiciliar real médio mensal chegou a R$ 2.907, e o índice de Gini, que mede a desigualdade, está em 0,486. Entretanto, apesar dos avanços estatísticos, a realidade vivida por muitas famílias capixabas continua marcada por vulnerabilidade e ausência de serviços básicos.

No bairro Barramares, em Vila Velha, Stefane Luz sente na pele essas contradições. Moradora de uma comunidade sem saneamento e com ruas de terra, ela descreve o cotidiano: “São poucas as mudanças, porque junto com o aumento da renda vem o aumento dos custos de vida, de impostos e tributos. Muitas vezes, acaba faltando dinheiro para suprir as necessidades básicas de uma família”, conta.

O contraste entre dados e vivência cotidiana evidencia que a queda estatística da pobreza não significa necessariamente melhoria tangível na qualidade de vida. A família de Stefane, por exemplo, recebeu ajuda do governo durante a pandemia, mas os desafios persistem: acesso irregular à água, dificuldade de transporte e ausência de creches que permitam às mulheres trabalhar.

Índice de pobreza no Espírito Santo teve redução, em 2023 - Foto: reprodução
Foto: Pixabay

Mulher, mãe e moradora de região periférica, o perfil de Stefane ecoa nos números do IJSN. No Espírito Santo, a pobreza é mais concentrada na zona rural, com predominância entre crianças, mulheres e pessoas negras. Municípios como Ibitirama (58%), Ponto Belo (50,5%) e Alto Rio Novo (47,3%) apresentam os piores indicadores.

De acordo com o diretor setorial do IJSN, Antônio Ricardo, antes de analisar os dados é importante entender que a pobreza é multidimensional: “Ela não é apenas uma questão de renda. Envolve educação, saúde, saneamento básico, moradia e acesso à água potável. É um fenômeno multidimensional”, explica.

O Estado possui programas sociais relevantes, como o Bolsa Capixaba, o Cartão Reconstrução, o Programa Nossa Casa, o Qualificar ES e o CNH Social, que buscam reduzir a pobreza, ampliar a qualificação profissional e promover moradia digna. Segundo Antônio Ricardo, à medida que a pessoa consegue aumentar sua renda, melhora também sua qualidade de vida.

“Não resolve todos os problemas, mas ameniza a situação, ajuda a ter acesso à educação, moradia melhor e segurança alimentar”, pontua.

No entanto, a implementação ainda enfrenta obstáculos. Distâncias geográficas, baixa oferta de serviços e informalidade no trabalho mantêm muitas famílias em um ciclo de vulnerabilidade, mesmo com a presença de programas sociais. Para Stefane, a realidade diária não é capturada pelas estatísticas: “A nossa maior dificuldade hoje é a falta de saneamento básico, que dificulta muito o dia a dia, e a falta de asfalto, que atrapalha o transporte e a locomoção de pessoas com deficiência”, assegura.

Políticas públicas e seus limites

De acordo com a professora Maria Ângela Rosa, do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), a redução da pobreza no Brasil e no Espírito Santo tem como base a reestruturação das políticas públicas de combate à fome e à desigualdade. Programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, o incentivo à agricultura familiar por meio do Pronaf e o Plano Brasil Sem Fome, foram fundamentais para retirar o país do mapa da fome, segundo relatório da FAO publicado em 2025.

“O Plano Brasil Sem Fome envolve vários ministérios e ações que implementam programas de segurança alimentar, identificando pessoas em risco e encaminhando para atendimento integrado no Sistema Único de Assistência Social (SUAS) e no Sistema Único de Saúde (SUS), bem como no Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Sisan)”, detalha Maria Ângela.

Entretanto, apesar do avanço nos números, a docente ressalta que ainda existem entraves históricos e culturais, dificuldades burocráticas e limitações de acesso que comprometem a efetividade dos programas.

Para a especialista, a desigualdade estrutural do país também influencia a oferta de serviços: bairros mais distantes e menos influentes politicamente sofrem com a carência de creches, escolas, postos de saúde e transporte. “Em geral, há desconhecimento dos direitos de cidadania por parte da população, o que impede a mobilização para transformar a realidade”, pontua.

Segundo Rosa, a solução passa pela articulação das políticas públicas e pela conscientização cidadã. “Cabe aos gestores locais divulgar entre os beneficiários a necessidade de manterem os dados atualizados, mas o mais importante é que os cidadãos atuem de forma organizada junto ao poder público para que suas necessidades sejam atendidas e os problemas da comunidade sejam resolvidos”, alerta.

O que os números não mostram de acordo com a voluntária e integrante da diretoria da Organização Não Governamental Anjos Amigos, Carol Cavedo, os índices oficiais de pobreza capturam apenas uma parte da realidade. Em campo, ela observa vulnerabilidades persistentes: trabalho informal instável, custo de vida elevado, insegurança alimentar recorrente, endividamento e dificuldade de acesso a serviços básicos.

Apesar disso, a ONG observa impactos concretos quando políticas públicas e iniciativas locais se articulam de forma contínua. “É importante destacar que resultados sustentáveis decorrem de um pacote integrado de intervenções no nível local”, ressalta.
“A articulação de políticas públicas, somada à atuação contínua de grupos como o Anjos Amigos em comunidades específicas, potencializa impactos. Observamos no nosso dia a dia que as frentes em que atuamos têm impacto direto na renda, na alimentação e na dignidade das famílias atendidas”, afirma Carol.

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