Líderes e fanatismo: o que leva uma pessoa a matar ou morrer por uma seita?

Recentemente, após a soltura de uma das integrantes da “Família Manson”, seita responsável por uma série de assassinatos brutais em Los Angeles, no Estados Unidos, em 1969, casos envolvendo líderes fanáticos voltaram a repercutir nas redes.

Leslie Van Houten, hoje com 73 anos de idade, tinha 19 anos quando esfaqueou uma mulher na barriga por cerca de 15 vezes. A jovem, que na época era a mais nova integrante da seita, liderada pelo criminoso Manson, passou 53 anos na cadeia, mas, mesmo condenada à prisão perpétua, passou para a liberdade condicional.

A notícia fez ascender a discussão sobre o poder que esses líderes possuem de arrastar grupos e convencer pessoas a colocarem em prática suas ideias cruéis. Afinal, Manson organizou e fez com que seus “discípulos” matassem por ele. O que explica esse fenômeno no ponto de vista psicológico?

De acordo com a psicóloga Elza Leite, inúmeros fatores podem contribuir para que pessoas sigam de forma fanática e alienada um líder perverso. No caso de Charles Manson, ele criou uma ideologia alternativa e a nomeou de “família”, exercendo uma influência manipuladora sobre seus seguidores.

Uma das explicações válidas para tal dominação seria a de que Charles, com seu poder de persuasão, teria se tornado uma referência, inclusive paterna, para os seguidores. Sob a liderança dele, o grupo se envolveu em uma série de crimes e assassinatos motivados por uma mistura de ideias distorcidas, como uma suposta “guerra racial” e uma visão apocalíptica do mundo.

“Se eu pego pessoas que possuem carência familiar e afetiva, que não tiveram apego seguro de seus pais, e as acolho como membros de uma família, isso vai fortalecer nelas a sensação de se pertencer a um clã, incentivando a ideia de que se pode matar ou morrer por aquele grupo, porque, culturalmente, nós aprendemos que família é algo que precisamos defender e proteger”, explicou.

Outro motivo capaz de explicar tal fenômeno seria a questão do fanatismo. O caso da família Manson não pode ser visto como algo isolado, tendo em vista que, ao longo da história, diversas seitas e grupos chocaram o mundo por suas atrocidades. Adolf Hitler foi um grande exemplo da capacidade de um único individuo conseguir disseminar e validar na mente de outras pessoas o seu pensamento sobre determinado grupo.

“O fanatismo traz uma espécie de cegueira, é como se eu não conseguisse criar na minha mente nenhum nível de raciocínio, como se o meu ponto de vista fosse um ponto final e, qualquer pessoa que discorde desse ponto de vista, mereça ser punido, mereça morrer”,

A manipulação também é uma grande questão a se discutir em casos como este. Elza assegura que a própria história evidencia a grande quantidade de conteúdo manipulativo presente em Manson.

Segundo os relatos, ele estimulava a “equipe” dizendo que os indivíduos eram homens e mulheres de ação, mexendo diretamente no ego, na maneira dessas pessoas serem e existirem no mundo.

“É como se eu encorajasse essas pessoas para que essas ações fizessem elas terem valor. Então, por exemplo, “vocês são homens de ação”, e a ação que vocês precisam fazer é matar uma característica de pessoas. Eu percebi que ele tinha uma obsessão por pessoas brancas e ricas e as pessoas, em nome disso, dessa ação, de se colocar no mundo, matavam, cumpriam o propósito”, ressaltou.

Elza frisa que perfis parecidos se atraem. Sendo assim, não seria um equívoco dizer que os seguidores de Manson, por exemplo, eram indivíduos que nutriam entre si a mesma ideia, devoção e dedicação a determinados objetos, pessoas e crenças.

“O fator de pertencimento social merece atenção, já que, se essas pessoas fossem falar suas ideias para qualquer outro indivíduo, elas, automaticamente, seriam marginalizadas, não sendo consideradas normais. Então, por precisar pertencer a um determinado grupo, elas buscam pessoas de pensamentos semelhantes e, com o advento da tecnologia, o que a gente chama de grupo de cultos de assassinos múltiplos tem se tornado cada vez mais comum”.

Perversidade ou insanidade mental?

Família Manson
Foto: reprodução – G1

De acordo com a psicóloga, dois grupos de pessoas se enquadram no perfil dos que são facilmente atraídos por lideranças fanáticas. O primeiro é composto por aqueles que possuem um nível de perversidade altíssimo, que, quando encontram a oportunidade de colocarem em prática todas as suas crueldades, se veem em um casamento perfeito.

Já o outro grupo é composto por pessoas que possuem componentes psiquiátricos, distúrbios, transtornos ou algo mais agravado. Esses problemas psicológicos tornam esses indivíduos fáceis de serem seduzidos e influenciados a cometerem atos perversos.

“A gente tem nesses perfis algumas pessoas que não possuem muita capacidade de decisão. São pessoas muito vulneráveis, que acabam se tornando alvos perfeitos. O foco de um líder perverso sempre será pessoas maquiavélicas e psicopatas, ou, também, pessoas que possuem transtornos psiquiátricos”, frisou Elza.

Cabe destacar ainda, que, quando o assunto é a psicopatia, múltiplos fatores estão envolvidos. Segundo a especialista, uma pessoa pode nascer perversa e desde criança já manifestar ações que apresentem a falta de empatia e o prazer em ver a dor e o sofrimento do outro.

No entanto, o ambiente e as circunstancias também são capazes de desenvolver, em um indivíduo, a vontade de praticar atos perversos. Um contexto de muita vingança, punição, raiva e ódio, por exemplo, pode acabar contaminando uma pessoa.

“Temos, então, a questão genética, a neurológica da patologia, desse fator, mas também temos as questões da vida. Uma pessoa, por exemplo, que sofreu um trauma e não consegue trabalhar a mágoa de forma positiva, acaba se tornando alguém que vai praticar crimes semelhantes ou ainda piores com outras pessoas por mera vingança, a fim de compensar algo”, explicou a psicóloga.

A história conta que Manson, por exemplo, foi uma criança que vivenciou questões familiares negativas, que, além de não conhecer o pai, teve uma mãe extremamente problemática. Segundo uma breve análise da especialista, o contexto mostra que ele foi uma criança que cresceu sem apego seguro, sem uma base socioemocional positiva.

“Por isso, a gente não pode afirmar com precisão se esse cara nasceu assim ou se ele se desenvolveu assim em um ambiente que o tornou assim. Lembrando que ele pode ter nascido assim e piorado, por conta das circunstâncias, mas ele é um caso que a gente pode atribuir que a falta do apego seguro contribuiu para que ele se tornasse essa pessoa tão tenebrosa”, frisou.

Existe cura para a psicopatia?

Líderes e fanatismo: o que leva uma pessoa a matar ou morrer por uma seita?
Suzane Richtofen, condenada à 39 anos de prisão por matar os pais. Foto: André Vieira/Marie Claire

Segundo Elza, quando o assunto é a psicopatia, não existe perspectiva de cura, mas pode haver um acompanhamento. Entretanto, a grande dificuldade é a pessoa psicopata se submeter a esse acompanhamento.

“Apesar disso, essas pessoas podem voltar a viver em sociedade, desde que cumpram a pena. No Brasil, a gente tem a Suzane Richtofen, que é uma menina perversa e esta cumprindo a pena em liberdade, podendo sair da prisão e se reinserir na sociedade”, destacou.

Para relembrar o ocorrido, Suzane foi presa em 2002 e condenada em 2006 por matar os pais a pauladas enquanto dormiam, com a ajuda do namorado, Daniel Cravinhos, e do irmão dele, Christian. Ela foi condenada a 39 anos e seis meses de prisão e, atualmente, segue cumprindo a pena em liberdade condicional.

“Do ponto de vista legal, psicopatas podem voltar a conviver em sociedade, mas a grande questão aqui é se: não existe cura, existe o risco. Nós estamos vivendo entre psicopatas, perversos, correndo o risco o tempo todo sem se dar conta de que eles são assim. Então, essas pessoas, de fato, representam um perigo para todos nós”, pontuou.

Casos que chocaram o mundo

Ao longo dos anos, alguns casos de seitas que chocaram o mundo, com suicídios em massa e assassinatos cruéis, marcaram a história da sociedade. Dentre os acontecimentos, ganham destaque o “Templo do Povo”, liderado por Jim Jones, a “Família Manson”, liderada por Charles Manson e o “Ramo Davidiano”, liderado por David Koresh.

“Templo do Povo”

seita
Foto: reprodução – G1

A seita foi fundada por Jin Jones, nos Estados Unidos, em 1955, e, no auge, chegou a ter 20 mil seguidores. Na década de 1970, crente de que uma guerra nuclear era iminente, ele levou seu grupo para Guiana, país que acreditava estar fora da zona de perigo.

Quando denúncias contra o culto começaram a surgir, o congressista norte-americano Leo Ryan decidiu ir até o local para investigar. Além de matar Ryan e seu grupo, Jones mandou seus seguidores beberem veneno, provocando a morte de 918 pessoas. O episódio foi considerado o maior suicídio em massa já ocorrido no mundo.

“Família Manson”

Charles Manson
Foto: reprodução – Netflix

Charles Manson foi um dos criminosos mais famosos do século 20. Ele ordenou que seus seguidores, conhecidos como “família Manson”, cometessem uma série de assassinatos, entre os quais o da atriz Sharon Tate, que estava grávida de 8 meses.

Manson morreu na prisão em 2017, condenado por nove homicídios praticados de forma brutal. Ele, que era racista, queria instigar uma espécie de guerra racial nos Estados Unidos.

“Ramo Davidiano”

O grupo surgiu em 1955, liderado por David Koresh, que ficou conhecido pelo cerco de Waco, no Texas, em 1993. A seita acreditava no retorno de Jesus Cristo e Koresh os convenceu a se armar para o apocalipse. Agentes do departamento de Álcool, Tabaco e Armas de Fogo invadiram o rancho do grupo com base na informação de que eles estariam acumulando armas.

A invasão provocou uma batalha armada que durou 51 dias e matou quatro agentes e seis membros da seita. O lugar pegou fogo quando a Polícia Federal invadiu com gás lacrimogêneo. Do grupo, 75 seguidores morreram no incidente.

David Koresh
Foto: reprodução – G1

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